JIBOEIRICES – ASPECTOS SOCIOLÓGICOS E FOLCLÓRICOS DO SUDOESTE BAIANO
Com uma impressão de qualidade e bom para se ler pela sua linguagem simples e acessível, o livro “Jiboeirices-Aspectos Sociológicos e Folclóricos do Sudoeste Baiano”, do médico Ernane N.A. Gusmão, lançado recentemente em Vitória da Conquista, merece uma correção atualizada quanto ao Pico das Almas (Rio de Contas) com 1850 metros, citado como o ponto mais alto da Bahia.
Pelos novos estudos geográficos, a serra do Barbado, em Piatã, passou a ser o maior relevo do estado. Como sacis escondidos numa imensa floresta que sempre estão a nos enganar, assim são as palavras que escapam à revisão ortográfica numa obra literária e aparecem quando bem entendem, sempre depois de impressa para o leitor.
No mais, Ernane, nascido em Pedra Azul (MG), mas filho de jiboeiros da gema, da Jiboia da Serra do Maçal (Mundo Novo), mesmo se arriscando em divulgar em seu trabalho números e dados estatísticos dos aspectos geográficos e demográficos que naturalmente com o tempo ficam desatualizados, situa muito bem o leitor dentro da região sudoeste onde Vitória da Conquista é o polo de desenvolvimento.
Poderia ter sido mais sucinto na sua contextualização sudoestina ao descrever sobre os jiboeiros e as jiboeirices, matérias-primas da sua obra, mas preferiu, com todo seu perfeccionismo, alargar os conhecimentos entrando em detalhes sobre a formação, origens e toda história de uma região, se bem que muitos costumes, hábitos e denominações não são apenas específicos do sudoeste.
O autor procurou penetrar com profundidade no Sertão da Ressaca para localizar a nação jiboeira com suas peculiaridades a partir de Vitória da Conquista, situada a 940 metros do nível do mar. Em “Aspectos Geográficos” ele cita cidades e microrregiões de altitudes diferentes, como Jequié com 216 metros, que fazem parte do sudoeste. Já no Planalto da Conquista, as altitudes variam de 700 a mil metros.
A obra de Ernane tem cunho bem instrutivo, principalmente para estudantes e interessados no assunto. No capítulo “História e Civilização” ele faz uma caminhada desde 1534 (D. João III de Portugal) para falar das capitanias hereditárias e dos governadores gerais.
São interessantes os relatos das viagens do príncipe Maximiliano, do zoólogo Spix e do botônico Von Martius (alemães) pela Bahia entre os anos de 1816 a 1820. O primeiro partiu do Espírito Santo, adentrou pelo sul litorâneo da Bahia, passando por Vitória da Conquista onde visitou o fundador da cidade João Gonçalves da Costa e depois seguiu para Salvador cortando o Vale do Jequiriçá.
Spix e Martius percorreram a rota do sudoeste-leste, de Malhada para Salvador. Os dois fizeram um relato sobre a Vila de Caetité destacando como um dos lugares mais ricos do sertão da Bahia. Estiveram também em Brumado, Livramento, Rio de Contas, Sincorá e Maracás.
Em “Aspectos Demográficos”, Ernane Gusmão descreve sobre a criação de cada município da região, os potenciais econômicos, ligações com a comarca de Jacobina, e aponta Vitória da Conquista que de arraial se transformou em Rainha do Sudoeste.
Com números e dados estatísticos, sua obra pode ser muito bem utilizada em pesquisas nas escolas e centros de estudos. Após este lado “pesado”, o livro se torna mais ainda prazeroso de ser ler a partir da Secção II em que fala dos tipos humanos da região, se bem que muitos deles encontrados em outros territórios da Bahia e, principalmente, do Nordeste.
O Coronel, o Vaqueiro, o Tabaréu, o Citadino, o Fazendeiro, o Cavaleiro, o Peão Montador, a Mulher Sudoestina, entre outras personagens são dessecadas pelo autor com muita propriedade de quem viveu no interior. Ele também mostra seu lado poético “Em Festa de Vaqueiro”.
Só na Secção III Ernane passa a focar o ser Jiboeiro, matéria-prima do seu livro, contando histórias e estória de seus ascendentes e descendentes, amigos e familiares. O poema “Conto ao Jiboeiro”, de sua autoria, faz um retrato sobre o povoado da Jiboia, origens e características dos jiboeiros.
Aspectos Folclóricos com Cantigas e Quadras, Brincadeiras e Jogos Infantis, Os Animais nos Esportes, A Culinária Sudoestina e Fraseologia Popular encerram o livro com um pacote de curiosidades para o leitor. Não foi textualizado pelo autor do trabalho, mas para mim que li a obra, ficou a impressão de que o Jiboeiro tem sangue cigano.
Gostei também da bela ilustração da capa feita por Marisa Fernandes Correia onde foi projetada a figura de uma jiboia com face humana e paramentada com peças usadas pelos jiboeiros que gostam de criar cavalos. No desenho está também a presença do coronel da região (a jiboia com arma na cintura) e uma gaiola na ponta da cauda, um demonstrativo da tradição de se criar passarinhos em gaiolas como se fazia em tempos passados.












