A partir de 1930, os cangaceiros passaram a ter uma indumentária própria, exibindo ostentação em seus ornamentos, com ouro e pedras preciosas nos chapéus, nos bornais, nas cartucheiras e nos dedos das mãos. A de Lampião se destacava entre todas como o “rei do cangaço”.
A autora da obra “Lampião-Senhor do Sertão”, Élise Grunspan-Jasmin faz um detalhe minucioso sobre suas vestimentas que passaram também a ser adotadas pelas forças volantes no caso das camisas, alpercatas, das calças e dos chapéus, para enfrentar os garranchos, os espinhos e o solo das caatingas, mas sem a riqueza dos bandoleiros.
O peculiar estilo das roupas se tornou seu signo característico, sua marca, sua assinatura como descreve Élise sobre o cangaço. Na maioria das vezes, os homens confeccionavam suas roupas, como Lampião, que antes de entrar para o cangaço, costurava e bordava. Fotos mostram ele e Luis Pedro bordando os paramentos numa máquina Singer.
Quando foi para o cangaço, Dadá, a mercê de seus dotes e criatividades, fazia as roupas de Lampião e Corisco, seu marido. Ela mudou os motivos dos bordados. Em 1932 lançou a moda do couro branco costurado nos chapéus, flores em tecido colorido, bordadas nos bornais, perneiras e cinturões, isto quando os bandos estavam escondidos no Raso da Catarina e outros esconderijos.
Os motivos e as estrelas dos chapéus variavam de um cangaceiro para o outro, de acordo com seu status no grupo. Em Lampião, os motivos representavam flores brancas cercadas de um círculo sobre fundo branco. Em alguns chapéus, apareciam árvores estilizadas feitas de couro branco, bem como, estrelas com oito ramificações sobre fundo negro, como o de Corisco.
Todos os chapéus tinham medalhas e moedas. O de Lampião era tão carregado que, depois da sua morte, um jornalista descreveu sua indumentária como “verdadeira exposição de numismática”. Suas roupas foram depois inventariadas e expostas pela Policia Militar de Alagoas, mas depois passaram para o Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas.
Seu chapéu era ornado em alto relevo, (sete moedas e 25 medalhas de ouro) com seis signos de Salamão, ornado em ambos os lados com 55 peças de ouro. Os botões para colarinhos e punhos tinham as inscrições ”AMOR”, com as iniciais C.L.; os anéis de pedras preciosas tinham as gravações com o nome “Santinha” em referência a Maria Bonita; testeira com moedas e medalhas com a gravação “Deus te Guie”.
Os lenços dos cangaceiros eram geralmente de seda inglesa ou tafetá francês. O de Lampião era de seda vermelha, bordado nos quatros cantos. Os bornais dos cangaceiros tinham alças bem largas, feitos de tecidos resistentes, com vários bolsos e bordados na parte exterior, com motivos florais e botões de ouro e prata.
Nos bornais, continham comida, mudas de roupas e medicamentos. Outros eram destinados a guardar balas que não cabiam nas cartucheiras. Tudo era feito para não ferir as pelas nas travessias das caatingas.
As calças eram geralmente curtas, obrigando os cangaceiros a usar perneiras de couro para se proteger dos espinhos. Levavam duas cobertas que cruzavam sobre o tórax. Usavam luvas, algumas bordadas, como a de Lampião.
As bainhas dos punhais, as cartucheiras e as correias dos fuzis completavam a riqueza dos trajes. Lampião e seus companheiros usavam armas do exército nacional. A faca do chefe era ornada com três anéis de ouro e sua cartucheira tinha capacidade para 121 cartuchos para o fuzil Mauser.
De acordo com jornais da época, os cães não escapavam da ostentação. “Dourado”, o cão de Lampião foi morto por uma força volante e possuía uma custosa coleira com incrustações a ouro e prata. Paradoxalmente, como diz a escritora Élise, a vestimenta foi copiada pelos seus inimigos.
As mulheres eram muito bem tratadas pelos seus respectivos companheiros, mas castigadas com a morte, de forma cruel, em causa de traição (Cristina e Lídia). Elas logo se adaptaram ao novo estilo de indumentária. Dadá dizia que havia dois tipos de roupas femininas, a típica das mulheres de cangaceiros usadas nas longas marchas e vestidos à moda dos habitantes das cidades.
A roupa típica era confeccionada de pano cinzento grosso que protegia das intempéries do sol e dos espinhos. O vestido só podia chegar até abaixo do joelho e nada de cabelo curto e decotes. As mangas, bordadas com galões coloridos, eram longas para cobrir os pulsos. Os vestidos tinham cinco bolsos, um na altura do seio, dois na cintura e mais dois de cada lado dos quadris.
Também usavam luvas bordadas e anéis nos dedos, na maioria de ouro e pedras preciosas. O valor do seu anel dependia da importância do cangaceiro a quem pertenciam. Suas sandálias eram de couro resistente.
Calçavam meias feitas do próprio tecido e perneiras macias de couro até os joelhos. Como os homens, lenços com cores vivas. Também levavam consigo seus bornais e neles continham roupas, munições, perfume, sabonetes de boa qualidade e pó de arroz, bem como, duas cabaças, uma com água e outra com açúcar e conhaque. Traziam na cintura um punhal e armas, embora não participassem dos combates, com exceção de Dadá.
Por incrível que pareça, as mulheres praticamente não cozinhavam, lavavam e nem pegavam no pesado. Eram bem paparicadas pelos seus companheiros, inclusive pelo bruto, casca dura, Zé Baiano. Ele chegava a dar comida à sua mulher Lídia pela boca e lhe limpava, mas não hesitou em matá-la a pauladas, de forma bárbara, quando o traiu.