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SAUDADES DOS TEMPOS QUANDO ERA RESIDENTE UNIVERSITÁRIO

Eram os anos iniciais da década de 1970, e o regime ditatorial com o general Médici era de chumbo e tirania. A duras penas frequentava a Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia-Ufba (terminei a graduação em 1973). Nos primeiros meses de 1970 lutava aguerridamente para conseguir uma vaga na Residência Universitária, mas meu pai, um roceiro, não tinha documentos exigidos pela reitoria que provasse ser pobre necessitado. Questão da maldita burocracia!

Para sobreviver, vivia de bicos (quando arranjava) morando num pardieiro ali no Politeama (centro), comendo pão três vezes ao dia, misturado com mel Karo feito do milho. A barriga roncava e pedia socorro quando passava nas portas dos restaurantes. Da calçada olhava lá dentro as pessoas realizando suas refeições. Às vezes enganava o estômago quando um amigo trazia do restaurante universitário uma comida dentro de uma lata vazia de Nestlé.

Basta de lamento. Meu foco era mesmo morar na residência universitária, destinada aos estudantes carentes, e eu era um deles, mas o processo estava emperrado. Lembro que todos dias passava no Departamento da UFBA que administrava as três residências, localizado na Rua João das Botas, no Canela. A ansiedade era grande e todos os dias revisava a lista dos aprovados, que fica no balcão. Para ter certeza, olhava duas e até três vezes para certificar seu meu nome não estava incluído, e nada.

Fotos arquivo “A Tarde”

Aquilo me deixava ainda mais angustiado porque o cerco se fechava, mas não dava trégua à briga para conseguir minha vez. Quando se está na pior, os argumentos brotam mais fortes como uma explosão vinda do coração. Para encurtar, um dia cheguei lá com minha surrada malinha, e o responsável pelas casas, de tanta insistência, liberou o meu nome. Não consegui me conter de tanta alegria.

Não me lembro muito bem, mas já era o segundo semestre de 1970 e lá fiquei na R1, a maior de todas, no Corredor da Vitória, até o final de 1973. Foram três anos e meio de muitas boas lembrança, de farras de caipirinhas, aventuras e confabulações entre colegas. Não tinha nada, mas era feliz.

O mais difícil era que os homens da ditadura nos vigiavam dia e noite. Quando entrava uma cara nova, nós ficávamos com as antenas ligadas porque poderia ser um agente espião, e aí nada de grupinhos a três trocando ideias proibidas. Aliás, era proibido pensar.  Duas pessoas falando já era perigo à vista. Compensávamos a repressão e o medo com as curtições de final de semana no pátio da Residência (a R1), tomando umas cachacinhas (não tinha grana para cerveja em bar).

O bom era que não me preocupava mais com passar fome porque tinha a moradia e mais duas refeições garantidas (o café da manhã a gente se virava como podia). Sem dinheiro, fazia os percursos entre as faculdades onde tinha disciplinas na base da velha paleta, mas sem reclamar. Vivia numa boa, dentro do possível. Não me importava com dinheiro e nem com roupas.

Não sei como, me tornei vice-presidente da R1 ao lado de Aroldo que fazia medicina. Vez por outra o regime trancafiava alguém e sumia com um estudante. Assim aconteceu com meu companheiro presidente, e aí tive que assumir o seu lugar. Podia ser a bola da vez. Andava apreensivo, e os colegas ficavam na butuca quando pintava alguma coisa fora do normal. Algumas vezes tive que dormir fora, inclusive nas moitas do Abaeté.

A ditadura torturava, matava e desaparecia, como fizeram com meu amigo residente Machado, um negro do curso de engenharia. Sumiu sem deixar rastro. Todos os anos, no dia 7 de setembro, as residências eram cercadas por policiais militares, do exército e os federais. Ninguém saia. Certamente os generais temiam que fizéssemos um levante e, sem armas na mão, derrubássemos a dita cuja. Dificilmente um confiava no outro, mas tínhamos aqueles grupos mais seguros com os quais trocávamos nossas figurinhas.

Lá se foram 50 anos e não é que estão passando sobre nossas cabeças aquelas nuvens sombrias e pesadas que achávamos que não mais existiam! Sempre me recordo daqueles tempos de estudante da R1. A R2 ficava e ainda fica no Largo da Vitória e a R3, a Feminina, no Canela.

Neste domingo (dia 29/08) as lembranças jorraram outra vez quando vi e li uma matéria no jornal “A Tarde” sobre a situação das residências universitárias, com uma foto da escadaria de entrada do prédio neoclássico. Logo bateram as saudades quando era residente universitário.

