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E AS TRAGÉDIAS CONTINUAM CEIFANDO VIDAS NO EMBALO DA IMPUNIDADE
Imagine mais de 300 vítimas agonizando num vale de lamas de minérios! Imagine jovens adolescentes sufocados pelo fogo e por uma nuvem de fumaça tóxica, numa luta de segundos, tentando salvar suas vidas! Instantaneamente, as notícias de terror cobrem todo país deixando milhões em estado de choque. Em total desespero, os familiares choram seus mortos. Muitos desmaiam e um vazio se abate na alma que se dilacera em dor das mais profundas.
Em tempo simultâneo, imagine a mídia lhe entupindo de informações e explicações as mais diversas durante semanas! Depois vem o silêncio e outra tragédia anunciada lhe acorda repetindo a mesma agonia e sofrimento. Agora imagine o mais decepcionante, frustrante e revoltante de tudo isso! Imagine que os evidentes responsáveis de todas elas (as tragédias) nunca foram verdadeiramente punidos! Só multas que quase sempre não são pagas.
Se este país fosse sério, o presidente do Flamengo, Rodolfo Londim e sua diretoria já estariam na cadeia, a começar pelo seu desprezo ao se retirar dos “depoimentos” fajutos quando os jornalistas se propõem argui-lo com perguntas sobre as irregularidades no barracão do clube. O prefeito e seus fiscais deveriam também ser severamente punidos porque não interditaram o centro de treinamento e o “alojamento” improvisado de uma porta. Para tapiar, resolveram fazer vistorias no CT e a safadeza de proibir o acesso da imprensa. É um descaso total! São essas as nossas “autoridades” pagas pelo povo para prevenir tragédias e desmandos?
A lei é só usada para interditar bares, restaurantes pequenos, lojinhas, barracas e escorraçar ambulantes nas ruas. Não é para os grandes, quanto mais para um time que tem a maior torcida do Brasil. Como amar uma pátria tão desigual que maltrata e assassina em massa seus filhos? Como ter orgulho de uma nação onde as tragédias ceifam vidas e terminam em arquivos mortos, sem a prisão dos culpados?
Pouco antes de ser vítima de um desastre no ar, o jornalista Ricardo Boechat comentava que esta rede de tragédias tem seu respaldo na impunidade. Não falou nada de inédito que ninguém não já tenha consciência disso, mas sua voz tem peso. Só não foi ouvida pelos torcedores e as famílias dos jovens que não protestaram como fazem no futebol quando os resultados são negativos. Quando isso ocorre, brigam e até se matam nos estádios e nas ruas.
Estão agora preocupados com o Fla x Flu de quinta-feira. Ai, todos se posicionam em silêncio hipócrita e falso para homenagear os mortos e fazer suas condolências. Sobre o acontecimento que poderia ter sido evitado, ouvi nesta semana um torcedor simplesmente dizer que essas coisas ocorrem. É por isso que as tragédias não param.
O mesmo pode ser aplicado com relação ao rompimento da Barragem do Feijão, em Brumadinho. Você passa o tempo escutando o barulho de uma lama de explicações e nada de punição. Nos primeiros dias, fazem vistorias, fiscalizações e prometem rigor no acompanhamento. Muitos já se esqueceram da Boate Kiss e nem se fala mais em inspeções e fechamento de boates por estarem funcionando de forma irregular.
UM PÔR DO SOL COM O CRISTO
Fotos e texto de Jeremias Macário
Mais um domingo no alto da Serra do Piripiri numa união com o Cristo, do artista Mário Cravo, e o pôr do sol deslumbrante se despedindo no horizonte do sertão. É uma imagem que tem atraído milhares de conquistenses num momento de relaxamento em preparo para as batalhas da segunda-feira, depois de um final de semana de diversas atividades.
É um bálsamo para a alma este encontro do povo com o Cristo. Foi uma junção de lazer com a cultura, com a apresentação de shows musicais, como o do cantor e compositor Evandro Correia que teve a prestigiosa ajuda do artista Mano Di Souza. Foi um espetáculo e o Cristo a todos abençoou.
