CANALHA! CANALHA! CANALHA!

No dia 1º de abril (Dia da Mentira), Jango rumou do Rio de Janeiro (Palácio das Laranjeiras) para Brasília. De lá partiu para Porto Alegre e depois para uma estancia em São Borja. Finalmente, voou para o exílio, no Uruguai. De Brasília, o presidente do Congresso, Auro Moura declarou vacância na presidência. Tancredo Neves tascou: “Canalha! Canalha! Canalha”! Era madrugada do dia 2 de abril. O mesmo Auro e um grupo de deputados armados pegaram o Ranieri Mazzilli e disseram: “Vamos para o Palácio, pois o senhor vai ter de assumir a presidência”. Waldir Pires e Darcy ainda imaginavam resistir.

Acompanhou o presidente neste trajeto penoso o general Argemiro de Assis Brasil, chefe da Casa Militar. Depois da missão cumprida, retornou para Brasília. Perdeu patente e pensão. Morreu em 1980 dizendo que o Exército tinha uma dívida para com ele, só que nunca pagou.

Certa vez o general disse que Jango tinha um bom coração; era um boêmio mulherengo bom de copo, mas só sabia governar uma estância. Foi vice-presidente invisível de 1956 a 1961 que todo governante pediu a Deus.

FUGIU PARA MOSCOU

Alardeavam que o Governo tinha um “dispositivo” para abafar qualquer rebelião. O lendário Cavaleiro da Esperança, Luiz Carlos Prestes, chegou a dizer várias vezes que cabeças seriam cortadas, só que fugiu para Moscou antes do golpe, deixando para trás a mulher grávida Maria, sete filhos e um listão de 74 comunistas que foram indiciados.

O historiador Jacob Gorender relatou em livro vários deslizes e prognósticos calamitosos de Prestes, como seu apoio ao Estado Novo; garantia que seu PCB não seria proibido em 1947; adesão à UDN contra Getúlio em 1954; e em 1964 assegurou a Nikita Kruschev, em Moscou, que no Brasil tinha comunistas até nas Forças Armadas.

Em palestra ao Partido Comunista da União Soviética: Se a reação levantar a cabeça, nós a cortaremos de imediato. Para a Associação Brasileira de Imprensa: Os golpistas terão as cabeças cortadas. No Estádio do Pacaembu, nos 42 anos do PCB, em 29 de março, proferiu a mesma frase. Morreu em 1990 aos 92 anos.

– Dispositivo militar era um exército invisível. O dispositivo que disseram que montei, nunca existiu – confessou o general Assis Brasil 20 anos depois.

Na última hora “do pega pra capar”, os chamados generais do povo e os almirantes vermelhos sumiram de cena. Eram forças invisíveis. Ainda no dia 2 de abril, Brizola defendia resistência à bala. Na casa do general Ladário Telles, comandante do III Exército (Rio Grande do Sul), Jango ouviu dele que tinha muitas armas e homens para acabar com o golpe. “Só preciso que dê ordens”.

– Se for à custa de sangue, prefiro me retirar – respondeu o abatido Goulart.

O general do I Exército, Armando de Moraes Âncora disse que não ia abrir fogo contra os cadetes porque seria um peso que não tiraria mais de cima dos seus ombros. O jornalista do “Correio da Manhã”, Heitor Conny, destacou que o I Exército aderiu aos que se chamavam rebeldes. “Recolho-me ao meu sossego e sinto na boca o gosto azedo da covardia”. Denominou de “Revolução dos Caranguejos”.

Da Câmara, o deputado pelo PSB, Francisco Julião, líder das Ligas Camponesas, incitava: “Quem está nas ruas não é a revolução, é a contrarrevolução. Quem vai salvar o Brasil é o seu povo”. O colega Adauto Cardoso alertou que não anistiaria os promotores da anarquia. Julião ficou trancado no Congresso até o dia 7 de abril e fugiu como carona num taxi de Adauto. Este passou um papel rabiscado para Julião : “Está tudo perdido”.

Consumado o golpe, Castello foi indicado pelo Exército para assumir a presidência da República em votação no Congresso. Aí Tancredo Neves disse para Juscelino: “Eu tenho todos os motivos para votar em Castello e não vou votar. Você tem todos os motivos para não votar e vai”. Quando os militares negaram eleição direta em 1965, Juscelino lamentou: “Cai na armadilha do Castello”.

Tempos depois, numa entrevista em referência ao golpe que derrubou Goulart do governo, Darcy Ribeiro declarou que a culpa foi dos esquerdistas louquinhos que queriam mais caos; queriam sair do caos para o socialismo.

Na imprensa, só o jornal “Última Hora” não celebrou o golpe. O “Correio da Manhã” botou a manchete “FORA!” Uma semana depois, O “Correio” protestava contra a queima de seus exemplares declarando ter sido uma operação com requintes de intolerância e brutalidade de regimes totalitários.

Na marcha da vitória, o arcebispo da Igreja Católica, Dom Jaime Câmara abençoou o movimento dizendo ter contado com o auxílio divino obtido por nossa mãe celestial. O mesmo Dom Jaime abençoou a Passeata dos Cem Mil, em 1968.

Por volta dos anos 80, final do regime, Golbery do Couto, ou “Colt” e Silva deixou o presidente general João Figueiredo, que disse que prendia e arrebentava, mas acobertou os terroristas de farda. O cineasta Glauber Rocha o chamou de “gênio da raça”, enquanto o general Mourão Filho preferiu afirmar que se tratava de um cérebro doentio.

