UNS TÊM E OUTROS NÃO…
“Não sei, só sei que foi assim” – é como diz o personagem Chicó (se não me engano agora) na peça Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna, para explicar os causos mirabolantes e estranhos contados por ele no sertão nordestino. Tudo é mistério, tudo é confusão!
Na dialética da vida, enquanto uns nascem outros morrem, e não se sabe ao certo sobre esse outro lado do além de que tanto falam. Cada religião externa sua filosofia própria sobre o sobrenatural. Poucos com tantos e outros sem nada a viver na pobreza e na miséria.
Existe uma razão lógica? Todos são diferentes. Sem essa de iguais. Isso soa a uma tremenda demagogia. Igual só se for na morte. Muita gente a guerrear nos campos de batalhas, na maioria das vezes pelo poder e domínio de territórios. Outros lutam pela paz e pelo amor.
É assim que a roda gira nesse viver passageiro do planeta terra de cerca de oito bilhões de habitantes, cada qual em suas delimitadas fronteiras de muros, postos de vigilância com guardas de fuzis e metralhadoras nas mãos ou arame farpado.
Na cultura zoroastrista e cristã, uns vão para o céu e outros para o inferno. Somente o Supremo é eterno, como nos foi ensinado desde criança na catequese. Todos já foram vítimas de algum tipo de lavagem cerebral. Existe o Deus e o diabo, o bem e o mal que muitas vezes fazem os pactos, principalmente na política, para alcançar o fim depois do início e do meio.
Na luta de classes, sempre o capital e o trabalho viveram se digladiando, cada um com suas armas, mesmo antes de Engls e Marx que atiçaram as consciências políticas e fizeram revoluções. O capitalismo levou a melhor, mas ainda há esperança do socialismo voltar.
Uns sobem e outros descem nessa multidão como carreiros de formigas, numa corrida frenética pelo dinheiro, até mesmo o mendigo da esquina. É a chamada luta pela vida, de um tentando engolir o outro. Não pense que está livre desse emaranhado.
Uns colhem espinhos e dores, outros rosas e flores. Existem os privilegiados e os considerados “amaldiçoados”. Tem aqueles em plena fartura e os que seguem a fila do osso para fazer um escaldado para matar a fome.
Uns a gozar de plena saúde, enquanto outros sofrem com doenças crônicas e exóticas sem cura, na dependência de medicamentos contínuos. Uns em luxuosos hospitais e outros em unidades precárias e sujas, muitas vezes sem médicos.
O escritor poderia dizer que tudo isso faz parte da crônica da vida. É porque é assim mesmo. O filósofo apelaria para a metafísica e os enigmas do ser para explicar o inexplicável. Alguém indaga a Deus do porquê dos casebres pendurados nos morros e favelas e as mansões luxuosas banhadas a ouro e prata cheias de grades e seguranças?
Uns passam a vida a discutir ideologia. Tem o político e o eleitor, a ditadura e a democracia, a tirania e a ternura, o pobre e o rico, o analfabeto e o doutor, o matuto e o “civilizado”. Uns pintam, esculpem e outros fazem poesia. Tem o cancioneiro, o palco e a plateia para lhe aplaudir. Uns choram e outros vivem a sorrir.
Uns governam e outros são governados. Tem os reis, os súditos e os vassalos, os vencidos e os vencedores. Uns têm pátria e outros não. O andarilho não tem pouso, mas tem o espírito livre e o desapego pelo material. Uns na solidão e outros não. Tem a tristeza e a alegria. Tem a felicidade, embora não plena, e os infelizes. Uns têm e outros não…











