(Crônica publicada no jornal A Tarde em 26/12/1996)
A Redação de A Tarde está informatizada. As últimas editorias estão deixando as máquinas de escrever e assumindo os computadores. Está todo mundo deletando e “pontodocando”.
A informatização exigiu uma semana de treinamento para repórteres e editores. A técnica é facilmente assimilada – o teclado é, no fundo, uma máquina de escrever adaptada -, mas a cara dos colegas no primeiro dia era muito engraçada. Todos queriam fazer uma gracinha, mas a cara estava tremendo. Somente coisa de primeiro dia, pois no segundo todos já estavam metidos a bamba.
Difícil acreditar que o papel está acabando. Gostoso mesmo era arrancar a lauda da máquina quando a gente escrevia a última linha da matéria. Quando comecei em jornal fui fazer isso a primeira vez e a lauda rasgou ao meio. Demorei um pouco pra entrar em forma e fazer aquele zap pra lauda sair inteira.
Dizem que tinha um redator, em Porto Alegre, que, quando informatizaram o jornal, só sentava no computador com um pacote de laudas ao lado. Quando errava na tela, amassava uma lauda e jogava na cesta.
O que será das máquinas de escrever da Redação? Alfredo Castro me fez a pergunta que eu não soube responder, mas que elas levam muitas histórias, levam. Algumas já estavam até cansadas de tanta notícia. De manhã, cuidavam de escrever sobre cultura, de tarde notícias da cidade e de noite reportagens policiais.
Outras máquinas pareciam cochilar junto com a gente, nos intermináveis plantões da Guerra do Golfo, da agonia de Tancredo Neves e do sequestro feito por Leonardo Pareja.
As velhas máquinas podem ir parar, talvez, num escritório de contabilidade da Avenida Sete e, quem sabe, uma delas não sirva para que o contínuo bata sua primeira carta de amor datilografada?
Cada um marcava sua máquina de escrever preferida. Antônio José, por exemplo, tinha uma Olivetti azul que ai de quem estivesse com ela às 18 horas, quando ele chegava.
Outros arranhavam o nome na máquina, colavam durex, escondiam, faziam o diabo para ter a preferida ao lado.
Hoje, na Redação informatizada, o computador é de todo mundo. Bateu a senha, entrou e ele ainda lhe dá bom-dia. Democrático, esse rapaz.
E o barulho? O tic-tac das máquinas acabou e na Redação informatizada não precisa mais falar alto, mania de todo jornalista. O silêncio é tão grande que não se pode mais nem contar segredo – afinal, já existe o correio eletrônico.
A notícia continua nos acompanhando, mas a gente tem o direito de sentir saudade.