Confesso que me imaginei ali descendo e subindo todos os dias. Muitos acontecimentos, muitas discussões, brigas e amizades seladas. Pena que as notícias não são nada animadoras. Hoje tem mais uma unidade na Avenida Garibaldi (quatro ao todo), e todas juntas têm capacidade para 389 alunos. Com a pandemia, só a metade está sendo ocupada. Muitos voltaram para suas cidades de origem.

Para começar, as residências sofreram drasticamente os efeitos dos cortes de verbas federais destinadas ao Plano Nacional de Assistência Estudantil (Pnaes). Foram subtraídos R$6,5 milhões somente neste ano, 18% menor que o investido em 2020. Mesmo assim, a número um, (a R1) está sendo reformada porque seu prédio já é antigo e carece de cuidados.

A R1, da qual tive o privilégio de morar (adquirida pela Ufba em 1950) entrou em processo de tombamento, e o atual prefeito de Salvador, Bruno Reis, chegou a assinar o pedido, mas depois voltou atrás e revogou o decreto alegando que se trata de um patrimônio federal e que a prefeitura não tem recursos para bancar sua preservação.

Pode ter outros interesses escusos por detrás por parte do setor imobiliário que já derrubou a maioria dos casarões do Corredor da Vitória (ainda tem o Museu Costa Pinto), transformando o local numa selva de pedra. A situação da R2 (Largo da Vitória) não é diferente. A R3 (antiga residência feminina) foi transferida para uma casa alugada na Graça, que abriga 100 estudantes. A R4 foi construída em 2012, na Avenida Garibaldi, e atende até 190 estudantes.

Por causa das reformas e a pandemia, a R1 está com apenas 40% da sua capacidade de 80 alunos. Lembro que cheguei a morar no térreo, um local mais fechado e úmido que atualmente apresenta mais problemas na estrutura, e também no primeiro e segundo andares.

Sem recursos, a gente mesmo lavava nossos “paninhos de bunda” nuns tanquinhos que ficavam na parte externa. Sábado era o dia das “lavadeiras”. Ao lado fica o restaurante (saudades dos bandejões e das batidas de talheres quando a comida não estava boa). Os milicos ficavam de olho em nós. Todos eram vistos com subversivos e perigosos comunistas.

Para entrar hoje na residência é necessário ter renda familiar de até um salário mínimo e meio, estar regularmente matriculado na Ufba e não ter outra graduação em paralelo. O candidato tem que ser do interior. As exigências não mudaram muito de lá para cá, mas meu pai não tinha renda fixa. Vivia da lavoura e dependia do tempo chuvoso ou seco.  Tive que conseguir meu teto na “tora”, no convencimento de que era lascado mesmo.

OS RETARDATÁRIOS IGNORANTES E O FUZIL NO LUGAR DO FEIJÃO

“Ao invés de comprar feijão, idiota, compra fuzil”. O pior de tudo isso é que ainda tem gente na frente do Palácio Alvorada para ouvir e aplaudir uma barbaridade desse tipo. Em que país estamos vivendo, em que mundo, em que idade? Acreditem! Estamos no Brasil e em pleno século XXI.

Atrás desse cara abominável, representando o AntiCristo, seguem milhões de ignorantes retardatários entre jovens e idosos que insistem em não se vacinar contra a Covid-19, argumentando ser um direito individual. Oh Senhor, perdoe porque eles não sabem o que dizem ou fazem! Será que alguém que atenta contra a vida de outro merece perdão?

A nível federal estamos sendo sugados por uma forte enxurrada para uma “boca de lobo”, mas as autoridades municipais e governamentais, em consonância com a Justiça, precisam, urgentemente, tomar medidas drásticas para punir esses elementos perniciosos que confundem o individual com o coletivo.

Essas pessoas, se é que são mesmo, devem ser punidas através de diversos instrumentos que lhes privem de determinados benefícios, como continuar trabalhando em qualquer empresa privada ou pública, serem proibidas de frequentar bares e restaurantes, eventos, estádios, viajar, participar de concursos, editais, entre outras atividades. Elas não têm mais o direito de ir e vir, como reza a Constituição.

Por que com tanto avanço tecnológico dos meios eletrônicos, com tantas invenções e criações científicas, com o homem explorando a vastidão do espeço sideral e a evolução da internet, milhões preferem o retrocesso e escolhem as trevas no lugar da luz? A inteligência está regredindo? Não vai demorar muito e os seres humanos vão perder a fala.

O que passa na cabeça dessa gente que prefere o fuzil ao feijão e se recusa a se imunizar, mesmo diante de todas as evidências científicas provando ser a saída para sairmos dessa pandemia? Algum transtorno ou trauma mental de infância? Uma necessidade de se aparecer diante dos outros para dizer que é diferente? Neurônios deteriorados, apodrecidos? Influência das fake news nas redes sociais?