A programação da Polícia Militar (parabéns coronel Ivanildo), em parceria com a Prefeitura Municipal, foi um sucesso, como no último domingo com mais de cinco mil pessoas que subiram à serra para ficar ao lado do Cristo e juntos contemplarem a cidade e suas luzes, mais parecendo uma parabólica estrelada. Ele agradece a companhia, pois sempre se sentiu isolado. Pena que essa iniciativa está com seus dias marcados para até 24 de fevereiro quando deveria ser permanente.
Fora os transtornos da subida e a falta de espaço para estacionamento de todos, coisa que podem ser contornadas, o projeto deu certo e deve ser repetido, com mais infraestrutura, inclusive abrindo condições, através da circulação de ônibus, para que todos possam participar desse aprazível lazer, não somente para quem tem condução própria.
Sempre tenho dito que a Serra é um potencial que pode ser explorado à visitação, incluindo trilhas nos pontos mais estratégicos, como o Cetras e o Poço Escuro no roteiro. Vitória da Conquista é uma cidade sem opção de lazer e cultura nos finais de semana, mas existem locais que podem ser bem urbanizados e humanizados para que as pessoas possam frequentá-los.
MAIS UMA E LOGO VEM OUTRA. QUAL SERÁ A PRÓXIMA?
As tragédias no Brasil começam com condolências, consternações e sentimentos dos irresponsáveis e sempre terminam sem a punição dos culpados. Aliás, no caso de Brumadinho, em Minas Gerais, o culpado foi a barragem que não se conteve e resolveu se arrebentar, sem mais, nem menos. No caso do Ninho do Urubu do Flamengo, no Rio de Janeiro, foi o danado do ar condicionado que não aguentou a pressão da carga e provocou um curto-circuito.
Estão ai as respostas, e nem são mais necessários os rosários intermináveis de explicações técnicas de engenheiros, fiscais, ambientalistas e outros phds entendidos no assunto, com as defesas, do outro lado, nas versões dos armengueiros que burlam as leis porque no país das impunidades, as instituições são falhas no dever das rígidas fiscalizações. Na base do jeitinho brasileiro onde multas são para não serem pagas, o capital fala mais alto que o humano.
Nem bem terminaram as extensas e espetaculosas coberturas jornalísticas da mídia, recheadas de imagens e entrevistas repetidas por várias vezes, com choros e lágrimas no vale de lamas que soterraram centenas de pessoas, ai vem outra tragédia do Flamengo para roubar a cena, que dizimou uma dezena de jovens adolescentes que sonhavam pela fama de brilhar nos campos de futebol.
O presidente do clube aparece com a cara de consternado e nada fala sobre a irregularidade cometida de abrigar os meninos num barracão provisório de containers, totalmente irregular, que não tinha nem alvará da Prefeitura Municipal, a qual disse ter aplicado 30 multas contra o Flamengo. Nesta hora, o torcedor não aparece para criticar, protestar e se revoltar como faz quando o time tem resultados negativos.
Todos se calam e engolem o choro, inclusive pais e parentes porque acham que foi apenas uma fatalidade. Neste fato específico da tragédia, não me refiro apenas ao Flamengo, mas também aos outros grandes times do Brasil que acumulam um monte de irregularidades, não somente em suas instalações físicas dos seus centros, mas também no âmbito financeiro, deixando de pagar INSS, IPTU, FGTS e outras obrigações de taxas e impostos por lei.
Agora mesmo, acabamos de saber que o Vasco e o Fluminense não possuem alvarás dos seus centros de treinamento. Pode investigar que a grande maioria dos clubes não funciona corretamente como devia. As instituições que fazem vistas grosas são também culpadas, mas desta vez foi o ar condicionado o vilão. Na próxima tragédia anunciada pode ser outro objeto, outro aparelho ou a própria natureza.
O nosso futebol é uma bagunça e uma vergonha no campo e através das cartolagens corruptas de viciados em desrespeitar e descumprir as leis. Os clubes comportam-se como se não fossem empresas jurídicas, como qualquer uma que tem obrigações e seguir normas de responsabilidade, A CBF e as federações são complôs suspeitos de grupos vitalícios que vivem a fazer seus conchavos para se perpetuarem no poder.
