Poetas, cancioneiros e as violas lembram sempre a sentença do profeta Conselheiro de que o sertão vai virar mar. Em minha humilde visão lunática, entendo que o sertão vai é virar deserto, como já estamos vendo em diversas partes do nosso castigado Nordeste através das secas e depredações do ser humano.

Quando bate a forte estiagem, a paisagem já mostra esse cenário desértico onde o sal está comendo a terra, e o sertanejo não tem mais onde plantar. Os rios que enchiam nossos olhos de fartura de peixes com suas corredeiras, estão secando. Os perenes virando temporários, e outros simplesmente desaparecendo por completo.

O sertão vai virar deserto, meu amigo, porque a nossa exuberante caatinga está definhando pelos desmatamentos. Muitas carvoarias transformaram suas árvores em carvão. As cores das flores do nosso sertão não são as mesmas de antigamente quando batiam as águas de verão.

Os governos não pensam em recuperar e preservar nosso bioma, o único do mundo que está localizado em mais de 60% do nosso Nordeste, conhecido também como o semiárido. Só se vê carros-pipas entre as poeiras das estradas quando a água some dos tanques, dos poços e açudes. O pior é que ela é cada vez mais salgada, que nem serve para os bichos. As pessoas viajam léguas com seus burricos transportando água em carotes. Quem não possui o animal, o jeito é lata d´água na cabeça.

Sem essa de sertão vai virar mar. Não passa de uma falsa lenda profética que caiu na cabeça dos poetas, repentistas e cantadores para juntar gente nas feiras e palcos. É só uma força de expressão.

Quando criaram as barragens no leito do São Francisco, o “Velho Chico”, para produzir eletricidade, a profecia se tornou mais viva. Então cantaram, o sertão virou mar. Bastou uma seca forte para as águas baixarem, as margens ficarem estreitas e os areões encolherem o grande rio. O ribeirinho entrou em desespero.

Sem essa de que o sertão vai virar mar. Acabaram com as matas ciliares, os peixes sumiram e nada de revitalização. Os afluentes estão na mesma situação e só fazem retirar, sem repor. É como gastar dinheiro além do limite. Quem viver verá o sertão virar deserto e a viola bater em outro tom bem mais triste e lamentoso, para contar uma história ao contrário.