Longe do aquecimento presencial dos palcos musicais, dos teatros, do cinema, dos livros e dos eventos culturais que estão nos roubando, bem antes da pandemia, a elite aproveita o espaço vazio para ostentar seu luxo em seus carros “drive-thru” e “drive-in” (é tudo inglesado mesmo), para assistir a um filme, do qual nem aprecia, comprar presentes e a participar de casamentos pomposos, indiferente às mais de 110 mil mortes do coronavírus, que extermina mais a nossa pobreza.

Preferimos usar termos em inglês do que o nosso português, tão maltratado, e olha que nesses tempos do corona temos uma chuva torrencial deles. Todos acham bonito e chic, e até entortam a boca para pronunciar a língua do Tio Sam, menosprezando a nossa. A grande maioria da nossa gente nem sabe o que significa, mas tenta também seguir a onda e termina aportuguesando mesmo, sendo corrigido pelos “sabichões”. Oh quanta ironia!

Afronta à miséria

A mídia burguesa entra em cena para fazer seu show, cujas imagens aprecem como uma afronta à miséria e às desigualdades sociais de uma maioria pobre, desamparada e inculta que aglomerada padece todos os dias nas filas dos bancos, na ansiedade de pegar um auxílio emergencial que vem dando popularidade a um governo que está aniquilando nossa alma através da destruição do meio ambiente e do nosso patrimônio cultural. É outra ironia, pois o homem nega a ciência; faz pouco da doença dela aproveita para fazer seu populismo.

Não se enganem nem um pouco com essa emergência financeira burocrática destinada aos profissionais da cultura que lidam com a música, com o teatro, com a dança, com as artes plásticas, ou outras linguagens artísticas, porque o estrago já vem sendo praticado desde o início desse governo neoliberal e fascista que acabou com o Ministério da Cultura e agora está implodindo nossa cinemateca e vislumbrando criar um imposto à produção de livros. Sua intenção é não mais prestar apoio técnico e nem financiar a educação básica, se eximindo de sua responsabilidade.

Em cima dessa Covid-19 que já ceifou milhares de brasileiros e contaminou quase três milhões e meio de pessoas, o capitão-presidente propagandista da cloroquina, negacionista da ciência, e o Congresso Nacional conservador desacreditado estão querendo fazer suas médias, enquanto levam nossa alma, priorizando mais verbas para armamentos das forças armadas do que para a educação, além de deixar nua a nossa cultura. Sem ela, não há vida e não existe espírito ativo para contestar e protestar. Só o silêncio ensurdecedor de uma nação sem futuro.

Beneficiar o capitalismo

Na verdade, nem estão aí para o social e para o fortalecimento cultural. Estão mais preocupados em privatizar as estatais para dar dinheiro para o capitalismo e beneficiar os mais abastados. São vários os exemplos, e um deles está nos pequenos negócios criativos, de serviços e comerciais que não puderam ter acesso aos recursos prometidos porque não têm as garantias burocráticas devidas exigidas pelo sistema financeiro.

A cultura não quer viver de esmolas emergenciais populistas, mas de uma política merecida de incentivos, com recursos públicos para criar e manter seus projetos, de modo que possa caminhar com suas próprias pernas, e não ficar mendigando.

Esse é um dever primordial de todo governo, porque sem educação e cultura, não existe nação desenvolvida, nem povo consciente dos seus deveres e direitos, para reivindicar e não se deixar enganar com esmolas. Os músicos, os artistas em geral, os escritores, literatos, poetas, cineastas, artesãos e outros que lidam no ramo neste país já vivem em penúria há muitos e muitos anos. A estratégia é criar um Brasil de alienados imbecis e não de cabeças pensantes, e isso já está ocorrendo.