Não vou mais aqui repetir a enfadonha lista de tragédias do nosso país, nas quais o homem é o predador inconsequente e irresponsável, mesmo quando o fenômeno parte da natureza, como a tormenta nesta semana no Rio de Janeiro. No caso da Barragem do Feijão, em Brumadinho, existe uma insensatez secular.
A princípio, como entender a construção de instalações administrativas, inclusive um refeitório, abaixo de uma barragem de minério? Além de barramentos feitos com métodos antigos e inseguros, com custos mais baixos, deixam povoados próximos, na mesma direção. Se houvesse seriedade neste país, não deveria haver habitações abaixo e, se já existissem, a empresa deveria ser obrigada a desapropriá-las antes de montar a barragem.
CHAPADA DIAMANTINA: A CIDADE HISTÓRICA E A FESTA DOS GARIMPEIROS
- Constituição Federal, Direitos Humanos, Ambiental e
o Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural Nacional
Alexandre Aguiar
Advogado
Sobre cultura, a trintenária Constituição Federal diz:
Art. 215. O Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional, e apoiará e incentivará a valorização e a difusão das manifestações culturais.
- 1º O Estado protegerá as manifestações das culturas populares, indígenas e afro-brasileiras, e das de outros grupos participantes do processo civilizatório nacional.
[…]
Sobre a vida dos Garimpeiros, na obra “Garimpo, devoção e festa em Lençóis, BA”, Maria Salete Petroni de Castro Gonçalves desempenhou o registro do acontecimento secular, que compõe o legado histórico, cujo recorte temporal compreendeu o conteúdo laboral, devocional e festivo local no período de 1844 a 1984.
Entre o surgimento de Lençóis até a interrupção dos garimpos, que efetivamente se deu em 1996, a economia, religião e cultura do lugar passaram por uma mudança de época, que sem a devida atenção da sociedade e do Estado, representa ameaça ao acervo material e fontes imateriais do patrimônio artístico, histórico e cultural nacional.
O emérito Professor Ronaldo de Salles Senna costuma dizer que “Lençóis deve tudo aos garimpos, porém os garimpos não devem nada a Lençóis”.
O fim do extrativismo mineral de diamantes levou Lençóis à condição de cidade turística, tendo a polis alcançado o perfil dos destinos indutores do turismo nacional, alavancando de forma pioneira a indústria turística na microrregião, do que é chamado de “Circuito dos Diamantes” e, que vem se expandindo pelas demais cidades da Chapada, gerando postos de trabalho e receita aos descendentes dos garimpeiros artesanais.
Na Chapada, como resultado do acervo patrimonial das lavras diamantinas, restaram Tombados pelo IPHAN, os conjuntos arquitetônicos das cidades de Lençóis (1973), Mucugê (1980) e a Vila de Xique-Xique de Igatu (2000), no Município de Andaraí. Desta maneira, nos dias atuais, todas as cidades lavristas contam com permanente visitação turística nacional e estrangeira, incluindo-se aí a cidade de Palmeiras, município que igualmente possui fluxo de visitação, no Distrito de Caeté-Açu (Vale do Capão).
A cidade de Rio de Contas também detém acervo arquitetônico, que despertou interesse do Instituto do Patrimônio e restou Tombado (1980), entretanto, situada ao sul do Parque Nacional da Chapada, no passado sua economia destinou-se a extração de ouro, o que lhe diferencia e destaca como “Circuito do Ouro”, inclusive, por distâncias e posição geográfica.
BAGUNÇAS NOS ENDEREÇOS, BAIRROS E LOTEAMENTOS GERAM CONFUSÃO
PRECISAMOS URGENTE DA REVISÃO DO PLANO DIRETOR
macariojeremias@yahoo.com.br
Só para se ter uma ideia, na rua onde eu moro existem quatro CEPs diferentes e muitos chamam de Jardim Guanabara (não se sabe se é bairro ou loteamento), outros dizem ser Filipinas e até aparece Jatobá. A rua é nominada de “G”, mas também aparece Veríssimo Ferraz de Melo em algumas correspondências. O próprio Google e outros sites estão com suas informações desatualizadas e desencontradas.