Aqui mesmo em Vitória da Conquista um médico que não se vacinou, terminou sendo contaminado e veio a óbito. Ele não foi sozinho. Deve ter levado outros para o além, ou pelo menos empurrado um familiar ou amigo para um leito de intubação hospitalar.  Que direito individual é esse? Na própria Constituição, a sua vida e a do outro está acima de tudo. Oh quanta ignorância!

Não dá para conviver com pessoas desse tipo. Não se trata de uma questão de intransigência. Estamos falando de vida. Seja imbecil, retrógrado, extremista em seus pensamentos, de direita ou o que quiser em termos ideológicos, mas não atente contra a vida do outro através da contaminação de um vírus que é mortal e deixa sequelas horríveis. Para esse tipo de pessoa, eu quero é distância e que não pise os pés em minha casa.

COORDENADORIA DE CULTURA DECIDE IMPASSE NA FORMAÇÃO DO CONSELHO

O impasse de dois empates na votação dos nomes de Thais Ariane Pimenta e Rosa Marie Falcão Aurich para compor o eixo cinco – patrimônio cultural material (patrimônio histórico) e imaterial (culturas populares) – representativo da sociedade civil do Conselho Municipal de Cultura levou à coordenadoria da pasta da Secretaria de Cultura, Turismo, Esportes e Lazer a escolher ontem (dia 27/08) o nome da titular.

A Coordenadoria de Cultura optou pelo nome de Rosa Aurich, ficando Thais Pimenta como suplente, fechando assim o número dos dez representantes da sociedade (cinco titulares e cinco suplentes) que irão fazer parte do próximo Conselho para o biênio 2021/23.  De acordo com a própria Coordenadoria, o desempate nesses casos foi baseado no regimento interno do órgão. Os outros cinco titulares são indicados pela Prefeitura Municipal e Câmara de Vereadores.

A reunião que discutiu o eixo cinco foi realizada nesta quarta-feira (dia 25/08), no Memorial Casa Regis Pacheco, com a presença do secretário de Cultura, Xangai, que abriu os trabalhos falando da importância do Conselho para alavancar as atividades da cultura em Vitória da Conquista e montar uma política que atenda aos anseios dos artistas e de toda sociedade conquistense.

A votação entre Thais e Rosa ficou empatada entre seis a seis. Então, a Coordenação de Cultura resolveu fazer outra eleição, dessa vez entre os novos conselheiros e, novamente, houve impasse de cinco a cinco. O que chama a atenção é se a pasta da Cultura pode indicar um representante da sociedade quando ocorrem empates dessa natureza. Não seria o caso de se realizar outra chamada para uma nova escolha do eixo cinco?

No dia 19 de agosto, um encontro no auditório do Cemae, na Avenida Olívia Flores, votou os nomes dos representantes dos eixos um – artes plásticas e visuais, audiovisual (gráfica, gravura, artesanato, fotografia e exposição), do dois – música, do eixo três – artes cênicas (cinema, teatro, circo, ópera e mímica) e dança, e do quatro – literatura, livro, leitura e biblioteca.

As discussões para a votação do eixo cinco foram coordenadas pelo coordenador da Secretaria de Cultura, Alexandre, ao informar que tão logo sejam indicados os representantes do poder público, os novos conselheiros tomarão posse para iniciar os trabalhos dos dois próximos anos.

Antes da votação, houve uma sessão de debates entre os candidatos que, além de apresentar seus nomes e funções que exercem na comunidade, defenderam suas propostas e intenções como possíveis membros do Conselho. Uma das metas seria sugerir o cadastramento e tombamento dos terreiros de candomblé de Vitória da Conquista, bem como fortalecer e apoiar as culturas populares do município.

Na reunião, que contou com as presenças dos eleitos dos outros quatro eixos do Conselho, um ponto ganhou um denominador comum que será a luta para que a sociedade tenha mais participação nas decisões do órgão consultivo, deliberativo e fiscalizador, inclusive que seus membros procurem e interajam com os diversos segmentos e linguagens artísticas que fazem parte da nossa cultura. Nesses encontros para a formação do Conselho, por exemplo, foi fraca a presença de pessoas da sociedade, muito pela falta de divulgação na mídia.

Outra questão é que Vitória da Conquista estruture, em definitivo, uma política cultural que contemple todos os eixos ou linguagens artísticas, de modo que tenhamos diretrizes de realizações de eventos, capacitação e treinamento profissional, pesquisas para averiguar as necessidades de cada setor da cultura, conferências, seminários e outras ações.

