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A DECADÊNCIA DA HUMANIDADE

Nessa nossa sociedade superficial e mercadológica, imitadora do sistema capitalista norte-americana, onde o indivíduo é o tempo todo preparado como uma mercadoria para ser negociada no mercado comprador, a nossa humanidade vive tempos de decadência e nulidade do ser, absolutamente visto como um pedaço de carne, com apenas tutano no cérebro.

Estamos vivendo épocas medievais, meu amigo, ou até pior, onde dilapidaram o saber das ciências humanas, coisa vista hoje sem importância, que não serve para nada. Não mais se estuda filosofia, geografia, história, sociologia, e até o nosso português, a língua do Lácio que foi assassinada à sangue frio.

NULO EM CONHECIMENTO GERAL

Para ganhar dinheiro, e ser exclusivamente escravo do trabalho, o cara sai hoje de uma faculdade universitária apenas como técnico em sua área de especialização, como engenheiro, eletricista, mecânico, médico, arquiteto, economista e nulo em matéria de conhecimento geral. Esse estudante jovem é bitolado hoje a aprender apenas como apertar um parafuso, ou fazer uma ligação elétrica.

No campo das ciências humanas, ele não passa de um ignorante, como um analfabeto em história, geografia, filosofia, pedagogia, educação e português. Botaram na cabeça dele que essas disciplinas nada valem para sua vida real. O que importa é o mercado capital para onde ele é vendido por um preço baixo para ser explorado pelo resto de sua existência.

Talvez na falta de conhecimento em matérias humanas esteja a razão e a explicação de tanto ódio, tanta intolerância, tanto preconceito, tanto individualismo, tanto rancor, homofobia, racismo, xenofobia, misoginia e egoísmo em nossa sociedade. Acho que toda essa questão não está na ausência de religião, de um Deus, como muita gente coloca.

Sem o pensar filosófico, a pessoa se torna um conservador extremista e passa a apoiar ideias retrógradas que nos levam ao retrocesso. Somam-se a tudo isso os milhões de analfabetos que são manipulados como massa de manobra e inocentes úteis para os aventureiros de plantão.

As pessoas hoje desconhecem o seu passado histórico, suas origens e o que ocorreu lá atrás com a humanidade. Talvez por isso é que a história está sempre se repetindo, na maioria das vezes, com tantas atrocidades, tiranias e menosprezo pelo o lado humano.

Por que se defende a volta de uma ditadura para o país? Quase ninguém sabe o que houve, e muitos até dizem que ela nunca existiu. Outros deturpam os fatos porque repetem como papagaios o que ouve de outros que dela ignoram. Vitória da Conquista é um exemplo mais próximo. Poucos conhecem a história do seu município. Nada sabem sobre seu passado.

As escolas, as faculdades e as universidades em geral promovem semanas de robótica, de matemática, de engenharia, de mecânica, de inovações tecnológicas e como vender o seu produto, com disputadas acirradas entre os jovens participantes, mas nada se vê de realização de eventos nas áreas de história, de geografia, no ramo do conhecimento humano e nem, tampouco, em português, hoje uma língua corrompida por expressões inglesadas.

NINGUÉM QUER SABER DE FAZER UMA REFORMA POLÍTICA PARA MUDAR O BRASIL

“NÊGO” CORRE DA REFORMA POLÍTICA, “COMO O CÃO CORRE DA CRUZ”.

É até uma contradição e um absurdo, mas no Brasil é a política que emperra o nosso progresso, quando deveria ser a salvação para que o nosso país tomasse outro rumo desenvolvimentista. Com esse sistema arcaico e coronelista, a política tornou-se um ciclo vicioso de perpetuação no poder, de canal para a corrupção, de voto de cabresto, de mentiras e práticas antiéticas.

Por mais paradoxal que seja, a política é o calcanhar de Aquiles do Brasil. As eleições não são uma festa democrática, como deveria. É uma festa caquética e puída que cheira a mofo. É uma carneirada que se dirige à boca de uma urna para votar nos mesmos de sempre, e até em aventureiros da pátria que se cobrem com a pele de falso moralista e nacionalista. Com essa democracia tupiniquim, a eleição nunca vai ser instrumento de mudança.

A MAIS IMPRESCINDÍVEL

Mais do que as reformas administrativas, previdenciárias, tributárias e outras, a da política, não esses remendos que fazem aí, é a mais imprescindível de todas, mas ninguém quer saber de mudar porque tudo concorre para que os mesmos continuem sendo reeleitos e não haja mudanças com pessoas bem-intencionadas.

Do jeito que está, sempre favorecendo os que têm mais “bala na agulha”, essa política sempre vai ser vista como suja, que não vale a pena nela entrar, embora os eleitores se viciaram com essa velha cultura atrasada e tiram também o seu proveito através de seus pedidos de favores, cargos e até de dinheiro.

Vá falar numa reforma política onde se reduza o número de parlamentares no Congresso Nacional, nas Assembleias Legislativas e nas Câmaras Municipais que todos partidos dão um “berro” e se unem – esquerda, direita, centro, extrema-direita, conservadores e ultraconservadores – na mesma panela para derrubar a ideia, com argumentos oportunistas que não convencem.

