FUTEBOL BRASILEIRO EM CRISE Carlos Gonzalez -jornalista
“Amigo, em fui da época em que o Bahia bateu o Santos de Pelé e foi campeão brasileiro de 1959. Hoje, os clubes do Nordeste já iniciam o Brasileirão brigando para não cair”. Ademir da Guia, 72 anos, o maior ídolo do Palmeiras, usou esse exemplo para mostrar que o futebol brasileiro passa por uma crise técnica, onde os times dos grandes centros, como Rio e São Paulo, se nivelam aos nordestinos – há poucos dias, ABC e América, ambos de Natal, eliminaram, respectivamente, Vasco e Fluminense da Copa Brasil.
O “Divino”, como era apelidado nas décadas de 70 e 80, se limitou a falar sobre o panorama técnico do futebol brasileiro, deixando de mencionar o lado financeiro. A imprensa tem noticiado, quase que diariamente, a situação pré-falimentar de alguns dos grandes clubes que participam das quatro séries do Campeonato Brasileiro, revelando que, três ou quatro deles, anunciaram que abandonariam a competição, porque não conseguem levar seus torcedores aos estádios, mas só não o fizeram porque a CBF, a “mãe rica”, os ameaçou com pesadas multas e exclusão por dois anos de jogos oficiais.
Talvez tenha passado pela cabeça dos dirigentes do Vitória da Conquista, logo depois das terceira rodada do torneio da série “D”, com apenas um ponto ganho e sem chances de se classificar para a segunda fase, perder seus demais jogos por WO. O time conquistense, por falta de divulgação das suas partidas e de apoio dos desportistas e empresários da cidade, tem prejuízo financeiro toda vez que entra em campo. Os números podem ser consultados nos boletins publicados no site da CBF.
Veja, como exemplo, o resumo financeiro de Vitória da Conquista x Porto, realizado no dia 30 de agosto, no Lomantão, com empate de 1 a 1. Dos 660 ingressos à disposição dos torcedores foram vendidos apenas 115, proporcionando uma arrecadação de R$ 1.125,00. Agora, vêm as despesas: a FBF, “filha” privilegiada da “mãe” CBF, levou R$ 1.612,86, referente ao deslocamento de seus funcionários desde Salvador; a federação local – existe ? -, R$ 56,25; arbitragem, R$ 6.669,28; os policiais de plantão receberam R$ 300,00 para o lanche. Somando esses números às taxas normalmente cobradas em espetáculos públicos sobrou para o Conquista um prejuízo superior a R$ 8 mil.
A direção do Vitória da Conquista não informa como está driblando a crise, ou seja, como estão sendo cobertos os déficits apresentados em todos os jogos realizados em casa, e como estão sendo pagas as despesas de viagem e hospedagem. O time tem duas partidas a realizar, sendo uma em Betim (Minas Gerais), e outra no “Lomantão”, dia 13, às 16 horas, contra o Globo, do Rio Grande do Norte. A equipe, provavelmente será desfeita, voltando a se reapresentar em janeiro, para o Campeonato Baiano de 2015. Até lá, como jogadores e funcionários vão pagar suas contas?
Essa preocupação deve estar na cabeça de milhares de jogadores espalhados pelo país. As incertezas atingem, não apenas as pequenas agremiações, como o Conquista, mas também grandes clubes do Rio e São Paulo. Vasco, Flamengo e Botafogo, que devem juntos quase R$ 600 milhões, estão sendo ajudados por seus torcedores. As quantias depositadas em bancos, para que não sejam embolsadas pelos “cartolas”, vão direto para os credores, principalmente para a Receita Federal. Com um pedido de desculpas aos seus aficionados, o Botafogo vai atravessar o país para fazer dois jogos pelo Brasileirão, em Manaus, onde tem certeza de conseguir mais recursos para pagar salários atrasados de três meses.
Enquanto espera que a Câmara se reúna, o que só deve acontecer em 2015, para votar a Lei de Responsabilidade Fiscal, que vai estender até o final do mundo a dívida dos clubes com os órgãos públicos, os paulistas procuram administrar o caos financeiro. Com uma folha mensal de R$ 700 mil, o Guarani emite cheques sem fundos, e o Corinthians espera que o governo federal perdoe uma dívida de quase R$ 1 bilhão com o BNDES, dinheiro emprestado para a construção do Itaquerão, em São Paulo, com a mediação de Lula, torcedor-símbolo do clube, e um dos responsáveis pelo veto ao Morumbi para receber jogos da Copa do Mundo.
Voltando ao personagem da abertura deste comentário, Ademir da Guia justificou a média inferior de 20 mil pessoas em jogos do Brasileirão – Espanha, Alemanha e Inglaterra registram 80 mil – porque, segundo ele, “estamos assistindo a um futebol feio, onde os times se preocupam em não levar gols. Os técnicos tiraram os pontas e os meias e passaram a dar mais atenção às defesas”, observou o ex-meia do Palmeiras.
As partidas parecem vídeo-taipe das que já foram realizadas: faltas constantes, passes laterais e para trás, receio de se tocar a bola em profundidade, reclamações e agressões contra as arbitragens, número excessivo de passes errados e jogadas típicas do futebol de praia. Profissionais que não fazem jus aos salários que recebem, deixando transparecer uma apatia em campo, chegando mesmo a forçar a punição pelos cartões amarelo e vermelho. E ainda perguntam por que o brasileiro deixou de ir aos estádios.
Para certa parte da imprensa, que tem livre acesso aos salões da CBF, os sete gols marcados pela Alemanha são coisas de um passado longínquo. Ela está hoje a aplaudir a vitória de 1 a 0 diante de uma Colômbia, que jogou o segundo tempo sem Cuadrado, seu melhor jogador, expulso pelo árbitro. O irascível Dunga já é o salvador da pátria, e Neymar, que foi galgado a capitão do time, é chamado de herói.