Na verdade, cultura é um grande agente de desenvolvimento econômico gerador de emprego e renda para o município. Sem um plano, Conquista nunca teve, por exemplo, uma Feira do Livro, como vem acontecendo em outras cidades. Há muitos anos que não se realiza um salão de artes plásticas e fotografia, nem se faz festivais da música, de teatro e da dança.

“PERCURSOS TRANSLOCAIS: VALENTIN MUDIMBE E O PÓS-COLONIAL”

As suas produções intelectuais foram voltadas para a salvação do seu país, o Zaire, hoje a República Democrática do Congo. Em suas teses filosóficas sempre defendeu que a cultura nacional autêntica era uma mistificação. Quanto ao continente africano, “não existe uma cultura unificada”.

Como monge de formação beneditina, Valentin Mudimbe estudou e lecionou em várias universidades como doutor nos Estados Unidos e na França. Em 1968 formou-se em Sociologia na Universidade de Paris-Nanterre. Na interpretação da acadêmica Regiane Augusto de Mattos, ele é comentado como um dos expoentes africanos no livro “Intelectuais das Áfricas”.

Nos anos 60, de acordo com Regiane, foram para Mudimbe e outros universitários africanos um período de despertar político, no qual o marxismo, e depois o socialismo africano, tornaram-se inspiração, não somente politicamente para os movimentos de independência da África, como para compreender academicamente as sociedades africanas.

Em seu livro “A Invenção de África: gnose, filosofia e a ordem do conhecimento”, publicado em 1988, Mudimbe apresenta a ideia de África como uma invenção epistemológica na área das ciências sociais, defendendo que o conhecimento seria um conhecimento estritamente controlado por procedimentos específicos elaborados por europeus, que ele denomina gnose.

De acordo com Regiane, o intelectual em que ela se refere, não apenas criticou a antropologia clássica e a etnologia europeias, como rejeitou o movimento político cultural Negritude (Aimé Césaire, poeta da Matinica, foi o primeiro a usar esse termo) promovido por intelectuais negros, afirmando que também era uma concepção influenciada por uma episteme ocidental da África, mas representada por africanos e seus descendentes.

Para a intérprete de seus pensamentos, desde o final do século XIX, intelectuais africanos empenharam-se em transformar a visão que imperava na África de um continente formado por sociedades sem história. Após a segunda Guerra Mundial, esses intelectuais escreveram trabalhos em torno da problemática colonial, tendo um papel importante nas lutas de libertação do continente. Nesse âmbito, ganhou destaque, como ramo específico do pan-africanismo, o movimento da Negritude.

O principal teórico do movimento foi Léopold Senghor, mais tarde presidente do Senegal, permanecendo no poder entre 1960 a 1980. O meio de debate e divulgação do movimento das ideias era a revista Présence Africaine, criada em 1947.

No pensamento de Mudimbe, os africanos deveriam criar suas próprias perspectivas através da ruptura, rejeitando as teorias do desenvolvimento contínuo de uma cultura africana, fechada e única. Ele propôs que os intelectuais africanos inventassem suas próprias concepções do conceito de africano.

Para ele, os ocidentais se entendem como vetores de um modelo cultural pretensamente universal. Entretanto, essa universalidade não é construída através de uma experiência real da pluralidade, pois viveram a alteridade de modo marginal ou deformado, partindo da sua própria identidade.

Mudimbe defende a importância da singularidade das experiências históricas. Os africanos teriam a capacidade de gerar suas próprias normas de inteligibilidade e de interpretação, sem a necessidade da utilização de categorias criadas por outras experiências.  Classificou a lógica binária local/global ou singular/universal como uma divisão que não é totalmente absoluta.

Em seus estudos, disse que todos têm o direito de usar o conhecimento sobre o continente para construir uma identidade que pode ser compartilhada. Se para ele, sua própria experiência foi bem-sucedida, a crítica à colonização recai sobre o processo colonial falhar na conciliação entre as tradições africanas e europeias. Assim, a África e os africanos poderiam também ter êxito, se soubessem conciliar o passado colonial às suas próprias experiências históricas.

