ITAMAR INDICA LEITURA DO ARTIGO DE ORLANDO SENNA
ESCURIDÃO E ESPLENDOR
No filme alemão Jesus me ama (Jesus Liebt Mich), uma comédia alegórica e absurdista de Florian David Fitz sobre a eterna luta entre o Bem e o Mal, os jovens Jesus e o Diabo tentam resolver suas diferenças na mão, na porrada, em um confronto de socos, pontapés e pauladas. Enquanto Deus, o velho, lava as mãos e diz que essa briga é um problema da humanidade e não dele. Um dos eixos da alegoria é o egoismo do amor. Sabemos que a incorrigível humanidade chegou a profundidades radicais de estupidez e violência em vários períodos da sua história, gerando crises universais e, consequentemente, saídas para essas crises. Saídas dolorosas, desgarradoras, mas saídas — se assim não fosse o apocalipse já teria acontecido (no século passado o grande exemplo é a Segunda Guerra Mundial e seu rabicho Guerra Fria, com mísseis nucleares apontados para todas as direções).
Acho que todos já se deram conta que estamos nos aproximando de outro clímax desse tipo, embora com formato diferente do que aconteceu no século XX. São novos os ingredientes do fim da privacidade, da conexão instantânea de milhões de pessoas. O modelo guerra formal total foi substituido pelo fomento às guerras regionais e estabeleceu-se um modelo econômico perverso e corruptor. Mas a novidade mesmo é a violência pornográfica e pandêmica, a violência irracional praticada pelas instituições e pelas pessoas, organizadas em grupos ou agindo individualmente. Decapitações por toda parte, em um arco que vai do radicalismo islâmico ao narcotráfico do México, onde cortar cabeças é coisa trivial. Esquartejamento de seres humanos nos presidios brasileiros. Segurança pessoal e familiar beirando o zero em toda parte desse planeta que é azul visto de longe e vermelho sangue visto de perto.
Nessa beira de crise aguda tanto o pessimismo como o otimismo também podem ser vistos como extremismos. Mas existem, permeiam a alma humana. Principalmente o otimismo, baseado no balanceio da história que nunca chega à hecatombe final. O otimismo que gera as estórias, a narração de ficções, essa característica da espécie que nos acompanha desde a sombra das mãos projetada pelo sol no fundo das cavernas, inventando criaturas. A arte que faz parte de nós, onde idealmente, crentemente, o Bem sempre supera o Mal. Vocês conhecem alguma estória em que o Diabo vence? Nem na alegoria alemã Jesus me ama.
Estou sendo otimista sentado à sombra de uma árvore, diante de um rio cascateante, com o computador sobre as pernas, na minha cidadezinha de Lençóis, no coração montanhoso da Bahia, participando da FLICH, a primeira Festa Literária Internacional da Chapada Diamantina. Não posso ser pessimista se estou envolto pela arte e pela natureza vicejante. Passo a vocês o poema que declamei ontem na festa, da minha lavra: “Te quero mais que o vento aos pássaros viageiros, te quero mais que a terra à semente germinante, te quero mais que a água a seus peixes bandoleiros. Te quero mais que o fogo ao seu calor abrasante, te quero mais que o fogo ao vento que o alimenta, à terra que o afaga, à água que o apaga. Te quero tanto, tanto como o grito ao espanto, como o olho ao quebranto, como o canto ao contracanto, como o sorriso ao acalanto. Te quero além, muito além do querer do bálsamo à dor, além do querer da luz à cor que a retém e que a faz refém do esplendor.”
* Link para outros textos de Orlando Senna no Blog Refletor http://refletor.tal.tv/tag/orlando-senna extrafino@novanet.com.br
Orlando Senna nasceu em Afrânio Peixoto, município de Lençóis Bahia. Jornalista, roteirista, escritor e cineasta, premiado nos festivais de Cannes, Figueira da Foz, Taormina, Pésaro, Havana, Porto Rico, Brasilia, Rio Cine. Entre seus filmes mais conhecidos estão Diamante Bruto, realizado em Lençóis, e o clássico do cinema brasileiro, Iracema. Foi diretor da Escola Internacional de Cinema e Televisão de San Antonio de los Baños e do Instituto Dragão do Mar, Secretário Nacional do Audiovisual (2003?2007) e Diretor Geral da Empresa Brasil de Comunicação – TV Brasil (2007/2008). Atualmente e presidente da TAL – Televisão América Latina e membro do Conselho Superior da Fundacion del Nuevo Cine Latinoamericano. Desde 2000, realiza oficinas de dramaturgia audiovisual (cinema, TV, videogame) em Lençóis, com participantes da Chapada Diamantina e de todo o País. Em janeiro de 2013 realizou a Oficina de Roteiro e Tecnologia Digital para Crianças.
Itamar Pereira de Aguiar nasceu em Iraquara na Bahia, concluiu o Ginásio e Escola Normal em Lençóis, do qual foi Diretor Geal de 1º e 2º graus (1974/1979), fez graduação em Filosofia na Universidade Federal da Bahia – UFBA em 1979, Curso de Mestrado em 1999 e Doutorado em Ciências Sociais – Antropologia – 2007 na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC/SP, Pós doutorando em Ciências Sociais – Antropologia – pela Universidade Estadual de São Pulo – UNESP campus de Marília – SP. Atualmente é Professor Titula da Universidade Estadual do Sudoeste do Estado da Bahia – UESB, onde ingressou em 16/03/1983 e dentre outras atividades, mais recentemente, elaborou os projetos de criação dos Cursos de Licenciatura em Filosofia e Cinema e Audiovisual, juntamente com outro colegas e liderou o processo de criação destes cursos.