É uma tremenda confusão quando se vai fazer um cadastro ou um contrato num órgão ou empresa e se pede o CEP e o comprovante de endereço. Não se sabe qual documento está com as indicações corretas. Problema maior ainda é com as numerações que se misturam entre pares e ímpares. Procurar uma casa é uma dor de cabeça, e tem gente que desiste. Nem o morador consegue informar quando algum desconhecido tenta procurar uma pessoa pelo “endereço”.
Esta situação não é somente onde eu resido, mas ocorre em quase toda a cidade, principalmente nos últimos vinte anos para cá com a expansão de construções nos espaços ocupados nas zonas leste, norte e sul. Não existem demarcações e ordenamentos corretos do que é bairro e loteamento e cada um vai colocando nomes e numerações das suas ruas. Existem centenas de nomes de logradouros em Conquista que não constam nos anais da Câmara e da Prefeitura. Constatei isso há muitos anos quando fiz uma pesquisa para o meu livro “Uma Conquista Cassada”.
Para os Correios é um trabalho hercúleo encontrar um endereço para a entrega de um documento ou encomenda. Nesta semana, por exemplo, um pedido meu por pouco não foi devolvido porque a empresa remetente colocou Filipinas. Estive lá na sede no final da tarde para pegar o objeto e muitas pessoas estavam passando pelo mesmo problema. Tivemos que esperar por mais de uma hora para o carteiro chegar da rua. A resposta era a mesma de endereçamento incorreto.
ORDENAMENTO E REVISÃO DO PLANO DIRETOR
Vitória da Conquista cresceu nos últimos 25 anos além do previsto, de forma desordenada, sem o acompanhamento da infraestrutura no mesmo ritmo, dai as crescentes irregularidades além das existentes quando a cidade era de porte pequeno a médio. Sem um ordenamento criterioso do solo, a grande maioria das construções das casas, mais de 80%, está em estado irregular. Diante da burocracia e do alto custo, as residências não passam de terrenos e uns vão vendendo para os outros na mesma situação e o IPTU é cobrado como se fosse casa com instalação de água e luz.
Depois de muitos anos, somente agora a Câmara de Vereadores está anunciando a discussão de uma revisão do Plano Diretor, já caduco para o tamanho da cidade, a terceira maior do estado, considerada de capital do sudoeste da Bahia. O trabalho não é fácil e exige muito esforço por parte do legislativo e de toda sociedade. Se o projeto for aprovado por esta gestão parlamentar, com certeza será de grande feito histórico em benefício de Conquista.
Os 21 edis, que no início do império romano, lá pelos séculos VI e V a. C., eles já tinham a função de supervisionar as ruas e edifícios da cidade, precisam se concentrar nesta legislatura de mais dois anos na feitura de um novo Plano Diretor, para dar uma cara nova ao ordenamento do solo, com leis mais rígidas no âmbito da construção, preservando o meio ambiente. Conquista tem tudo para ser uma cidade ecológica, mais planejada, mais urbanizada e mais humana.
Da forma como está, virou uma bagunça porque hoje existem estabelecimentos comerciais e de serviços em locais inadequados, como casas de eventos, de festas e boates em áreas residenciais, faculdades, prédios e até hospitais em ruas já congestionadas onde não há mais espaços para carros. Há necessidade também de proceder à facilitação de titularidades às habitações irregulares que são milhares, e impedir a edificação de outras em locais impróprios.
Há pouco tempo fiz um comentário aqui sobre a falta de opção de lazer em Conquista nos finais de semana, sendo que existe um grande potencial a ser explorado, como a Serra do Periperi, Lagoa das Bateias (entregue aos esgotos), o Poço Escuro e o Parque de Exposição Agropecuária, subutilizado durante todo o ano.
Coincidência ou não, o fato positivo foi que a Polícia Militar, numa parceria com a Prefeitura Municipal, criou e inaugurou no último domingo o Por do Sol no Alto do Cristo de Mário Cravo onde milhares de pessoas compareceram para apreciar as belezas do local. Com segurança, é um passeio relaxante para as famílias, jovens, crianças e idosos.