 

AS PALMEIRAS E A CULTURA

As nossas centenárias e imponentes palmeiras da Praça Tancredo Neves, em Vitória da Conquista já fazem parte da nossa cultura, mas quantos não passam por ali todos os dias e nem param para admirá-las e refletir o quanto a natureza é bondosa conosco? Da Casa Regis Pacheco, bem em frente da bela praça, as lentes da máquina do jornalista e escritor Jeremias Macário registrou essa imagem que se eleva aos céus e se une à nossa cultura. Lá estão elas, as palmeiras, numa intimidade com o vento e as nuvens a balançar suas folhas para lá e pra cá, refrescando os que passam apressados pelos afazeres do dia a dia, principalmente em épocas de muito calor. Felizmente, ainda é o local mais conservado e aprazível da cidade porque também todas as outras praças deveriam ganhar os mesmos privilégios. Praça, não é somente lazer e turismo para adultos e crianças. É também cultura porque é nela que se troca ideias, que uma pessoa rever a outra que há muito tempo não se via e é parada para um bom bate-papo entre amigos. É ainda onde namorados se encontram para a troca de beijos e carícias. É reconciliação e, acima de tudo, uma benção e um presente da natureza que merece toda atenção e cuidados, sem essa de jogar lixo no chão. Quem apenas só quer ser servido e não serve ao outro, é um ignorante ingrato que nem merece continuar a existir.

VISÕES DAS ÁFRICAS

Versos inacabados do jornalista e escritor Jeremias Macário

Nasci na Região dos Grandes Lagos,

Sou filho da Montanha da Lua,

Mãe nua das florestas e dos matos,

Fui rei do Reino dos Magos,

Não sou mais preto e branco,

Sou um lambuzo dos mulatos,

Visões geográficas das Áfricas.

 

Sou parto colonizado do colonizador,

Do Congo, da Guiné, Angola e Senegal,

Portos de correntes, massacres da dor,

Culturas do chicote curadas com sal,

Kunta Kinté do patrão fugidor,

Nas visões das lendas das Áfricas.

 

Sou Soynka, Mia Couto e Cabral,

Diop, Fela-Kuti, Mudimbe e Fatema,

Ketu e Bantu com sua raiz cultural,

Arte da escrita, música e do cinema,

Cada um com sua história nos anais,

Nas visões dos intelectuais das Áfricas.

O “SOLDADO” DO CAPITÃO-PRESIDENTE CONTESTA OPOSIÇÃO NA CÂMARA

“No Dia do Soldado, sou um soldado de Jair Messias Bolsonaro” – disse o vereador Augusto Cândido em seu pronunciamento na sessão de ontem (dia 25/08) da Câmara Municipal de Vitória da Conquista, para rebater a oposição que havia criticado a atuação do capitão-presidente de que ele nada fez até agora em seu governo. “São palavras vazias”.

Sem muita coisa para citar, o parlamentar apontou que seu presidente está realizando obras que há 40 anos só estava no papel. No entanto, ele esqueceu de afirmar que essas obras (algumas que ele está pretendendo tocar são inacabadas). Aliás, ele vem fazendo muita coisa que é destruir o país. A plenária reagiu negativamente à sua fala.

Outros que aproveitaram a ocasião para prestar homenagens ao Dia do Soldado foram o subtenente Muniz e o delegado Marcius Venicius. Este usou seu discurso de três minutos para denunciar ex-vereadores da Câmara que não devolveram até o momento os equipamentos da Casa, como telefones, tabletes e computadores. Ele não chegou a citar nomes, mas declarou ser um caso de polícia.

O subtenente criticou o governador Rui Costa, dizendo que ele representa o desgoverno, e chegou a chamá-lo de “genocida”, que deixou os servidores sem nenhum aumento. Quanto ao sistema de segurança do Estado, destacou que Salvador vive um inferno. Ao elogiar o governo federal, informou que a presidência está entregando 22 mil cestas básicas para a Prefeitura de Conquista. O mais irônico é que essa gente sempre condenou no passado o Bolsa Família e todo tipo de ajuda que, no entender deles, só fazem acomodar as pessoas.

O vereador Dinho dos Campinhos apresentou uma proposição para que a ponte que liga o bairro à cidade leve o nome de Idalino Lima, mais conhecido como “Gaguinho” que, de acordo com ele, como presidente da Associação dos Moradores fez muito pelo local, inclusive foi quem mobilizou o poder público para que a obra fosse concretizada.

Viviane Sampaio teceu comentários sobre a importância da Lei Maria da Penha de proteção às mulheres, embora lamentasse que a violência contra a mulher só tem aumentado no Brasil. Anunciou que pretende apresentar um projeto-de-lei onde irá obrigar que representantes de condomínios e prédios habitacionais denunciem casos onde a mulher seja vítima de agressões.

Sobre a questão, a delegada Gabriela, da Deam (Delegacia da Mulher) recebeu da Câmara uma homenagem pela sua atuação à frente do órgão em Vitória da Conquista. O vereador Fernando Jacaré, ao contestar as falas dos colegas bolsonaristas, ressaltou o trabalho do governador Rui Costa, inclusive citando a implantação do serviço de atendimento militar no SAC.

