A BENÇÃO MEU “VELHO CHICO”!

  Para quem sai de Vitória da Conquista com pouco mais de 30 graus e entra em Juazeiro “pegando fogo” de 40 graus e até com sensação de mais que isso, escorre pelo corpo o suor do tipo cuscuzeiro numa caatinga estorricada que só de verde o mandacaru.

 Pelas estradas cruzam os bodes catando bagaços e o agreste me faz lembrar dos nordestinos retirantes e dos cangaceiros fugindo das volantes ou combatendo contra os “macacos” como os chamava Lampião. Em Pernambuco passei por Lagoa Grande onde ele cometeu muitos crimes e saqueou o povoado, hoje cidade, cujo município é grande produtor de vinho, graças ao Rio São Francisco.

  Como sempre faço quando venho para essas bandas, onde nessas terras cortou o “rei do cangaço” e seus bandoleiros, costumo ir ao leito do nosso majestoso São Francisco, ou o “Velho Chico”, para os índios, Opará, e pedir sua benção, nele mergulhar e tomar muita água, senão o corpo desvanece.

  Quando aqui chego, a primeira coisa que me vem à cabeça é escrever algumas linhas sobre ele como forma de lhe prestar homenagens e pedir perdão pela forma como o homem o depreda e deixa suas margens desmatadas e asseroadas.

   Dele tudo se retira, como a transposição das suas águas que não chegam aos pobres catingueiros que ainda dependem dos tanques e das cisternas, e pouco se repõe. Até hoje, quem mais se beneficiam do “Velho Chico” são as empresas de fruticulturas e as vinícolas que até recebem financiamentos dos governos estadual e federal.

   Tudo isso me faz lembrar da grande estiagem, há cerca de 20 anos, que fez aparecer os bancos de areias e desaparecer as pequenas ilhas, tornando o Opará inavegável. Foi início dos anos 2000 que fez um frei de Barreiras decretar greve de fome contra a transposição das suas águas. Tempos terríveis e muitos chegaram a falar no desaparecimento do rio.

   O mais contraditório e aberrante é que ensinam nas escolas que o Opará, batizado por Rio São Francisco, em homenagem a São Francisco de Assis, foi “descoberto” em 4 de outubro de 1501 pelos navegadores Américo Vespúcio e André Gonçalves, só que ele é milenar e já existia e navegava cheio de farturas muitos séculos atrás.

    O São Francisco tem suas lendas e histórias, com suas carrancas, o nego d´água, a Iara ou Mãe D´Água que dorme dois ou três minutos na meia noite e depois vai pentear seus cabelos nas canoas dos barqueiros; tem as rezadeiras, os curandeiros e seus ribeirinhos que dele tiravam seu sustento do dia a dia. Hoje está escasso e até o surubim é difícil de ser encontrado.

  Em seu leito abriram grandes barragens, como a do Sobradinho, impedindo a navegação em diversas partes. Por ele atravessaram valentes, volantes e retirantes nordestinos fugindo das secas que dizimaram milhares de sertanejos. Foi testemunho de acontecimentos importantes no cenário nacional.

   Com a expansão do plantio da cana-de-açúcar no litoral do Nordeste, os gados começaram a ocupar as margens do “Velho Chico” e ele também passou a ser chamado de rio dos Currais.

  O São Francisco atravessa cinco estados, Minas Gerais (nasce na Serra da Canastra), Bahia, Pernambuco, Alagoas e Sergipe onde suas águas se encontram com o mar, percorrendo 2.863 quilômetros. É considerado o rio totalmente brasileiro.

   Por isso e muito mais, o “Velho Chico”, como assim é apelidado carinhosamente, merece a minha benção e a ele eu faço sempre as minhas preces num demorado bate-papo só nosso. Conto os meus segredos e, como velho ancestral, rogo pelas suas orientações para meu retorno de outras tantas vezes. A benção meu “Velho Chico”! Até a próxima!