E a escandalosa figura do senador biônico, que persiste até hoje como herança da ditadura? O cara se candidata a senador e escolhe como seu suplente o filho, a mulher, a amante e até a empregada doméstica. Quando ele é morto ou afastado, como o que foi pego agora com dinheiro na cueca, entra o suplente que nunca recebeu nenhum voto. Não é mais uma excrescência?

Vá falar em cortar gastos, indenizações de verbas, emendas parlamentares e limitar o tempo de reeleição para o legislativo em apenas duas vezes no máximo que os políticos no poder fazem um barulho danado para defender que tudo fique como está, sem mudanças. Na verdade, ninguém, ou quase ninguém, pensa no bem do Brasil, mas em si mesmo próprio, e em continuar mamando nas tetas do povo que, infelizmente, aceita o sistema.

Existe deputado e vereador que já está no cargo há mais de 30 anos, e até 40, sendo reeleito em todas as eleições, não por mérito ou capacidade, mas porque usa a máquina, o assistencialismo e o dinheiro como moedas de troca para impedir que um novo candidato entre e tome o seu lugar.

É UMA DISPUTA COVARDE

A concorrência com quem já está lá é desleal, e é até uma covardia a disputa entre o novo e o velho. Para ser justo, as condições teriam que ser iguais em todos os níveis. A maioria dos deputados e vereadores usa os próprios funcionários de suas casas legislativas, de seus gabinetes, para fazerem campanhas. E quem não tem recursos? A verba do Fundo Partidário e Eleitoral fica para os mesmos donos e mandantes dos diretórios nacionais (muitos embolsam a grana), e os regionais recebem uma merreca para fazer uns “santinhos”.

Por sua vez, tem o eleitor que vota no mesmo candidato há 40 anos, como ocorre a olhos vistos em Vitória da Conquista. A política, do jeito que ela é feita, tornou-se uma carreira profissional, e o povo, com toda sua grande mediocridade e pobreza, tem sua parcela de culpa nessa história macabra.

O sistema, no fundo, continua coronelista através da compra do voto, com outros métodos pouco mais sofisticados. Por que a nossa Câmara de Conquista continua pouco representativa, de baixa produtividade, de raros projetos de lei, baixo conteúdo legislativo e muito amém ao poder executivo? Para que 21 vereadores? Conquista não tem uma Câmara à altura da sua cidade, a terceira maior da Bahia com mais de 300 mil habitantes!

Passa eleição e entra eleição, e nada de reforma política para mudar esse quadro vicioso, primitivista e permissivo para a sociedade. Para enganar os bestas e otários, vez por outra fazem umas emendas aqui e acolá, que só fazem proteger a eles mesmos. O velho coronel continua lá sentado em seu trono apodrecido e fedorento, com seu cajado da oligarquia, da plutocracia e da burguesia, desde os tempos do início da República que já começou anciã.

Por que, mesmo correndo risco de vida por causa da pandemia da Covid-19, uma multidão de eleitores se aglomera nas praças para participar e levantar as bandeiras do seu candidato, com tanto fervor, não importando se ele é ladrão e mau gestor?

Há anos, e até séculos, eles (eleitores) foram talhados culturalmente pelo sistema perverso para assim procederem como robôs. Cada vez mais cortam a educação e o saber para que a grande maioria da população continue analfabeta, inculta e ignorante, para que ela vote nos mesmos de sempre. Como diz o ditado, “nêgo” corre da reforma política, “como o cão corre da cruz”.

 

 

 

 

“COMO A ÁFRICA TORNOU-SE NEGRA”

Os negros são os únicos africanos nativos que a maioria dos americanos conhece, porque eles foram levados em grandes quantidades como escravos para os Estados Unidos. A afirmação é do cientista Jared Diamond, em seu livro “Armas, Germes e Aço”, mas ele deixou de citar o Brasil que também recebeu levas de africanos.

Ele destaca que, mesmo antes da chegada dos colonizadores brancos, a África já não abrigava só negros, mas cinco das seis principais divisões da humanidade, e três delas restringem-se aos nativos da África. Um quarto das línguas do mundo é falado apenas neste continente. Nenhum outro tem esta diversidade.

GEOGRAFIA VARIADA

Em sua pesquisa concluiu que essa diversidade resultou de sua geografia variada e de sua longa pré-história. É o único continente que se estende da zona temperada do norte à do sul. Abrange alguns dos desertos mais secos do mundo (já foi fértil) e tem as maiores florestas tropicais, e as montanhas equatoriais mais altas.

Era habitada por humanos muito antes do que qualquer outro lugar, isto há sete milhões de anos. O Homo Sapiens pode ter surgido lá, onde aconteceu a expansão dos bantos e a colonização indonésia de Madagascar. Até hoje, sua pré-história continua um enigma.

Por volta do ano 1000, a África já abrigava os negros, brancos, pigmeus africanos, coissãs e asiáticos. Uma quantidade maior de brancos e asiáticos vive fora da África. Segundo o autor, juntar pessoas tão diferentes como os zulus, somalis e ibos, sob a classificação única de negros, é ignorar as diferenças entre eles.

A partir de 1400, os negros ocuparam o Saara, a maior área da África meridional e subsaariana. Enquanto os negros americanos de ascendência africana originaram-se, principalmente, da zona litorânea ocidental da África, povos semelhantes ocupavam a África Oriental, ao norte do Sudão e em torno da África do Sul.