No livro Anatomia das Revoluções, o historiador Crane Brinton cravou que as revoluções começam com esperanças, triunfam sob lideranças moderadas e naufragam no autoritarismo. “A revolução, como saturno, devora os próprios filhos”. Para Hannah Arendt, está fadada ao fracasso toda política de Estado cujo objetivo seja fazer seu adversário desaparecer em silencioso anonimato.

Por que os militares do regime não admitem que os fugitivos, os desaparecidos e suicidas foram barbaramente torturados e assassinados nos porões macabros das casas de terror e nas salas sombrias dos quartéis dos carrascos inquisidores do “Santo Ofício da Ditadura”?

AS TIRADAS EM CONQUISTA

Era o ano de 1962, de muitas mudanças políticas e influência das ideias socialistas. Em Vitória da Conquista, José Fernandes Pedral Sampaio disputava a Prefeitura Municipal com o candidato Jesus Gomes dos Santos. Campanha acirrada de muitas brigas entre o grupo progressista contra a oligarquia coronelista. Os jornais locais bradavam com suas manchetes sensacionalistas: “Pedral Crucifica Jesus”, “Discípulos Abandonam Jesus”, “Jesus é Traído na Ceia”, “Pedral Critica Jesus”, “Povo Renega Jesus”, e por aí vai.

O espirituoso padre Palmeira se posicionava ao lado dos considerados de “esquerda subversiva” pelos conservadores, mas era comedido na sua campanha para deputado estadual. Num determinado evento da cidade, um senhor, com intuito de provocação, se aproximou do sacerdote e indagou:

– Padre, o senhor é a favor ou contra Jesus?

Padre Palmeira parou, olhou o moço com desdém e respondeu:

– Eu estou com o pai, José.

Pedral ganhou a eleição com larga vantagem, mas foi cassado pela Ditadura Militar, em maio de 1964. Os adversários foram à forra e espalharam ter sido castigo de Deus, o pai. “Deu no que deu terem votado contra Jesus” – desabafaram.

Em maio de 1964, logo depois do Golpe Militar, o capitão Antônio Bendochi Alves Filho, comandou a operação de 100 soldados do exército, que prendeu cerca de 100 pessoas, em Vitória da Conquista, as quais faziam parte do grupo de José Pedral Sampaio (prefeito na época e depois cassado), entre outras consideradas subversivas e comunistas por apoiarem o governo deposto João Goulart e as reformas de base.

Um dos presos que caíram na rede de Bendochi foi o estudante adolescente Cláudio Fonseca, de 14 anos de idade (hoje advogado), conhecido por muitos que participavam dos movimentos sociais e políticos como “O Comuna” por sua presença ativa em vários grupos.

No interrogatório, segundo um companheiro seu que estava ao lado, o capitão olhou bem para o menino, com seu semblante de intimidação, e indagou: Você conhece os revolucionários cubanos Fidel Castro e Che Guevara, não é?

Sem vacilar, Cláudio respondeu: E Lindon Johonson também, capitão. (Lindon Johonson era presidente dos Estados Unidos na época).

No governo de Lomanto Júnior, o então deputado estadual padre Palmeira foi convidado e nomeado secretário da Educação. Tempos depois, logo após o Golpe Militar, o governador que era muito seu amigo, por questões de acomodação política, teve que indicar outro nome para a pasta, demitindo o padre Palmeira.

Em decorrência do fato, o sacerdote ficou muito desolado e resolveu se afastar do convívio que tinha com o governador. Além de amigo, padre Palmeira era uma espécie de conselheiro do governador nos momentos mais difíceis. Lomanto Júnior ficou muito ressentido com o afastamento do seu amigo e tudo fazia para aproximá-lo.

Por último decidiu, a conselho de um político mais próximo, dar uma festa regada do bom uísque e convidar o padre que gostava muito do destilado legítimo e não perdia um evento.

O emissário enviado para convidar o padre Palmeira foi o deputado estadual Juarez Hortélio (representante de Vitória da Conquista na Assembléia). Usou de toda sua diplomacia para convencer Palmeira a se aproximar do governador, dizendo que Lomanto estava lhe convidando para uma festa com muito uísque, em sua homenagem.

Padre Palmeira baixou a cabeça e agradeceu o convite, mandando um sucinto e direto recado: Diga a ele que “uesqueci”.

Nos tempos da Ditadura Militar, até usar barba poderia ser forte motivo para ser preso como “subversivo perigoso”. Pois é, dentre muitos fatos cômicos e trágicos, essa foi uma que aconteceu, em Recife, no início da ditadura. Um jovem estudante foi detido porque, além da barba, carregava uns livros e estava próximo a uma universidade.

Depois de revistá-lo, os militares encontram em um de seus bolsos um papel onde aparecia escrito o nome “Maiakovski”, poeta comunista russo do início do século XX. O estudante anotou o nome no papel porque estava elaborando uma pesquisa de literatura sobre a obra do poeta.

Os agentes encheram o jovem de porrada, insistindo que ele dissesse “quem era aquele espião russo”! E tome tapa no estudante barbudo.

Ao se inteirar da situação, o supervisor do militar, responsável pela prisão, ficou irritado e repreendeu ao seu subordinado, dizendo que ele tinha entendido tudo errado: “Seu burro, são dois espiões” – um é brasileiro, o “Maia”, e o outro é russo, o Kovski”!