“Quem abandonou os servidores sem aumento foi a Prefeitura Municipal.  Rui Costa é uma das maiores referências de trabalho no Brasil como governador”. Ainda em seu pronunciamento, fez duras críticas à Via Bahia que nada fez em Conquista para evitar os acidentes constantes no Anel Viário, e cobrou a realização de projetos de passarelas e viadutos.

Novamente, como em quase todas as sessões, foi levantada a questão da escassez de água em Vitória da Conquista. O assunto foi comentado pelo vereador Hermínio Oliveira que, como outros parlamentares, querem que a nova barragem de abastecimento, prometida pelo Governo do Estado, seja construída sob o Rio Pardo, entre Inhobim e Encruzilhada, e não no Rio Catolé como está previsto.

 

 

 

“INVOCAÇÃO À MARIAMA”

BASTA!

Poucos no Brasil de hoje se lembram de D. Hélder Câmara – arcebispo de Olinda e Recife, uma trincheira de resistente contra a ditadura e o arbítrio do regime de quase 30 anos. Muitos menos conhecem o seu discurso ou pregação, gravado ao vivo por Milton Nascimento na Igreja de Nossa Senhora Mãe dos Homens – Caraça – Minas Gerais, em 1982.

Depois de 40 anos, a sua fala continua mais que atual, como de tantos outros intelectuais e artistas, a exemplo do cantor e compositor Raul Seixas, que no último dia 21/08 completou 32 anos de sua morte. Raul foi outra voz que nos ensinou a não desistir. Nos ensinou a levantar e a sonhar juntos outra vez.

De lá para cá, com algum intervalo de avanço, o Brasil só fez regredir e, nos três últimos anos, entrou nas trevas do retrocesso. Ninguém tem mais interesse em alugar o Brasil. O Ali Babá de hoje são mais de 40 milhões de ladrões.  D. Helder, como D. Paulo Evaristo Arns, eram timoneiros da Igreja Católica que hoje está silenciosa diante de tantas barbaridades de um capitão-presidente que adotou a política da morte e da destruição. Cadê nossa CNBB? Só para rememorar as mentes esquecidas e desmemoriadas, vou colocar aqui alguns trechos de “Invocação à Mariama”.

Após uma introdução em louvor a Mariama, Nossa Senhora, mãe de Cristo e mãe dos homens, ele diz que o mais importante “é que a Igreja de teu Filho não fique em palavras, não fique em aplauso. O importante é que a CNBB, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil embarque de cheio na causa dos negros, como entrou de cheio na Pastoral da Terra e na Pastoral dos Índios” (tudo isso se esfarelou). Os índios estão sendo mortos e expulsos de suas terras.

O arcebispo prossegue dizendo que “não basta pedir perdão pelos erros de ontem. É preciso acertar o passo hoje sem ligar ao que disserem. Claro que dirão, Mariama, que é política, subversão, que é comunismo. É evangelho de Cristo, Mariama”.

Em tom mais forte, ele diz que “problema de negro acaba se ligando com todos os grandes problemas humanos. Com todos os absurdos contra a humanidade, com todas as injustiças e opressões”. Em seguida, faz um apelo à Mariama para que se acabe mesmo a maldita fabricação de armas. O mundo precisa é fabricar paz”. A violência banalizada transforma as minorias em refugiadas em seu próprio país, sem direitos e liberdades.

Sua voz vai se elevando para não ser abafada diante dos aplausos, e D. Hélder desabafa: “Basta de injustiça, de uns sem saber o que fazer com tanta terra e milhões sem um palmo de terra onde morar. Basta de uns tendo de vomitar para poder comer mais e 50 milhões morrendo de fome num ano só” (mais que atual em nossos tempos).

O seu clamor continua ecoando a todos os cantos do Brasil, de que “basta de uns com empresas se derramando pelo mundo todo e milhões sem um canto onde ganhar o pão de cada dia (temos mais de 15 milhões de desempregados).

O pregador, como Martin Luther King, sonha quando afirma: “Mariama, Nossa Senhora, nem precisa ir tão longe como no teu hino. Nem precisa que os ricos saiam de mãos vazias e os pobres de mãos cheias. Nem pobre, nem rico. Nada de escravo de hoje ser senhor de escravos amanhã. Basta de escravos. Um mundo sem senhor e sem escravos. Um mundo de irmãos. De irmãos não só de nome e de mentira. De irmãos de verdade, Mariama”.

Se vivo fosse, o que ele diria hoje? Diria que basta de tanto ódio e intolerância, de fanatismo na religião, de é nós contra eles, de tanto negacionismo da ciência diante de um vírus mortal que já ceifou a vida de quase 600 mil brasileiros. Basta de atentar contra a democracia. Não queremos a volta do passado de prisões, de torturas e de mortes. Nada de ditadura, nada de se repetir os mesmos erros.