Os brancos, entre egípcios, líbios e marroquinos se localizavam na zona litorânea norte da África e o norte do Saara. A maioria dos negros e brancos dependia das atividades agrícolas e pastoris para sobreviver. Os pigmeus são, principalmente, caçadores-coletores que vivem em grupos espalhados pela floresta tropical da África Central, comerciando com agricultores negros vizinhos, ou trabalhando para eles.

Os europeus dizimaram

Dentre os grupos, os dos khois ficaram reduzidos pelos colonos europeus que os dizimaram, expulsaram e infestaram as populações com suas doenças. A maioria dos sobreviventes misturou-se com os europeus, gerando as várias populações conhecidas na África do Sul como de cor mestiça. Os sans também foram mortos, expulsos e infectados, mas uma pequena quantidade preservou suas características em áreas desertas da Namíbia, impróprias para a agricultura, como foi mostrado no filme “Os Deuses Devem Estar Loucos”.

A atual fragmentação dos pigmeus, em torno de 200 mil, espalhados entre 120 milhões de negros, sugere que os caçadores viveram espalhados pelas florestas equatoriais até serem expulsos e isolados com a chegada dos agricultores negros. A grande ilha de Madagascar fica a pouco mais de 400 quilômetros da costa africana oriental, muito mais para a África do que qualquer outro continente, e separada da Ásia e da Austrália por toda a extensão do Oceano Índico.

A língua falada por toda gente de Madagascar – asiáticos, negros e mestiços – é austronésia, muito parecida com a da ilha de Bornéu, a quase sete mil quilômetros de distância. Estes austronésios já estavam estabelecidos em Madagascar quando os europeus chegaram ali, em 1500. “É o fato mais surpreendente da geografia humana do mundo inteiro”.

De acordo com Diamond, a complexidade intrigante das 1.500 línguas da África foi estabelecida pelo linguista Joseph Greenberg, que reconheceu que todas essas línguas se encaixam apenas em cinco famílias. Os que falam línguas afro-asiáticas, na maioria, são aqueles que estariam classificados como brancos ou negros, os falantes dos grupos Nilo-saariano e nigero-congolês são negros, falantes do coissã, e os falantes do austronésio, indonésios.

Aprendemos que a civilização ocidental se originou no Oriente Próximo, Foi levada ao apogeu na Europa pelos gregos e romanos, e gerou três das grandes religiões do mundo, como o cristianismo, o judaísmo e o islamismo. Essas religiões surgiram entre povos que falavam três línguas afins, chamadas semíticas, como o aramaico (cristão), o hebraico e o árabe, respectivamente.

A própria subfamília semítica é africana, pois 12 de suas 19 línguas sobreviventes estão restritas à Etiópia. Segundo o autor, talvez tenham surgido na África as línguas faladas pelos autores do Velho e do Novo Testamento e do Alcorão, os pilares maiores da civilização ocidental. Entre os cinco grupos de povos africanos (negros, brancos, pigmeus, coissãs e indonésios), apenas os pigmeus não têm línguas distintas. Existem indícios de que o local de origem dos pigmeus foi tomado por agricultores negros invasores, como os bantos. Também, que os Nilo-saarianos foram subjugados por falantes afro-asiáticos ou nigero-congoleses.

 

A PROFESSORA NINA QUE EU TIVE

(EM HOMENAGEM A TODOS OS MESTRES)

Este texto foi publicado no livro “Andanças”, de autoria do jornalista, escritor e poeta Jeremias Macário. A obra pode ser encontrada na livraria Nobel, na Banca Central, ou diretamente através do autor pelo e-mail macariojeremias@yahoo.com.br e pelo tel 77 98818-2902. 

O homem sem instrução é um homem iludido. Em minha vida nunca imaginei que uma profissão tão linda e nobre fosse se transformar em medo, angústia e pesadelo. O orvalho da manhã está cada vez mais escasso, e a relva e a grama da minha casa estão secas. O prazer de ensinar e levar conhecimento aos rebentos virou uma obrigação. Sem o riso de antes, muitos estão partindo para outras atividades enfadonhas e chatas, seguindo a lei da sobrevivência a qualquer custo.

Aprendi as primeiras letras e a entoar a tabuada para fazer umas continhas de somar, diminuir e multiplicar com a real professora leiga dona Nina, não aquela personagem título de livros, de peças teatrais, crônicas e contos como símbolo da nossa imaginação para identificar a profissão. Como tudo que acontece pela primeira vez na vida, nunca me esqueci daquela frágil, terna e carente mulher. Mas, o que mais me marcou foi a sua extrema pobreza e como arranjava forças para ensinar.

Era meado dos anos 50 do século passado quando tive minha primeira professora Nina. A infância na roça da fazenda Queimadinha, isolada de tudo, não me dava nenhuma noção do porquê tinha que caminhar com minha irmã dois, três quilômetros dentro de um matagal todos os dias para encontrar com a professora, para ler soletrados os textos de uns livros e ouvir o clamor, choros e brigas de uma família de mais de dez pessoas por causa de um prato de comida nas horas do almoço.

A professora Nina morava como agregada de um vasto latifundiário que mais lembrava os condes e duques franceses da pré-revolução. A fazenda de quilômetros e mais quilômetros de capim e gado se situava num território pertencente ao município de Mundo-Novo e depois Piritiba e Tapiramutá. Como meeira, ela dividia com o patrão usurário e opressor os poucos pés de cafés que tinha no quintal da velha casa. O quadro não mudou. O capitalismo se alimenta de carne humana.