Além disso, sugeri implantar na Serra diversas trilhas passando pelo Cetras (centro de tratamento de animais silvestres), pelo Cristo, seguindo até o Poço Escuro. Em parceria com o setor privado, na base de uma PPP, falei da possibilidade de instalar um teleférico do Cristo ao centro da cidade, bem como requalificar a Lagoa das Bateias e tornar o Parque de Exposições uma área de lazer e diversão nos finais de semana.
NO PAÍS DAS TRAGÉDIAS ANUNCIADAS, O HUMANO E A NATUREZA NADA VALEM
É sempre assim, a mídia faz seu espetáculo no foco das desgraças dos desesperados que choram pelas suas vítimas, os governos e os famosos emitem suas condolências e pareceres críticos, os camisas amarelas coxinhas e os mortadelas vermelhos trocam farpas, arrotando cada um seu besteirol, os técnicos dão vastas explicações, muitos rezam e uns poucos se revoltam indignados com o descaso. No embalo, fiscais intensificam as vistorias e depois relaxam o trabalho.
Em pouco tempo, os mortos são esquecidos, os parentes que ficam penam desamparados nos seus vales de lágrimas das burocracias, a Justiça se arrasta como lesma, a natureza falece e os culpados não são punidos porque vivemos numa terra de ninguém, aliás, só dos fortes, onde nada é levado a sério. Os iludidos acham que as coisas vão mudar, e ai outras catástrofes batem em nossas portas e levam mais um monte de gente. Tudo se repete com o mesmo blábláblá de sempre e assim vivemos de tragédias acompanhadas das impunidades. Os responsáveis têm o poder de se tornarem invisíveis perante a “lei”, também opaca.
Claro que, no momento, estou me referindo a Brumadinho, mas esquecemos das tragédias que o povo brasileiro convive no seu dia a dia, como as dos corredores das mortes nos hospitais, as tragédias das filas da saúde e do INSS de idosos doentes, as da educação deficitária, as tragédias das injustiças praticadas contra os pobres, as da usurpação dos direitos civis, especialmente contra as minorias, as tragédias das matanças contra mulheres, as da violência bruta e cruel dos bandidos, as tragédias do trânsito que matam mais de 60 mil por ano, as dos homicídios (o mesmo número), as tragédias da profunda desigualdade social, as da fome, das crianças desnutridas, dos casebres em favelas subumanas, as tragédias da extrema pobreza e de tantas outras.
AS TRAGÉDIAS SEM REPARAÇÃO
A folha corrida das tragédias no Brasil daria para ir do Oiapoque ao Chuí, e em nenhuma delas houve uma reparação justa das perdas. Tudo começa com o jeitinho safado brasileiro de fazer armengues, de superfaturar obras que viram fonte de propinas e corrupção, de se fazer vistas grosas para o mal feito e mais barato, sem contar a incompetência de indicados políticos que nada entendem do cargo que exercem. Claro que entram também o por fora e as relações promíscuas com o poder econômico e político.
Há séculos aqui chegaram as multinacionais neste paraíso perdido onde tudo é permitido, para explorar com facilidades fiscais e outras benesses, as nossas riquezas naturais, deixando um rombo passivo de desastres ao meio ambiente, sem falar de vidas humanas, com o papo de trazer o progresso e mais empregos. Sempre se portaram como deuses da salvação, dando aos pobres algumas migalhas sociais como espécie de cala boca.
O POVO DE BOQUIRA ENCURRALADO PELA MINA
Com base num fato real de uma matéria jornalística realizada no auge pesado da ditadura civil-militar de 1974 pelo jornal “Estado de São Paulo”, proibida de ser divulgada, o assunto virou livro “Boquira”, numa reportagem romanceada a partir da pena ligeira e denunciativa do amigo-companheiro jornalista Carlos Navarro Filho, que na época chefiava a Sucursal do periódico, em Salvador.