Sua revolta seria mais enfática contra o destruidor do nosso futuro, e levantaria seu chicote para os que segregam e dividem negros de brancos com suas atitudes racistas, homofóbicas e misóginas. Nada de fascismo, de ideias retrógradas. A terra não é plana. O Brasil precisa é de evolução e justiça social para todos.

Basta de destruir a nossa cultura, de atear fogo no Pantanal, na Amazônia e nos nossos outros biomas tão depredados pelos homens. Basta de invadir terras indígenas para transformá-las em garimpos do mercúrio e envenenar nossos rios. Basta de tantos agrotóxicos na natureza.

Basta de fogo no Museu da Língua Portuguesa, no Museu Nacional e na Cinemateca. Basta de destruir nossa memória e nossos acervos culturais. Basta de colocar armas nas mãos dos cidadãos. Precisamos é de mais livros e ideias para que não seja mais necessário construir penitenciárias.

O Brasil carece é de mentes fartas de educação, de saber e conhecimento. Basta de tanta arbitrariedade, de tanto pensamento doentio psicopata de fechar nossas instituições, como a Suprema Corte, Congresso Nacional e as universidades. Sem as ciências humanas, o homem vira um robô da tecnologia. Ele não vai passar de um simples parafuso nessa engrenagem selvagem capitalista.

Basta de milhões passando fome, vivendo em favelas e casebres desumanas. Basta de tantos pedintes nas ruas com as mãos estendidas por uma esmola, com o estômago vazio. Basta de tanta ignorância, de tanto atentado contra a vida onde milhões acham que se vacinar é um direito individual. Basta de tanto egoísmo e individualidade. O Brasil necessita é do pensar coletivo.

Basta, senhor capitão, de falar tantas asneiras, de xingar com palavrões jornalistas, o próprio povo e todos seus adversários. Basta de vomitar suas sujeiras em nossas caras com sua necropolítica do arbítrio. Basta de tanto abusar da nossa paciência! Basta de não governar!

 

PSOL REALIZA CONVENÇÃO

No último dia 22/08 (domingo) o PSOL (Partido Socialista), núcleo de Vitória da Conquista, se reuniu no Colégio Zênit, para  escolha dos seus novos membros da diretoria com cinco chapas na disputa da convenção. No total foram 64 votos, saindo vitoriosa a chapa dois de Keu Souza e Sonka, com 33 votos. A chapa três, do professor  Euvaldo Contiguiba, obeteve 19 votos, a um, com Mauri, teve quatro votos, a chapa quatro com um voto e a cinco com cinco votos (um voto nulo). Foi um encontro informal e descontraído que também serviu para rever os amigos num bom bate papo (alô meu amigo e companheiro Clovis Carvalho). Quem também marcaram suas presenças  foram os professores Ferdinad e Antônio Andrade, entre outros. Vamos prestigiar a nova presidente Keu e desejar que faça um bom mandato à frente do partido que reúne nomes de peso da nossa sociedade conquistense. A convenção se tornou numa praszrosa troca de ideias e informações entre colegas, companheiros e companheiras de partido. Os trabalhos só terminaram no final da tarde, com o resultado das eleições.

“LENDAS BRASILEIRAS” – CÂMARA CASCUDO

DIA DO FOLCLORE – 22 DE AGOSTO.

Quando se fala em folclore lembra-se logo do grande escritor potiguar Luis da Câmara Cascudo que se dedicou ao tema. Com o estrangeirismo na nossa língua e o complexo de se imitar tudo que vem de fora, infelizmente nossa juventude prefere incorporar, em corpo e alma, os super-heróis norte-americanos (falha da nossa educação) até em cadernos escolares e esquece dos nossos personagens folclóricos. Em meio a essa perda de identidade, poucos comemoram o dia 22 de agosto, dedicado ao nosso rico folclore brasileiro. Outros nem sabem o que seja folclore.

Primeiro vamos conhecer um pouco sobre o mestre nesse assunto, Câmara Cascudo, que veio lá do Rio Grande do Norte. O professor Osmar Barbosa nos apresenta que ele iniciou sua carreira literária como jornalista do periódico “A Imprensa”, de Natal, de propriedade do próprio pai. Iniciou seus estudos de medicina na Bahia, mas por questões financeiras, se bacharelou em Direito pela Faculdade de Recife.

Câmara nasceu em 30 de dezembro de 1898 e faleceu em 30 de junho de 1986 (coincidência do 30). Era filho do coronel Francisco Justino de Oliveira Cascudo e Ana Maria da Câmara Cascudo. Na juventude, viveu na chácara Villa Cascudo, no bairro Tirol. Em sua casa acompanhava desde criança as reuniões literárias que ocorriam entre a família e amigos. Com 19 anos ingressou no jornal do seu pai, e sua primeira crônica foi “Tempo e Eu”.

