Por paralisia intestinal, aos 90 anos de idade, morre em 20 de julho de 1934, em Juazeiro do Norte, o padre Cícero Romão Batista, o “Padim Ciço”, o todo poderoso do sertão nordestino que chegou a derrubar um governador do Ceará e era inimigo ferrenho da Coluna Prestes, cujo comandante Luís Carlos Prestes era considerado por ele um satanás saído dos infernos da Rússia.
A notícia correu como rastilho de pólvora e logo chegou aos ouvidos de Lampião e seu bando através da sua rede de olheiros, coiteiros e espiões. Embora não se encontrassem por cerca de oito anos, o “rei do cangaço” sempre tinha o sacerdote como seu grande protetor espiritual e ficou muito consternado com seu falecimento.
Um poeta anônimo chegou a fazer esses versos: “O vento silenciou,/O sol apagou a luz,/A imagem do Senhor/Chorou pregado na cruz./A terra quase tremia/Sua morte parecia/Com a morte de Jesus”
Narra o escritor Frederico Bezerra Maciel, em sua obra “Lampião, seu Tempo e seu Reinado” que o pesar do “capitão” foi profundo, de um silêncio absoluto e todas mulheres choraram. O chefe mandou logo comprar faixas de crepe para o luto de oito dias. Todos cangaceiros usaram fumo no braço. As mulheres ló tingido de preto cobrindo a cabeça.
Lampião ordenou que cortassem duas toras finas de pereiro, em tamanho desigual e com elas formou uma cruz. Na haste superior, enlaçou um pedaço de tarja, “que o vento drapejava anunciando de longe o luto do sertão”.
De acordo com Bezerra, “à noite, por uma dessas circunstâncias que desconcertam o pensamento e despertam presságios, uma nocticanora mãe-da-lua pousou no braço horizontal do cruzeiro. Até a madrugada, enquanto durou o escuro, soltava seu canto estranho e plangente”
Conta a história que a mãe-da-lua começou com seu canto alto, depois descia em escalas de notas uivantes e muito longas, como gemidos sofridos de moribundo desesperado de dor. Na descrição do autor do livro, os sons rasgantes davam a impressão de gargalhadas sarcásticas e apavorantes. Era a morte zombeteira mangando da dor sertaneja.
Aquele canto da mãe-da-lua, segundo Frederico, deixou Lampião sobressaltado a noite inteira, com sonhos e pesadelos. Pela manhã, confidenciou a Maria Bonita seu pressentimento de que o “Padim Ciço” viria buscá-lo em um fim do mês de julho.
Oito dias depois, no fim do luto, a mãe-da-lua voltou a cantar e a repetir os mesmos lamentos no cruzeiro erguido no alto da caatinga. Lampião teve os mesmos sonhos, inclusive nos anos subsequentes. Crendice, ou não, Lampião seria morto, na gruta do Angico, em 28 de julho de 1938.