O relato é a fiel voz de desabafo de um povo do interior do sertão baiano que sofreu todo tipo de opressão de uma companhia multinacional de mineração e que dava toda cobertura ao regime militar em troca de benesses dos governos dos generais Médici e Geisel. A empresa tinha suas influências políticas até em Vitória da Conquista onde Renato Rebouças possuía participações em muitas decisões.
Naquele período já era repórter de economia do jornal “A Tarde” e conheci o dinâmico, competente e irrequieto colega Navarro em algumas andanças de coberturas, inclusive feitas em outros estados. Em meu livro “Uma Conquista Cassada” faço algumas referências ao caso “Boquira” e sua prestação de serviços à ditadura na captura do capitão Carlos Lamarca.
A obra começa com um comentário fidedigno do repórter Biaggio Talento sobre o ambiente redacional barulhento, insalubre e “fumacê” dos jornais daquele tempo, e as dificuldades para se passar um texto do interior. Sou como meu amigo Carlos Gonzalez da mesma geração das máquinas de escrever, do teletipo e do aparelho de telefoto que enviava as imagens reveladas num laboratório para filmes.
Para matar as saudades, concordo com Paolo Marconi, no prefácio, quando disse que “fomos felizes e não sabíamos”. Lembra ele do respeitado Jornal do Brasil e os tradicionais Estado de São Paulo, Folha de São Paulo e o Globo, bem como do famigerado Ato Institucional no 5. As críticas não podiam ser nem construtivas, mas elogiosas, como retrucou o marechal Arthur da Costa e Silva para os editores do JB.
Para Marconi, o livro é produto de uma desforra de quem viu seu jornal não publicar uma grande reportagem sobre Boquira/Cobrac – Companhia Brasileira de Chumbo, subsidiária da francesa Penãrroya Oxide S.A. Foi, na verdade, uma censura interna. “O livro é de denúncia e ainda atual por mais estranho que possa parecer”. Depois de paralisar a extração em 1992 em Boquira e fechar a fábrica de lingotes de chumbo em Santo Amaro, a Cobrac deixou um dos maiores passivos ambientais da história da mineração do país. A Samarco, em Minas Gerais, talvez tenha superado em termos de danos.
Em redor da mina e margeando o município de Boquira, Marconi calcula que existam mais de seis milhões de toneladas de resíduos, sem qualquer contenção. Em Santo Amaro estão hoje 490 mil toneladas de material contaminado, com metais pesados. Os órgãos de controle ambiental tentam, desde 1993, condenar a Penãrroya. A primeira sentença condenatória foi proferida em 2014. Mesmo assim, em janeiro de 2016 houve recurso da ré.
O PADRE AVARENTO
Na narração de Navarro, em sua história “Boquira”, que tanto mal fez ao povo do povoado de poucas casas, tudo começou no ano de 1954 com o padre Nazário, um descontente com sua situação de pobreza, saindo de Oliveira dos Brejinhos com destino à fazenda Pajeú, em Boquira, para dar a extrema-unção à idosa Neusina de Filó.
Ele descreve o cenário de calor infernal do sertão. Padre Nazário é um avarento e passa pelo Morro do Pelado onde se esbara com, seu guia Codó, com pepitas gigantes. Imagina que as pedras são ouro puro e não esquece do que viu na terra de pessoas ingênuas e ignorantes.
Na volta, ele recolheu amostras das pedras brilhantes que só serviam para fazer cercas de mureta para não deixar animal escapar. Aquela extrema-unção um dia veio a mudar a vida de toda aquela gente de Boquira. Dali em diante o estado de espírito do padre se renovara e atendia a todos com satisfação em Macaúbas e vizinhança. Aguardava ansioso a chegada do seu amigo farmacêutico Agenor, para levar as pedras para exame em Salvador.
Tudo calculado em sua mente traiçoeira. Três semanas depois o amigo retornou e o resultado dava alto teor de chumbo, mas as pedras careciam de exames mais precisos a serem feitos em São Paulo. O padre malandro continuava a celebrar suas missas em Macaúbas, mas sonhava ficar rico. Passou a namorar a filha do Agenor que dava uma de médico charlatão.