Todos definhavam de fome. Um rapaz anêmico vivia chorando pelos cantos da casa e o velho pai era um alcóolatra à beira da morte que pegava vísceras de bois em matadouros da vizinhança para cozinhá-las numa aguada panela de feijão. Meu pai, também pobre, pagava seus préstimos de professora com um pouco de dinheiro e farinha da terra donde colhia a mandioca do roçado. Eram tempos de muita dureza e o homem trabalhava como escravo, sem direitos a nada. Não mudou muito. A fome batia quase todos os dias na nossa porta e nos olhava com aquela careta de monstro.

O velho e o rapaz morreram e, como já viviam na miséria, nem foram notados. Eram lixos deteriorados ocupando o espaço. Como observou Shakespeare, “Quando morre um mendigo nenhum cometa é visto, mas os céus cospem fogo quando morre um príncipe”.

A professora Nina e o restante dos seus filhos pegaram um pau-de-arara e tomaram o rumo de São Paulo. Meu pai vendeu a terrinha e fomos para outro local onde pelo menos tinha um tanque d´água. Passei anos longe das minhas primeiras letras e só depois fiz, com muito sacrifício, o primário em Piritiba. Mais algum tempo parado e somente em 1962 ingressei no Seminário Nossa Senhora do Bom Conselho, em Amargosa. Bons tempos de estudos e aprendizagem, com professores de qualidade. Ensino puxado!

Passaram-se quase 65 anos e a educação teve suas reviravoltas de altas e baixas, mais que baixas, para cair numa vala lamentável de decadência e menosprezo, numa cruzada de greves, paralizações, ocupações, protestos, desespero, revolta, lamentos e violência nas salas de aulas onde existem mais discórdias que harmonias.

Até o final dos anos 70 e início dos 80, a educação pública era uma referência de qualidade e conteúdo. O professor era o verdadeiro mestre respeitado na sala e os alunos o reverenciavam como um pai, somente abaixo do Eterno. De lá pra cá foi entrando em degradação de promiscuidade total, diferente da missão primordial de transmitir sabedoria e conhecimento.

Aquela imagem da professora Nina e sua família continua viva em mim através de cenas reportadas nos dias atuais de professores comendo bolachas num reservado escondido de uma sala para matar a fome e outros vendendo seus livros de literatura nas ruas para sobreviver, sem contar as agressões sofridas no exercício de suas atividades.

Uma professora chora quando lembra que um dia um aluno colocou um revólver em sua cabeça e lhe intimou que desse uma nota máxima em sua prova para passar de ano. Perdeu, professora! Para não morrer, teve de ceder, mas, traumatizada, nunca mais retornou à sala de aula. Para sobreviver foi ser doceira. Igual a ela, tantos outros se afastaram do ministério de ensinar. De amigo e conselheiro, o professor é visto hoje pelos seus estudantes como um inimigo que merece ser castigado porque escolheu ensinar e formar crianças e adolescentes rebeldes de um lar, cujos pais se ausentaram de suas obrigações, valorizando mais o capital que o humano.

Pelo nível a que chegamos, de baixos índices de aproveitamento escolar que envergonham a nação, com imagem tão negativa lá fora, a pátria como mãe biológica ou adotiva, carece parar com todas suas obras, pontes, estradas, viadutos e projetos de portos e aeroportos, para só cuidar da educação. Esta filha desamparada de mãe desnaturada caiu em desgraça na prostituição das ruas e das drogas.

A figura de um professor qualificado e motivado é o fator mais importante para o sucesso do aluno na escola e na vida, conforme estudos realizados em vários países. No Brasil, quem tira maiores notas nas escolas prefere fazer outros cursos universitários ao invés de pedagogia, isto porque a profissão oferece pouca atratividade, devido à baixa remuneração e más condições de trabalho. O próprio Ministério da Educação constatou que o curso de pedagogia tem sido o destino dos alunos com as piores notas nos exames do ensino médio.

Chegamos ao ponto crucial de que a educação não é mais apenas uma questão de prioridade, mas de salvação de vidas. Milhões são vitimados antes do tempo no Brasil por falta de educação. A professora Nina foi a primeira a me dar régua e compasso para escrever este texto. Outros mestres vieram depois fazendo o demorado processo de lapidação

QUEM SÃO OS PAIS?

Não que os animais não mereçam nossa atenção e cuidado, mas em tempos atuais de tecnologia e redes sociais, o problema humano é coisa secundária. Houve inversão dos valores. Primeiro temos que debater a questão dos moradores de rua, que são humanos passando fome e frio nas calçadas e, em seguida, levar aos políticos a discussão do animais que vivem nas ruas. Ontem foi o Dia do Professor e deveria ser uma boa pauta para o pleito eleitoral. Infelizmente, nosso povo não quer mais saber de educação e cultura. Entretanto, o assunto da foto ,clicada pelo jornalista e escritor Jeremias Macário, é da Via Perimetral J. Pedral. Gostaria só de saber quem são os pais dessa criança? Pela mensagem que passa no horário eleitoral, a impressão que se tem é que a obra é do atual prefeito que está na caminhada pela reeleição. Tempo de campanha eleitoral, tempo de mentiras! Em pontuação, é a maior vencedora disparada do pleito.  A verdade é a maior vítima.  Das “Justiças” , a eleitoral é a pior de todas.

