:: 19/fev/2026 . 23:42
ZÉ KÉTI BOTOU O ARLEQUIM PRA CHORAR
(Chico Ribeiro Neto)
Gosto muito dessa crônica, postada em dezembro de 2023, e por isso a reproduzo hoje:
Na década de 60, em Salvador, os brigões e arruaceiros do Carnaval eram levados para a Secretaria de Segurança Pública, na Praça da Piedade, onde ficavam trancafiados até Quarta-Feira de Cinzas. Nesse dia, umas 11 horas, a Polícia soltava todo mundo de uma vez. Constrangidos, os brigões tinham que passar por uma multidão de curiosos na entrada da SSP que iam ver a soltura geral. Era o bloco do “O que é que eu vou dizer em casa?”. Alguns dos presos assim que respiravam a liberdade já paravam no primeiro bar da Piedade para tentar retomar o tempo perdido do Carnaval.
Fazer xixi no Carnaval, na década de 60, era uma luta. Não havia sanitário público. Os homens faziam em qualquer lugar, mas para as mulheres era mais difícil. Os barraqueiros da Praça Castro Alves, ponto de maior concentração, faziam um cercadinho com as caixas de cerveja e as mulheres faziam ali, no chão mesmo, junto às garrafas de cerveja cheias. Uma vez uma amiga foi num desses quadradinhos e enquanto se aliviava viu um bando de olhinhos entre os engradados de cerveja. Quando ela saiu cinco meninos fugiram correndo.
Foi na Castro Alves que uma amiga estava dançando com um cara, os dois bem animados, quando ele a convidou para ir até a Ladeira da Barroquinha: “Vamos ali que tenho um negócio pra lhe mostrar” “Vixe, esse cara tá querendo ousadia”, pensou ela, que só queria dançar. E o cara volta e meia insistia: “Vamos ali que tenho uma coisa boa pra nós dois”. Ela acabou indo. Ele a chamou para um canto, levantou a mortalha e tirou algo da cintura: um saco plástico com duas coxas de frango assado e farofa: “Olha aqui o que tenho pra nós”. “Coma à vontade, eu comi um acarajé nesse instante”, disse ela.
Todo Carnaval tem uma hora que dá um paradeiro geral, principalmente à tarde. Foi assim uma vez na Avenida Sete de Setembro: não passava nada, nem trio, bloco, nem afoxé, e o povo já agoniado. E eu também. Aí encontrei meu irmão Zé Carlos, tomamos uma num isopor e começamos a cantar marchinhas de Carnaval, cadenciados pelo bater das latinhas. O numero cresceu para oito, depois 30 pessoas, e o pequeno bloco desceu a Ladeira de São Bento cantando “Ô jardineira, por que estás tão triste?”. O bloco das latinhas foi se encorpando e quando chegamos na Praça Castro Alves fizemos uma roda imensa, aí as pessoas já dançavam pelo meio, e aconteceu a brilhante orquestra de lata. Aí chegou um trio.
“Tanto riso
Ó, quanta alegria!
Mais de mil palhaços no salão
Arlequim está chorando
Pelo amor da Colombina
No meio da multidão (…)”
(“Máscara Negra”, de Zé Kéti).
A viúva de Deusdedith Pereira Matos (morto em 1966), dona Benedita Matos, reivindicava para o marido a autoria da letra da música “Máscara Negra”, lançada por Zé Kéti em 1967 e grande sucesso nos carnavais até hoje.
Pois bem, Zé Kéti, além de enfrentar toda a polêmica sobre a autoria da letra, ainda se deparou com uns críticos que viam defeitos na letra. Diziam que Arlequim e Pierrô são personagens da commedia dell’arte italiana e que quem chora é o Pierrô, com uma paixão não correspondida pela Colombina. O Arlequim, segundo eles, não é de chorar, mas de provocar choro nos outros. E aí veio a resposta irada de Zé Kéti: “A música é minha, eu faço o Arlequim chorar e ficar apaixonado quando bem entender, desde que chore na minha música”. (Fonte: telestoques.wordpress.com, site oficial de José Teles).
(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)
SEM EXAGEROS NAS INFORMAÇÕES!
O que leva uma pessoa a produzir um vídeo dizendo que Vitória da Conquista é a cidade mais fria do Nordeste e a denominá-la de “Suíça Baiana”? Como se fala no ditado popular, “vamos devagar que o santo é de barro”! Sem exageros, meu camarada, senão o que seria um gesto de enaltecimento e divulgação, termina caindo no ridículo e no deboche. Isso é um desserviço, sem contar que é uma mentira que tem sua origem num bairrismo barato. A cidade mais fria e mais alta do Nordeste, com 1.268 metros de altitude, é Piatã, localizada na Bahia, chegando até 1 grau no inverno rigoroso. Temos ainda na Bahia, a cidade de Morro do Chapéu, mais alta e mais fria que Conquista. Existem outras. Toda propaganda, principalmente a pública, leva pitadas de informações exageradas e fantasiosas, características próprias do propagandista ou do publicitário que a constrói e elabora, com vistas a atrair quem ler, assiste ou ouve. No entanto, não se deve enganar quando se trata de dados históricos e estatísticos que passaram pelo crivo da pesquisa. Pode-se até florear um texto usando uma linguagem poética, com metáforas, parábolas ou outras figuras artísticas literárias, mas não mentir e passar uma informação errada. Muitos incorrem nesse erro por falta de conhecimento ou faz de propósito, achando que sua afirmação incorreta não será desmascarada e terminará virando verdade. Quando alguém faz esse tipo de crítica construtiva, sempre é mal interpretado como persona não grata que menospreza a cidade, e ainda é alvo de ofensas e pedradas. Digo isso porque já fui vítima e ainda sou quando coloco o dedo nas feridas. Vou sempre afirmar que é uma imbecilidade chamar Conquista de “Suíça Baiana. Meu recado é que estudem mais sobre a história do seu município, coisa rara de se encontrar quem faça isso, porque, a cada dia que passa, a nossa cultura só se esvazia, especialmente pelo poder público. Qual orgulho em dizer que temos o maior Cristo crucificado do mundo, se aquela área, mesmo com as novas obras de um mirante, está abandonada (quiosques fechados) e é pouco visitada por falta de segurança e outros serviços de infraestrutura? Pela lógica, se é o maior, deveria ter uma tremenda estrutura de urbanização e ser ponto turístico de atração como cartão postal da cidade. Acho tudo isso uma vergonha! Não é assim que Conquista se transformará numa cidade turística.
O CANGACEIRO
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Meu punhal é a lei,
O bacamarte, a autoridade
No fuzil sou o rei,
Minha caatinga, a liberdade.
Vivo em louca correria,
Nas alpercatas, sou ligeiro,
Com minha companheira Maria,
Deste agreste sou cangaceiro.
No corpo fechado, as crendices,
Sigo sinais e as superstições,
Mato minha sede nas raízes,
Como guerreiro destes sertões.
Fui cruel e sanguinário,
Combati volantes valentes,
Versos do poeta imaginário,
Fruto social destas gentes.
No peito levo a cartucheira,
Chapéu símbolo de Salomão,
Na macambira e na quixabeira,
Sou Silvino e Lampião.
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