Poema mais recente de autoria do jornalista Jeremias Macário

Como já dizia o poeta profeta,

“Dou voz a quem não tem voz”,

E no meu verso torto controverso,

Sou também a voz do invisível,

Vítima desse capital algoz.

 

Criticam tanto meu lamento,

De que tem o canto profundo,

De um vento de tristeza e dor;

Que nele tem a cor vermelha,

O cinzento bagaço da seca,

Da “Triste Partida” Assaré,

Do nordestino pau-de-arara,

Como vara nascido num sapé;

Que minha tinta tine como aço,

E que seja como folha fresca,

Como o mel doce da abelha,

E que devo logo me libertar,

Desse manto de tristeza e dor.

 

Respondo que em meu caminho,

Com minha flecha lá vou eu,

Ora no raio da luz, ora no breu,

Misturando cachaça com vinho,

Com a pipa de olho no tempo,

Temperando certo minhas linhas,

Na tentativa de aliviar essa dor,

Da lança letal da injustiça social,

Que ao invés de água, só sai sal.

 

Prefiro ser a “Vinhas da Ira”,

Da terra agrária violentada,

Marcha de um sonho prometido,

Na lente de John Ford que mira,

O explorador tirano da pobreza,

Como o insano faz do nosso Brasil,

Roubando todo encanto e riqueza,

E transformando a nossa nação,

Que Caminha disse ser fértil chão,

Num velho e arranhado vinil.

 

Onde estiver a fome e a miséria,

A chibata surrando o mais fraco,

Lá estará a artéria da minha voz,

Mesmo que vire saco de pancada,

Pois a arte no seu sensato canto,

Tem o ato de mostrar o belo e a fera,

Sem agradar o pecador e o santo,

Senão melhor ficar em sua tapera,

Ou numa loca onde vive o mocó,

Que arisco sai ao calor do sol.

E depois se recolhe em sua toca.

 

Se for para ser apenas seguidor,

Dessas falsas parábolas e fábulas,

Não gritar contra a cruel realidade,

Dessa sociedade tão dura desigual,

De indiferente marginal desamor,

Fruto desse perverso bruto animal,

Fico em meu canto mudo sem falas,

E paro de vez com a minha canção,

De angústia, revolta, tristeza e dor.