MENTIRAS, MENTIRAS!

Poema de autoria mais recente do jornalista e escritor Jeremias Macário

Por que de tantas mentiras?

O culpado diz ser inocente,

Mentiras de iras dessa gente!

 

Você me fala de democracia,

Diz ser a favor da liberdade,

E prega pela volta da ditadura,

Que vai oprimir a sua distopia,

De divagar pela sua loucura,

Coisa de insanidade e psicopatia.

 

Por que de tantas mentiras?

Mentiras, mentiras de iras!

 

Você tira de mim a educação,

Mistura cultura com comunista,

Me trata como um idiota besta,

Se não concordo, sou um alienista,

Faz a esmola render sua eleição,

Com a ração de uma básica cesta.

 

Por que de tantas mentiras?

Mentiras, mentiras de iras!

 

Você canibaliza nossa história,

Chama sua negritude de escória,

Diz que a terra é chapada plana,

Não existe aquecimento global,

Contesta a ciência e o universo,

Respira fascismo e retrocesso,

E encarna a inquisição medieval.

 

Por que de tantas mentiras?

Mentiras, mentiras de iras

 

No pleito político eleitoral,

A mentira é a maior vencedora,

Como óleo derramado no mar,

Chamas a arder nossos biomas,

Pelo índio que queima seu lar,

Sua Amazônia e o belo Pantanal,

Mentiras são como o plutônio,

Aumentando o buraco de ozônio,

Criminosas mentiras de tantas iras!

 

 

 

NUMA CAMPANHA ELEITORAL A MENTIRA É A MAIOR VENCEDORA

Como numa guerra, onde a maior vítima é a verdade, numa campanha eleitoral, a maior vencedora é a mentira, e o pior é que geralmente seus mentores terminam ganhando o pleito porque os eleitores têm memória curta, a maioria é ignorante, ou ficam cegos quando estão ao lado de seus candidatos. Cada apoiador acha que deve ser assim mesmo para derrubar seu adversário que, por sua vez, usa do mesmo artifício e mente.

É um festival de mentiras quando começa o embate, sem falar das promessas vãs. Todos são pelo social e pela melhoria de vida dos cidadãos, tudo num plano genérico mentiroso. As propostas e os projetos viáveis de serem realizados são as maiores vítimas. Antes, o povo diz que detesta toda essa sujeira política, mas na hora cada um está lá defendendo seu preferido nas ruas, em plena aglomeração, desrespeitando o protocolo de distanciamento por causa da pandemia do coronavírus.

É IMORAL

A Justiça Eleitoral pouco dá as caras, e sempre faz vistas grossas. Vez por outra pega um bode expiatório e aplica umas multazinhas para passar a impressão que está atenta e atuando. Tudo é imoral e prevalece a mentira, que conta com a cobertura da impunidade. Sem uma reforma política séria (eles nem querem falar nisso) de punição com rigor, os candidatos correm soltos praticando suas ilegalidades, e até acontece compra de votos por fora.

O candidato à reeleição, Hérzem Gusmão, diz abertamente que entregou a Via Perimetral J. Pedral, como se fosse uma obra exclusiva dele, quando apenas em seu início de governo fez os acabamentos finais, ou seja os arremates que faltavam. Do outro lado, Zé Raimundo fala da construção do Aeroporto Glauber Rocha que levou mais de 15 anos para ser concluído e teve várias pais como “criadores da criança”.

Quando tratam de números nas áreas da educação e da saúde, sobretudo, o volume de mentiras e contradições explode. A tática é maquiar dados e um rouba o feito do outro. A verdade sobre os fracassos da má gestão sempre é camuflada. Nada de ética nas informações, tão pouco seriedade e mea culpa no que deixou de ser feito, ou nos erros cometidos. Prefiro o termo mentiras à brasileira do que essa tal de “fake news” inglesada norte-americanizada.

A BARRAGEM É OUTRA MENTIRA

Há quantos anos eles estão mentindo para os conquistenses quanto a construção da barragem de abastecimento de água? Quantos aditivos já foram assinados para a concretização do projeto que ainda não saiu do papel? Mentem para os servidores públicos, para os professores, para os usuários do transporte coletivo e, lamentavelmente, traem a educação, a saúde e a cultura.

Aliás, no conjunto da obra, nós eleitores temos uma grande parcela de culpa porque alimentamos e aceitamos as mentiras, a negação da ética e a falta de compromisso, tendo em vista que depois das eleições passamos mais quatro anos sem fazer as devidas cobranças e fiscalizando de perto os seus atos,

Por sua vez, sem uma consciência política formada, votamos numa Câmara de Vereadores de 21 membros (um absurdo de parlamentares) que se torna refém do executivo e a tudo diz amém para conseguir uma obra para seu bairro ou zona rural. O vereador não mais legisla e cumpre o seu papel de fiscalizador.

Mais uma vez, nosso povo é cumplice de todas essas mentiras porque só quer tirar proveito próprio e não pensa na coletividade. Um eleitor quando vai ao gabinete de um vereador é para pedir favor, um cargo, uma ajuda financeira e um emprego para ele, ou para a sua família. Assim se fecha o ciclo da cultura do coronelismo, e todos contribuem para engordar, cada vez mais, as mentiras.