Em 1920 escreveu a introdução e as notas na antológica poética de Lourival Açucena, intitulada “Versos Reunidos”. Em 1941 fundou a Sociedade Brasileira de Folclore. Foi professor de Direito Internacional entre os anos 50 e 60. Em sua viagem pelo exterior, esteve em Angola, Guiné, Congo, São Tomé, Cabo Verde e Guiné-Bissau. Com resultado, escreveu “A Cozinha Africana no Brasil” (1964) e “História da Alimentação no Brasil”, entre 1967 e 1968.

Aos 21 anos, Câmara lançou seu primeiro livro “Alma Patrícia” sobre autores do Rio Grande do Norte onde foi professor de Direito Internacional. Em sua vida, publicou mais de 50 volumes.  Sempre manteve suas raízes fincadas em sua terra natal, cercado de pessoas humildes e velhos amigos, quando poderia ter gozado de grandes prestígios em outros centros culturais do país.

Diz o professor Osmar, que Câmara fez-se notável folclorista dedicando todo seu tempo a buscar conhecimento no assunto. Foi o primeiro a compor um Dicionário do Folclore Brasileiro. Entre seus trabalhos merecem destaque Vaqueiros e Cantadores, Lendas Brasileiras, Contos Tradicionais do Brasil, Geografia dos Mitos Brasileiros, Trinta Estórias Brasileiras, Vida e Conto de Cangaceiros e Tradição e Ciência do Povo.

“Lendas Brasileiras” contém 21 histórias, tais como A Lenda de Iara, Cobra Nonato, Lenda da Sapucaia-Roca e Barba-Ruiva relacionadas à região Norte. Com referência ao Nordeste, destacam-se A Cidade Encantada de Jericoacoara, Carro Caído, Senhor do Corpo Santo, As Mangas de Jasmim de Itamaracá e A Morte de Zumbi. Para o oeste, O Frade e a Freira, A Serpente Emplumada da Lapa e O Sonho de Paraguaçu. Para a região Sul, O Negrinho do Pastoreio, A Lenda da Gralha Azul, Fonte dos Amores, A Virgem Aparecida e a Lenda de Itararé. Para o Centro, Tatus Brancos, A Missa dos Mortos, Chico Rei e Romãozinho. São lendas oriundas do folclore e da poesia dos estados brasileiros.

De acordo com o professor Osmar, não se faz literatura sem tradição popular. “O próprio classicismo termina se inspirando nas fontes mitológicas da velha Grécia. O folclore é um ramo da ciência antropológica que estuda as manifestações coletivas da cultura popular, abrangendo estudos e classificação de países civilizados através de contos, lendas, fábulas, canções, crendices, superstições, usos, costumes e adivinhações”, entre outras.

“Ainda hoje em todo mundo os estudiosos do tema examinam objetos, utensílios, tipos de habitação e trajes típicos regionalistas. Em todos países existem lendas, apólogos, costumes e superstições, unindo a tradição popular que faz parte da alma de um povo”. Para o professor, “os contos populares do Brasil têm o sabor de uma fruta do mato, o cheiro agreste da flor mais viçosa, a fantasia colorida com as tintas da nossa selva e o encanto de um primitivismo tropical”.

O escritor João Ribeiro dizia que “o folclore é uma pesquisa de psicologia dos povos, das suas ideias e seus sentimentos comuns, do seu inconsciente, constituindo a fonte viva donde saem os gênios…”. No folclore, a literatura encontra o veio certo para produzir obras imortais da arte que dão glória a um povo.

“Vaqueiros e Cantadores” – folclore poético do sertão de Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará, de Luis da Câmara Cascudo, fala dos temas O Desafio, A Donzela Teodoro, Boi Surubim, O Padre Cícero, Pedro Malasarte, As Lendas de Pedro Cem, a Criação do Mundo, A Princesa Magalona e Sertão d´Inverno.

“Tanto pego boi no fechado como canto desafio”. Câmara afirma que neste livro ele reúne quinze anos de sua vida. Notas, leituras, observações, tudo compendiei pensando um dia neste “Vaqueiros e Cantadores”. Diz o autor que o material foi colhido diariamente na memória de uma infância sertaneja, despreocupada e livre.

“Vivi no sertão típico agora desaparecido. A luz elétrica não aparecera. O gramofone era um deslumbramento. O velho João de Holanda, de Caiana, perto de Augusto Severo, ajoelhou-se no meio da estrada e confessou, aos berros, todos os pecados, quando avistou, ao sol-se-pôr, o primeiro automóvel”.

 





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