OS GRANDES IMPERADORES, DEPRAVAÇÃO E A DECADÊNCIA DO IMPÉRIO ROMANO
Reza a lenda que quando os gregos Menelau, Ulisses e Aquiles conquistaram Tróia, na Ásia Menor, um dos poucos defensores a se salvar foi Enéias, cuja mãe era a deusa Venus-Afrodite. Ele andou perambulando com sua mala ao lombo até alcançar o Lácio, no norte da Itália. Casou-se com Lavínia, filha do rei Latino, onde fundou uma cidade com o mesmo nome da mulher.
Seu filho Ascânio fundou Alba Longa, a nova capital. Depois de 200 anos, Numitor e Amúlio, descendentes de Enéias, ainda ocupavam o trono do Lácio. Um dia Amúlio expulsou seu irmão e matou todos seus filhos, menos Réia Sílvia, mas obrigou-a a se tornar sacerdotisa da deusa Vesta para não ter filho.
Num dia bem quente resolveu tomar um ar fresco e adormeceu. Numa das suas descidas à terra, Marte a viu, apaixonou-se por ela e a engravidou. Amúlio ficou muito zangado, mas esperou que ela desse à luz e nasceram dois meninos gêmeos. Depois fez Sílvia colocá-los num barco e deixou-os à deriva na correnteza do mar. A embarcação encalhou nas areais e uma loba os acolheu dando do seu leite.
Esse animal tornou-se depois símbolo de Roma, mas muitos dizem que se tratava de uma mulher com o nome de Acca Larentia, chamada Loba pelo seu caráter selvático e infiel ao seu marido pastor. Os dois receberam os nomes de Rômulo e Remo. Depois de crescidos, voltaram a Alba Longa, mataram Amúlio e recolocaram Numitor no trono.
Depois de tudo resolveram construir um novo reino em meio às colinas onde corre o Tibre. Ali começaram a discutir sobre o nome a ser dado à cidade. No impasse, decidiram que venceria quem visse mais pássaros. Remo viu seis sobre o Aventino e Rômulo 12 sobre o Palatino. Foi colocado o nome de Roma e, em torno dela, edificaram muralhas. Remo achou frágeis e com um chute colocou um pedaço abaixo. Em represália à sua conduta, Rômulo abateu o irmão com um golpe de enxada.
NA REPÚBLICA DOS GENERAIS
A impressão que ficou evidente na entrevista do vice-presidente general é que somente os militares têm competência e são os honestos e incorruptíveis, e que todos os civis do Brasil não merecem mais confiança em cargos de governança do país, depois das falcatruas generalizadas nos últimos governos, especialmente do PT. Todos são sujos e não sabem como administrar a coisa pública, sem desperdícios.
O mais contraditório nisso é que os “baluartes” contra a corrupção querem o senador Collor de Melo na presidência do Senado, logo ele alvo de um monte de denúncias na força tarefa da Lava Jato. O ex-deputado queridinho do capitão ligado aos produtores rurais (bancada rural) foi nomeado para ser defensor das nossas florestas, e prometeu não haver indicação política. É o mesmo que colocar raposa no galinheiro. Antes o pai do presidente e seu filho disseram dispensar o foro privilegiado, mas agora defendem e até o sigilo. Logo mais pedem a censura.
TANTOS MILITARES NO PODER
Estamos apenas começando, mas já deu para se perceber que nem no período da ditadura civil-militar – para o presidente-capitão não existiu nada disso – houve tantos militares no poder da República, do primeiro ao segundo escalão e até no terceiro. Que seja bem-vinda a moralização, mas que a imprensa seja livre para denunciar os possíveis desvios de conduta, porque no regime de exceção era impedida pela censura.
Como muitos camisas amarelas da seleção pediram nas ruas, e diante do grande contingente de fardados das forças armadas nos ministérios e secretarias, estamos sendo agora submetidos a uma intervenção militar branca, pelo menos por enquanto. A mídia “amarelou” e apenas se limita a noticiar os fatos do dia, sem se aprofundar na questão.