Em tempos de pandemia, a maioria dos candidatos promovem aglomerações, sem nenhum pudor, e os eleitores fundam dentro, colocando a possível vitória do seu político safado e desleal acima da vida, lembrando aquele torcedor fanático e idiota que abre a boca para afirmar que o seu time é a sua vida.

Em Vitória da Conquista, na escolha dos temas, proposto por um veículo de comunicação, os eleitores excluem da pauta das discussões com os candidatos a prefeito, as questões da educação, da cultura e da saúde. Preferem animais nas ruas, calçamentos de ruas e outros secundários. É uma total pobreza de prioridades, mas, pelo população que temos, é compreensível.

AS DIFERENÇAS ENTRE EURASIANOS E AMERÍNDIOS NA ORGANIZAÇÃO POLÍTICA

No final da Idade Média, ou no Renascimento, a maior parte da Eurásia já era governada por Estados organizados, como os dos Habsburgos, otomanos, chineses, o mogol na Índia e o mongol em seu auge no século XIII. As Américas tinham dois impérios, o dos astecas e dos incas, correspondentes aos eurasianos em tamanho, população, composição política, religiões oficiais e origens.

Até aí tudo bem, conforme relata o autor do livro “Armas, Germes e Aço”, de Jared Diamond, mas os sete Estados europeus (Espanha, Portugal, Inglaterra, França, Holanda, Suécia e Dinamarca) dispuseram de recursos para conquistar colônias americanas entre 1492 e 1666. O uso da escrita nas Américas era restrito às elites em uma pequena região da Mesoamérica.

OS EURASIANOS ERAM SUPERIORES

No tempo de Colombo, segundo o cientista, as sociedades eurasianas, com a escrita, eram muito superiores aos ameríndios na produção de alimentos, germes, tecnologia, armas e organização política. Esses fatores influíram no resultado dos confrontos pós-colombianos. A produção de alimentos começou a suprir uma grande parcela das dietas humana nas pátrias eurasianas cerca de cinco mil anos mais cedo do que nas pátrias das Américas.

A produção de alimentos começou a se expandir, inicialmente, no Crescente Fértil, na China, na Eurásia, nos Andes, na Amazônia, na Mesoamérica e no Leste dos Estados Unidos. Depois do Crescente Fértil, os avanços chegaram com atraso em outras partes do hemisfério.

Quatro motivos que explicam esses atrasos, como conjunto mais limitado de animais e plantas selvagens disponíveis para domesticação, maiores barreiras à difusão e áreas mais isoladas de populações humanas densas nas Américas do que na Eurásia.

Quanto as vantagens, os humanos já habitavam a Eurásia por cerca de um milhão de anos. De acordo com indícios arqueológicos, os humanos só entraram nas Américas pelo Alasca, por volta de 12000 a.C. Espalharam-se pelo sul do Canadá como caçadores Clovis alguns séculos antes de 11000 e chegaram ao extremo meridional da América do Sul em 10000 a.C.

A produção de alimentos já estava surgindo no Crescente Fértil apenas 1.500 anos depois da época em que os caçadores-coletores derivados dos Clovis chegavam ao sul da América do Sul. Houve cinco mil anos de atraso das aldeias produtoras de alimentos das Américas, que foram ocupadas por caçadores-coletores num período de poucos séculos depois da chegada dos primeiros colonos.

O ALASCA E O ATRASO TECNOLÓGICO

Diz o autor do livro, que os antigos agricultores do Crescente Fértil e da China herdaram as técnicas que o Homo Sapiens desenvolvera para explorar os recursos nessas áreas durante milhares de anos. Por outro lado, os primeiros colonos das Américas chegaram ao Alasca com equipamentos apropriados à tundra do Ártico siberiano. Tiveram que inventar equipamentos adequados a cada novo habitat. “Esse atraso tecnológico pode ter contribuído para a demora no progresso dos ameríndios”

Diamond esclarece que a produção inicial de alimentos competia menos com o estilo caçador-coletor nas Américas do que no Crescente Fértil, ou na China, em parte porque quase não havia mamíferos selvagens domesticáveis nas Américas.

No Crescente Fértil e na China, a domesticação de animais veio logo depois da domesticação de plantas, criando um pacote de alimentos que prevaleceu sobre o estilo caçador-coletor. Os animais tornaram a agricultura no Crescente mais competitiva por fornecerem fertilizantes e puxarem arados.

A pequena quantidade de plantas e animais disponíveis no Novo Mundo é exemplificada pelas transformações das próprias sociedades ameríndias após a chegada de outras culturas, como o milho, a lhama e o cavalo.

Os progressos na Eurásia foram também acelerados pela difusão mais fácil nesse continente de animais, plantas, ideias, tecnologia e povos por causa de vários fatores geográficos e ecológicos. O eixo principal leste-oeste da Eurásia permitia a difusão sem mudança de latitude e de suas variáveis ambientais, ao contrário das Américas.

