A esta altura, depois dos resultados das eleições num sistema escroto que vem se perpetuando há anos, muita gente, principalmente das esquerdas, deve estar se perguntando o que está ocorrendo no Brasil que resolveu vestir o manto radical do fundamentalismo extremista.

  Antes de mais nada, esse sistema eleitoral que foi ao longo dos anos se degenerando, é uma indecência em todos os sentidos. Não vejo manifestações, nem ouço vozes dos intelectuais, dos artistas e pessoas lúcidas esclarecidas lutando para mudar esse cenário aberrante.

Só escuto discursos arcaicos teóricos e ultrapassados que acirram ainda mais os ânimos. Essa questão foi deixada de lado como se não tivesse importância na trajetória de nossas vidas. Não há nenhuma perspectiva de que haja uma reforma política séria, não esses remendos que fazem nas vésperas das eleições.

 Diante de todas essas aberrações, cabe apenas ao eleitor votar e ele se sente o máximo. Enumeraria aqui uma extensa lista de excrescências, como as de vices que não são votados, derrame de dinheiro público para apenas dois ou três partidos que me faz lembrar a época da ARENA e do MDB da ditadura civil-militar de 1964, perpetuação de mandados por longas décadas, desigualdade no tempo da propaganda na televisão e no rádio, o voto a partir dos 16 anos, três senadores por estado com oito anos de cadeira, dentre muitas outras bizarrices paradoxais e contraditórias.

  No dia do pleito todos se dirigem às urnas com semblantes alegres e felizes, a maioria inculta, cega e dividida, destilando ódio e intolerância, para assinar embaixo a aprovação desse sistema escroto. Somos todos inocentes úteis. Não somos chamados para consultas e plebiscitos importantes sobre os destinos da nação. Somos emprestáveis e papagaios que saem por aí soltando bordões desgastados sobre cidadania e democracia.

A esquerda e a direita se digladiam com suas espadas ferinas e venenosas, mas dão às mãos e abraços com tapinhas nas costas entre si para que toda essa bandalheira permaneça como está. Esse sistema apodreceu todo organismo político para se transformar numa lixeira de politicagem decadente de interesses próprios. É preciso que haja uma revolução política neste país, de modo que se faça uma verdadeira reforma, não esse puteiro que aí está. Esse sistema não passa de um cabaré de quinta categoria.

  Sei que não é fácil fazer uma análise mais profunda dos fatores que contribuíram para o avanço da direita e da extrema com suas ideias neonazifascistas falando de liberdade, de pátria, família e até de libertação da democracia, mas na prática sendo o contrário de tudo isso, além de infiltrada com milicianos, criminosos e narcotraficantes.

  Para compreendermos esse processo, temos que voltarmos ao tempo de um passado de 30 anos ou mais, a começar pelo surgimento de um movimento conservador das igrejas evangélicas neopentecostais, com seu fanatismo religioso em nome de Deus, mas com apetite devorador pelo poder por parte de seus pastores.

   No início não enxergamos o andar projetado dessa caminhada, e a esquerda, sobretudo o PT, com seu pedantismo radical, se achando o supremo protagonista da história, esqueceu suas bases e preferiu a luxúria. Do seu encanto deslumbrante, sem sair do sofá, achou mais cômodo exibir suas teorias filosóficas e socialistas como forma de resistência.

  O desgaste do poder por vários mandatos, os desvios de conduta, os erros tantas vezes cometidos sem um mea culpa, a não formação de novas lideranças para ocupar os espaços, o “nós contra eles”, as alianças sujas, a convicção radical e cega de não reconhecer seus pecados, a imposição petista de candidatos, como o Fernando Haddad com alta rejeição, terminou por criar um monstro mitológico chamado Bolsonaro.

  Por que as “lutas” falharam? As estratégias caducaram? Perderam-se os focos. Como os esqueletos adormecidos saíram de seus armários sedentos por miolos humanos de vivos-mortos? Por que estão conseguindo levas e mais levas de seguidores? Por que os partidos menores de esquerda têm sempre que girar em torno do PT numa cabeça de chapa, como se fosse o sol, se a rejeição popular é grande? Não é o mesmo que navegar contra a maré?

Quando alguém se identifica ideologicamente de esquerda é logo visto como petista-lulista e aí é “linchado” em público e não adianta argumentar. Ouve-se muito essa frase de “PT nunca mais” por parte de pessoas que apenas aprenderam a repetir o bordão, mas não são capazes de explicar os motivos.

   São perguntas e pontuações que merecem reflexões e mudanças de comportamento, talvez retornando às origens das conquistas que foram se desgastando ao longo da caminhada, com a perda de ética, honestidade, seriedade e compromisso ideológico por parte de muitos de seus membros.

  Na verdade, a esquerda continua repetindo os mesmos erros do passado recente. Fato real é que ela está sendo liquidada, provando do seu próprio veneno. O melhor que se deve fazer com uma casa velha cheia de goteiras é mudar todo seu telhado ou derrubá-la, para construir outra com bases mais sólidas.