OS QUE SE FORAM PERMANECEM VIVOS EM NOSSA MEMÓRIA CULTURAL
Nos últimos anos, principalmente do ano passado para cá, muitos incentivadores, pensadores e defensores da nossa cultura se foram, deixando uma lacuna em Vitória da Conquista, mas essas pessoas vão permanecer vivas em nossas mentes, com mais forças para continuarmos firmes nesta jornada que, infelizmente, conta com poucos apoiadores.
Com seus passos de sabedoria e desapego, essa gente deixou suas marcas registradas num trabalho incansável de promoção da cultura, por amor, sem interesses pecuniários. Mesmo sem o devido reconhecimento de gratidão de boa parte da sociedade, devemos seguir suas pegadas e nunca negar aos outros o conhecimento que aprendemos da escola acadêmica e da vida, esta a mais consistente e duradoura. Têm muitos que morrem como fantasmas.
A lição que nos deixam é nunca sermos egoístas, mas persistentes nos momentos mais críticos e difíceis, porque não faltam aqueles que torcem a cara e acham que os fazedores de cultura não passam de idealistas sonhadores, desprovidos de bens materiais e sem futuro. São os mais ricos e os menos valorizados. Nessa caminhada, são muitos os que só dão espinhos e poucos os que oferecem flores. Uma só pétala já basta para superar sacrifícios e não ser apenas um vulto nesta multidão.
Já dizia um filósofo que a vida é um bem incerto, e que a morte um mal certo. Mas, do incerto você pode fazer muitas coisas certas e tornar a morte um bem para cada alma que fica. Fizeram-nos bem as últimas pessoas que se foram, como o jornalista e historiador Luis Fernandes que sempre se mostrou preocupado em resgatar a nossa memória cultural, pesquisando e levantado dados da nossa história.
Há cerca de um ano, ou pouco mais que isso, partiu para o além o meu amigo e companheiro poliglota e intelectual Sérgio Fonseca, com o qual convivi no jornal “A Tarde” e tive a honra de substituí-lo na chefia da Sucursal desse impresso em Vitória da Conquista. Quando se foi, infelizmente era pouco conhecido, inclusive de grande parte da mídia, mas, com seus serviços prestados, nos deixou um grande cabedal. Pouco foi homenageado em vida e na morte.
Infelizmente, nosso sistema social e político tem como uma de suas péssimas características não valorizar a meritocracia. As pessoas mais preparadas são pouco aproveitadas. Recentemente, partiu também para o outro lado, a nossa guerreira e professora do projeto Proler, Heleusa Câmara, uma insistente na luta pela alfabetização de detentos e de todos aqueles que viviam à margem do ensino. Foi uma grande incentivadora da leitura, justamente nesses tempos tecnológicos da internet em que poucos têm o hábito de ler.
Quantas pessoas Heleusa tirou da escuridão da vida, para ver o mundo de outra forma, através do conhecimento! Não somente isso, ela com sua crença naquilo que fazia, devolveu à comunidade muita gente que vivia fora dela. Lembro dela em minhas entrevistas jornalísticas quando detalhava minuciosamente, com sua paciência, suas propostas de tornar as pessoas mais humanas e educadas.
Nesta semana, lá se foi, mas continua conosco, o nosso “Fera”, como assim tratava os amigos, o ator Gildásio Leite. Minha aproximação com ele não tinha muito tempo, mas foi o bastante para aprender com Gildásio muita coisa, como bondade e generosidade, sem falar na sua ponderação na análise de certos problemas.
Há uns três anos, viajei com ele e o professor Itamar Aguiar, para uma feira do livro em Lençóis, na Chapada Diamantina, onde ele aproveitou para realizar uma série de entrevistas com o cineasta Orlando Sena. Foi quando trocamos muitas ideias tomando umas geladas e passei a chama-lo de grande garimpeiro. Não se queixava, e sempre estava otimista com a vida. Na última vez em que nos falamos, pediu meu livro “Uma Conquista Cassada” para extrair alguns subsídios para um documentário que estava elaborando. Não me recordo agora o assunto. Gildásio divulgou muito Conquista nos filmes e nas peças em que participou.





