O Novo Mundo era espremido em toda a extensão da América Central, principalmente no Panamá, com suas florestas tropicais, separando as sociedades da Mesoamérica das andinas e amazônicas. Os desertos do |México separam a Mesoamérica das sociedades do sudoeste e do sudeste dos Estados Unidos. Como consequência, não houve difusão de animais, da escrita, ou de entidades políticas. Houve uma propagação limitada e lenta da agricultura e da tecnologia.

A lhama, o porquinho-da-índia e a batata das regiões andinas jamais chegaram às montanhas mexicanas. Por isso, a Mesoamérica e a América do Norte continuaram sem mamíferos domésticos, com exceção dos cães. O girassol domesticado no leste dos Estados Unidos nunca chegou à Mesoamérica, e o peru dessa região não alcançou a América do Sul, ou ao leste dos Estados Unidos. O milho e o feijão, como a abóbora da Mesoamérica levaram mais de três mil anos para percorrer os mil e cem quilômetros de terra cultivada do México ao leste dos Estados Unidos.

CULTURAS E ALFABETOS

Por sua vez, as culturas do Crescente Fértil espalharam-se para o leste e oeste com rapidez suficiente para evitar a domesticação independente da mesma espécie, ou a domesticação de espécies relacionadas. As barreiras dentro das Américas propiciaram o surgimento de muitas dessas domesticações paralelas de culturas.

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UM MENINO PRODÍGIO QUE DEIXOU SUA MENSAGEM DE CONHECIMENTO

Uma criança que com sua genialidade de dez anos de vida discutiu ideias importantes e deixou sua mensagem de conteúdo cultural em várias esferas do conhecimento no campo da filosofia, da literatura, do social, da poesia, da música e outros temas da nossa história. Foi, por assim dizer, um gênio que nos deixou muitas lições para a evolução do ser humano que não deve parar de crescer no tempo.

Estou me referindo ao “Sarau Cultural A Estrada” que, depois de dez anos, está partindo porque ele sentiu um esvaziamento de seus participantes que foram deixando aos poucos de atender ao seu chamamento em troca de outros compromissos, ou mesmo pelo desinteresse pelo nosso maior bem da alma que é a cultura. Ele estava se sentindo como uma entidade esvaziada, de segundo ou terceiro plano, mas parte feliz por ter cumprido sua missão.

PERSONAGEM PRÓPRIA

Quero aqui deixar bem claro para todos que o “Sarau A Estrada”, ao longo desses dez anos, adquiriu por si mesmo, sua própria personagem quando todos contribuíram para isso. Com o passar do tempo, ele deixou de ter dono, porque as pessoas, artistas, intelectuais, professores, interessados e até jovens deram-lhe vida com suas canções populares e autorais, com seus poemas, causos e a troca de conhecimento através dos papos descontraídos.

Houve divergência, discussões acaloradas e acirradas, momentos de dificuldades, mas tudo é normal como numa família onde logo depois todos se acertam e se abraçam. No entanto, nos últimos encontros, antes mesmo da pandemia, se constatou um esvaziamento e falta de interesse, com as ausências e não muito apegamento aos assuntos em abordagem.

No último dia 10 (sábado), o Espaço Cultural foi preparado com carinho para receber os amigos do Sarau, mas, lamentavelmente, poucos compareceram ao evento. Em nome dele, agradecemos aqui as presenças de Baducha, Céu, Aline, Jhesus, Rose e João que prestaram suas homenagens. Muitos alegaram compromissos e outros simplesmente não apareceram.

Quando passei minha mensagem neste domingo (dia 11) sobre sua despedida, ouvi muitas respostas, colocando a Covid-19 como pivô desse esfriamento e desistência, mas, mesmo respeitando as opiniões, discordo porque todos estão saindo, com os devidos cuidados e protocolo, para seus afazeres e até outros eventos de festividades, como aniversários e casamentos.

POUCA CULTURA

A questão é outra, talvez porque as pessoas hoje, de uns tempos para cá, (nem todas) resolveram se afastar da cultura e não colocar mais ela como sua fonte de evolução. Como disse nosso amigo e companheiro Dorinho, poucos ainda a tratam como aliada e preferem mais o outro lado divertido e superficial.

Infelizmente, estamos numa época de trevas onde muitos estão queimando livros de autores consagrados porque eles criticam a linha política atual conservadora do governo. Preferem o ódio e a intolerância, colocando na fogueira o saber e o conhecimento, como acontecia na Idade Média.

A tendência e o correto de todo ser humano é a evolução, com mudanças de pensamento e conceitos – sem abandonar, é claro, os princípios e o caráter – mas muitos pararam no tempo e regrediram, como do jacaré para a lagartixa. Não estou aqui me referindo a preferência político-partidária de lado “A” ou “B”.

Não quero entrar nesse campo perigoso de discussão, mas acho que não foi a pandemia que fez o menino Sarau encerrar aqui sua missão. Está partindo com seu semblante de felicidade porque valeu a pena ter deixado sua marca na história, com reuniões proveitosas, realização de um CD, shows e até de um vídeo curta-metragem quando ele esteve vivendo em confinamento de quarentena. Ele se vai, mas ficam para sempre as gratas amizades que nunca mais serão desfeitas.

Não vou aqui citar o nome de todos porque a lista é extensa e poderia pecar por omissão, mas, como já disse o poeta, “o amor é eterno enquanto dura”, ou até preferindo o outro cancioneiro, “tente outra vez”. Esse menino sabe o quanto se dedicou e se esforçou para prolongar sua existência, mas sempre tem o momento certo de se sair de cena.

