Os negros são os únicos africanos nativos que a maioria dos americanos conhece, porque eles foram levados em grandes quantidades como escravos para os Estados Unidos. A afirmação é do cientista Jared Diamond, em seu livro “Armas, Germes e Aço”, mas ele deixou de citar o Brasil que também recebeu levas de africanos.

Ele destaca que, mesmo antes da chegada dos colonizadores brancos, a África já não abrigava só negros, mas cinco das seis principais divisões da humanidade, e três delas restringem-se aos nativos da África. Um quarto das línguas do mundo é falado apenas neste continente. Nenhum outro tem esta diversidade.

GEOGRAFIA VARIADA

Em sua pesquisa concluiu que essa diversidade resultou de sua geografia variada e de sua longa pré-história. É o único continente que se estende da zona temperada do norte à do sul. Abrange alguns dos desertos mais secos do mundo (já foi fértil) e tem as maiores florestas tropicais, e as montanhas equatoriais mais altas.

Era habitada por humanos muito antes do que qualquer outro lugar, isto há sete milhões de anos. O Homo Sapiens pode ter surgido lá, onde aconteceu a expansão dos bantos e a colonização indonésia de Madagascar. Até hoje, sua pré-história continua um enigma.

Por volta do ano 1000, a África já abrigava os negros, brancos, pigmeus africanos, coissãs e asiáticos. Uma quantidade maior de brancos e asiáticos vive fora da África. Segundo o autor, juntar pessoas tão diferentes como os zulus, somalis e ibos, sob a classificação única de negros, é ignorar as diferenças entre eles.

A partir de 1400, os negros ocuparam o Saara, a maior área da África meridional e subsaariana. Enquanto os negros americanos de ascendência africana originaram-se, principalmente, da zona litorânea ocidental da África, povos semelhantes ocupavam a África Oriental, ao norte do Sudão e em torno da África do Sul.

Os brancos, entre egípcios, líbios e marroquinos se localizavam na zona litorânea norte da África e o norte do Saara. A maioria dos negros e brancos dependia das atividades agrícolas e pastoris para sobreviver. Os pigmeus são, principalmente, caçadores-coletores que vivem em grupos espalhados pela floresta tropical da África Central, comerciando com agricultores negros vizinhos, ou trabalhando para eles.

Os europeus dizimaram

Dentre os grupos, os dos khois ficaram reduzidos pelos colonos europeus que os dizimaram, expulsaram e infestaram as populações com suas doenças. A maioria dos sobreviventes misturou-se com os europeus, gerando as várias populações conhecidas na África do Sul como de cor mestiça. Os sans também foram mortos, expulsos e infectados, mas uma pequena quantidade preservou suas características em áreas desertas da Namíbia, impróprias para a agricultura, como foi mostrado no filme “Os Deuses Devem Estar Loucos”.

A atual fragmentação dos pigmeus, em torno de 200 mil, espalhados entre 120 milhões de negros, sugere que os caçadores viveram espalhados pelas florestas equatoriais até serem expulsos e isolados com a chegada dos agricultores negros. A grande ilha de Madagascar fica a pouco mais de 400 quilômetros da costa africana oriental, muito mais para a África do que qualquer outro continente, e separada da Ásia e da Austrália por toda a extensão do Oceano Índico.

A língua falada por toda gente de Madagascar – asiáticos, negros e mestiços – é austronésia, muito parecida com a da ilha de Bornéu, a quase sete mil quilômetros de distância. Estes austronésios já estavam estabelecidos em Madagascar quando os europeus chegaram ali, em 1500. “É o fato mais surpreendente da geografia humana do mundo inteiro”.

De acordo com Diamond, a complexidade intrigante das 1.500 línguas da África foi estabelecida pelo linguista Joseph Greenberg, que reconheceu que todas essas línguas se encaixam apenas em cinco famílias. Os que falam línguas afro-asiáticas, na maioria, são aqueles que estariam classificados como brancos ou negros, os falantes dos grupos Nilo-saariano e nigero-congolês são negros, falantes do coissã, e os falantes do austronésio, indonésios.

Aprendemos que a civilização ocidental se originou no Oriente Próximo, Foi levada ao apogeu na Europa pelos gregos e romanos, e gerou três das grandes religiões do mundo, como o cristianismo, o judaísmo e o islamismo. Essas religiões surgiram entre povos que falavam três línguas afins, chamadas semíticas, como o aramaico (cristão), o hebraico e o árabe, respectivamente.

A própria subfamília semítica é africana, pois 12 de suas 19 línguas sobreviventes estão restritas à Etiópia. Segundo o autor, talvez tenham surgido na África as línguas faladas pelos autores do Velho e do Novo Testamento e do Alcorão, os pilares maiores da civilização ocidental. Entre os cinco grupos de povos africanos (negros, brancos, pigmeus, coissãs e indonésios), apenas os pigmeus não têm línguas distintas. Existem indícios de que o local de origem dos pigmeus foi tomado por agricultores negros invasores, como os bantos. Também, que os Nilo-saarianos foram subjugados por falantes afro-asiáticos ou nigero-congoleses.