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:: 24/ago/2021 . 23:26

“INVOCAÇÃO À MARIAMA”

BASTA!

Poucos no Brasil de hoje se lembram de D. Hélder Câmara – arcebispo de Olinda e Recife, uma trincheira de resistente contra a ditadura e o arbítrio do regime de quase 30 anos. Muitos menos conhecem o seu discurso ou pregação, gravado ao vivo por Milton Nascimento na Igreja de Nossa Senhora Mãe dos Homens – Caraça – Minas Gerais, em 1982.

Depois de 40 anos, a sua fala continua mais que atual, como de tantos outros intelectuais e artistas, a exemplo do cantor e compositor Raul Seixas, que no último dia 21/08 completou 32 anos de sua morte. Raul foi outra voz que nos ensinou a não desistir. Nos ensinou a levantar e a sonhar juntos outra vez.

De lá para cá, com algum intervalo de avanço, o Brasil só fez regredir e, nos três últimos anos, entrou nas trevas do retrocesso. Ninguém tem mais interesse em alugar o Brasil. O Ali Babá de hoje são mais de 40 milhões de ladrões.  D. Helder, como D. Paulo Evaristo Arns, eram timoneiros da Igreja Católica que hoje está silenciosa diante de tantas barbaridades de um capitão-presidente que adotou a política da morte e da destruição. Cadê nossa CNBB? Só para rememorar as mentes esquecidas e desmemoriadas, vou colocar aqui alguns trechos de “Invocação à Mariama”.

Após uma introdução em louvor a Mariama, Nossa Senhora, mãe de Cristo e mãe dos homens, ele diz que o mais importante “é que a Igreja de teu Filho não fique em palavras, não fique em aplauso. O importante é que a CNBB, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil embarque de cheio na causa dos negros, como entrou de cheio na Pastoral da Terra e na Pastoral dos Índios” (tudo isso se esfarelou). Os índios estão sendo mortos e expulsos de suas terras.

O arcebispo prossegue dizendo que “não basta pedir perdão pelos erros de ontem. É preciso acertar o passo hoje sem ligar ao que disserem. Claro que dirão, Mariama, que é política, subversão, que é comunismo. É evangelho de Cristo, Mariama”.

Em tom mais forte, ele diz que “problema de negro acaba se ligando com todos os grandes problemas humanos. Com todos os absurdos contra a humanidade, com todas as injustiças e opressões”. Em seguida, faz um apelo à Mariama para que se acabe mesmo a maldita fabricação de armas. O mundo precisa é fabricar paz”. A violência banalizada transforma as minorias em refugiadas em seu próprio país, sem direitos e liberdades.

Sua voz vai se elevando para não ser abafada diante dos aplausos, e D. Hélder desabafa: “Basta de injustiça, de uns sem saber o que fazer com tanta terra e milhões sem um palmo de terra onde morar. Basta de uns tendo de vomitar para poder comer mais e 50 milhões morrendo de fome num ano só” (mais que atual em nossos tempos).

O seu clamor continua ecoando a todos os cantos do Brasil, de que “basta de uns com empresas se derramando pelo mundo todo e milhões sem um canto onde ganhar o pão de cada dia (temos mais de 15 milhões de desempregados).

O pregador, como Martin Luther King, sonha quando afirma: “Mariama, Nossa Senhora, nem precisa ir tão longe como no teu hino. Nem precisa que os ricos saiam de mãos vazias e os pobres de mãos cheias. Nem pobre, nem rico. Nada de escravo de hoje ser senhor de escravos amanhã. Basta de escravos. Um mundo sem senhor e sem escravos. Um mundo de irmãos. De irmãos não só de nome e de mentira. De irmãos de verdade, Mariama”.

Se vivo fosse, o que ele diria hoje? Diria que basta de tanto ódio e intolerância, de fanatismo na religião, de é nós contra eles, de tanto negacionismo da ciência diante de um vírus mortal que já ceifou a vida de quase 600 mil brasileiros. Basta de atentar contra a democracia. Não queremos a volta do passado de prisões, de torturas e de mortes. Nada de ditadura, nada de se repetir os mesmos erros.

Sua revolta seria mais enfática contra o destruidor do nosso futuro, e levantaria seu chicote para os que segregam e dividem negros de brancos com suas atitudes racistas, homofóbicas e misóginas. Nada de fascismo, de ideias retrógradas. A terra não é plana. O Brasil precisa é de evolução e justiça social para todos.

Basta de destruir a nossa cultura, de atear fogo no Pantanal, na Amazônia e nos nossos outros biomas tão depredados pelos homens. Basta de invadir terras indígenas para transformá-las em garimpos do mercúrio e envenenar nossos rios. Basta de tantos agrotóxicos na natureza.

Basta de fogo no Museu da Língua Portuguesa, no Museu Nacional e na Cinemateca. Basta de destruir nossa memória e nossos acervos culturais. Basta de colocar armas nas mãos dos cidadãos. Precisamos é de mais livros e ideias para que não seja mais necessário construir penitenciárias.

O Brasil carece é de mentes fartas de educação, de saber e conhecimento. Basta de tanta arbitrariedade, de tanto pensamento doentio psicopata de fechar nossas instituições, como a Suprema Corte, Congresso Nacional e as universidades. Sem as ciências humanas, o homem vira um robô da tecnologia. Ele não vai passar de um simples parafuso nessa engrenagem selvagem capitalista.

Basta de milhões passando fome, vivendo em favelas e casebres desumanas. Basta de tantos pedintes nas ruas com as mãos estendidas por uma esmola, com o estômago vazio. Basta de tanta ignorância, de tanto atentado contra a vida onde milhões acham que se vacinar é um direito individual. Basta de tanto egoísmo e individualidade. O Brasil necessita é do pensar coletivo.

Basta, senhor capitão, de falar tantas asneiras, de xingar com palavrões jornalistas, o próprio povo e todos seus adversários. Basta de vomitar suas sujeiras em nossas caras com sua necropolítica do arbítrio. Basta de tanto abusar da nossa paciência! Basta de não governar!

 





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