Ele espera que todos continuem na trincheira da resistência fazendo cultura, para impedir que ela seja tão maltratada e pisoteada como na época atual.  O maior trunfo é que ficou sua mensagem de conhecimento nos tantos debates que nos proporcionou com alegres noites de canções, poesias, causos e histórias de vida.

Vai-se o Sarau, mas o nosso Espaço Cultural continua aberto para receber a todos que amam a cultura, para um dedo de prosa, a troca de conhecimento e até a realização de projetos que poderão contribuir para o nosso progresso. Será um prazer abrir essas as portas para os amigos que aqui deixaram suas ideias durante esse tempo de convivência saudável onde todos ensinaram alguma coisa e também saíram aprendendo.

LENDÁRIO SERTÃO

Este texto, que se encontra no livro “ANDANÇAS”, de autoria do jornalista, escritor e poeta Jeremias Macário, é uma homenagem ao Dia do Nordestino, na figura do legítimo sertanejo. É uma descrição sobre seu perfil, costumes, sua vida diária na labuta da roça, suas crenças e sua cultura popular.

O meu sertão catingueiro, com espécies vegetais e animais exclusivos, é bem diferente do cerrado e da mata. Ora está retorcido, cinzento, desértico e árido, mas de repente fica florido e cheio de vida, de cores e encantos quando batem as chuvas. Aí arrebenta o aroma da terra molhada para o plantio.

O olhar dessa gente sertaneja é uma mistura de lealdade humilhada, cismado, doído, castigado, sofrido, resistente, bruto e pacato. Pode ser exótico matreiro tabaréu, mas não é o mesmo olhar do mateiro do sul ou de outras plagas do litoral. Nesse sertão, toda final de tarde ouço o canto cadenciado do nambu, como igual não existe em lugar nenhum.

Para o sertanejo, a simplicidade é a sua filosofia; a natureza sua arquitetura divina onde de tudo brota poesia; o pedaço de terra sua geografia; do barro faz-se a escultura; da seca sua prova de luta; e a chuva é o seu show da vida. A caatinga é mais fera e pantera que o deserto. Um tem caminho para o interior e o outro é tortura. A caatinga tem o cordel e seu boi encantado.

O sertão da caatinga, das palmas e dos mandacarus, é carregado de mistérios, contos e lendas (algumas ainda vivas) dos coronéis, dos pistoleiros, jagunços e vaqueiros bravos. Nesse descambado sem fim de espinhos de unhas-de-gato, tocas e malocas, rasgando serras e morros, o temido Lampião e sua tropa de coriscos conseguiam sair de seus labirintos e enganar as volantes.

Os encourados cavaleiros lendários são os verdadeiros guerreiros legionários desse agreste inóspito, esquecido e supersticioso cheio de emboscadas e armadilhas. Eles partem para suas cruzadas sem nenhuma benção do vigário-mor. São vaqueiros guardiões das tradições seculares de perseguir a rês até conduzi-la ao rebanho ou ao curral. A bravura não teme a morte. É uma questão de honra.

Em homenagem a esse chão, exclusivo do Brasil, e o mais degradado de todos, foi instituído, por decreto presidencial, o 28 de abril como o “Dia Nacional da Caatinga”, no intuito de preservar seu bioma, mas não é isso que acontece. Seu folclore e suas comidas, feitas do milho e da mandioca, têm características próprias, mas quando a seca bate à porta, o êxodo rouba sua magia e perde-se o encanto.

É assim a luta do sertão catingueiro das procissões, dos paus-de-arara rumo a São Paulo, dos carros-pipa eleitoreiros, das cisternas, das barragens, aguadas, das cacimbas e poços salobros erguidos para juntar um pouco de água, para enfrentar as estiagens. Os olhos marejam de dor e as lágrimas ficam presas nas gargantas. As crianças choram de fome e os animais tombam ao chão, virando carcaças que se tornam postais da crueldade de um cenário desolador.

Corta o coração ver o sertanejo lacrimar quando sua safra se perde na sequidão. Das tragédias da natureza é a que menos comove e sensibiliza as campanhas humanitárias de solidariedade e de socorro às suas vítimas. As enchentes e os desmoronamentos de terras no sul e sudeste do país ganham mais espaço na mídia do que esta devastação de morte mais penada e lenta.

É o sertão do Assum Preto e da Asa Branca nas cantigas de lamento da terra do Luiz Gonzaga “Rei do Baião”, e da “Triste Partida”, do poeta maior Patativa do Assaré, que continuam batendo suas eternas asas pelo mundo afora. É o sertão da sanfona “sankafa” chamando para o arrasta-pé do forró. É o sertão sertanejo dos cabras valentes do “Padim Ciço” e de Antônio Conselheiro. É o sertão da Casa Grande e Senzala, de Gilberto Freire, dos guerreiros jagunços, de Euclides da Cunha, de “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos, do “Auto da Compadecida”, de Ariano Suassuna e do “O 13”, de Raquel de Queiroz em suas histórias engraçadas e tristes. È o sertão bodeiro da “Casa dos Carneiros” na cantoria de Elomar. Foi cenário escaldante de “deus e o diabo na terra do sol” e o “dragão da maldade contra o santo guerreiro”, de Glauber Rocha.

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