A literatura sobre o cangaço, Lampião e outros cangaceiros, é muito vasta. Para falar do assunto, todos autores procuram abrir seus trabalhos descrevendo sobre como era o Nordeste do século XVII até o início do século XX. Os escritores fazem uma espécie de mapeamento sobre o solo, a caatinga dos sertões, as crendices, o misticismo e todos fatores que contribuíram para o banditismo no sertão.  

  A região vivia isolada do resto do país, abandonada, castigada pelas secas, pela pobreza extrema, pelas brigas entre famílias, pelo mando dos chefes políticos e dos coronéis e pela falta total da justiça para impor a lei. Enfim, o Nordeste era uma terra de ninguém onde o poder era quem mandava. O opressor massacrava o oprimido.

 O CANGAÇO

  O autor de “Lampião, o Rei dos Cangaceiros”, Billy Jaynes Chandler segue esta linha de raciocínio. De acordo com ele, nas sociedades rurais subdesenvolvidas, o banditismo sempre captou o interesse e a fantasia do povo. No Nordeste, o cangaceirismo e, sobretudo Lampião, eram vistos como “heróis” e um fenômeno de rebeldia contra aquele sistema cruel de exclusão social, política e econômica.

   Os que viviam fora da lei, aparentemente livres das restrições sociais, despertavam uma certa imaginação. Desse modo, Billy cita a vibração dos ingleses com os feitos de Robin Hood; os mexicanos com as façanhas de Pancho Villa; e os brasileiros com Lampião.

  As vidas desses homens serviam de matéria-prima para trovadores, cantores, literatos e repentistas das histórias populares. Exageravam e, de certa forma, omitiam a realidade. Alguns historiadores e cientistas, movidos pela obra de Eric Hobsbawm encontraram interesse no estudo do banditismo.

  Lampião, por exemplo, nascido no sertão decadente do Nordeste, fez sua entrada no banditismo, em 1916, quando contava com 19 anos, devido a uma disputa com a família de Saturnino (José Alves Borges). Cinco anos depois, quando a polícia – José Lucena – matou seu pai, em Alagoas, ele declarou que ia viver e morrer como bandido.

  Foi leal, generoso e até praticava ações de compaixão com aqueles que tinham conquistado sua confiança, mas cruel e sanguinário com os que despertavam sua inimizade. Fazia acordos com chefes políticos, coronéis, fazendeiros e até com a polícia para sobreviver.

   Com suas táticas e astúcias, foi um guerrilheiro hábil ao ponto de o povo do sertão acreditar que tinha poderes extraordinários que provinham do seu fervor religioso. Tornou-se objeto de medo e respeito e chegou a ser amigo de um governador.

  Segundo Billy, as palavras cangaceiro e cangaço começaram a ser usados na década de 30, e se relacionavam à canga, cangalho, jugo dos bois. Talvez era assim chamado por carregar o rifle nas costas, como o boi puxa a sua canga. A partir do final do século XVIII significava um grupo de homens armados a serviço de um fazendeiro. Depois se tornaram independentes e a palavra cangaceiro começou a ser usada.

   Foi um fenômeno social. Os cangaceiros andavam em bandos, com seu modo de se vestir especial, como um lenço colorido no pescoço e um chapéu de couro, tipo cawboy do sertão, cuja aba era virada para frente cheia de enfeites (estrelas de Salomão). Conhecedores dos sertões, suas táticas de guerra deixavam as volantes atordoadas.

A DESORGANIZAÇÃO SOCIAL E AS SECAS

  Sobre o Nordeste, Billy descreve que no Sertão, as chuvas fortes caiam numa estação chamada de inverno pelos nativos, num período entre cinco a seis meses, de dezembro a março. A temperatura variava entre 17 a 38 graus, mas hoje chega até mais de 40.

  Quando se fala do Nordeste, muitos imaginam como uma região plana e ´desértica, mas ele tem suas colinas, matas, chapadas, numa mistura de savana floresta. Nos locais planos, vê-se a caatinga, uma vegetação retorcida, nodosa de pequena altura, própria da terra quente e seca. Predominam árvores de pequeno porte, com variedade de cactos, como o facheiro ou mandacaru.

   Os primeiros portugueses não se estabeleceram no sertão, mas nas zonas úmidas do litoral ao longo da costa até Natal (Rio Grande do Norte). Durante o século XVI surgiu uma sociedade agrícola, baseada na cana-de-açúcar. Os índios foram aculturados e, na maioria, exterminados. O escravo chegou a ser a maior força de trabalho.

  Dominava a colônia, uma elite aristocrata, branca e arrogante situada nas áreas férteis (Salvador e Olinda). A produção de gêneros alimentícios foi renegada, surgindo daí o interesse pelo interior, com boas terras para a criação do gado e agricultura em geral.

  Os sertões, então, começaram a ser desbravados a partir do século XVIII até em regiões longínquas. No litoral predominavam as sociedades racistas. Grandes extensões de terras foram entregues pelos oficiais da colônia, nascendo assim os latifúndios. Os fazendeiros eram potentados do sertão, iguais aos senhores de engenho. Governavam seus dependentes com mão de ferro, delegando poderes.

  Como as riquezas eram escassas, Portugal praticamente não exercia domínio. Desde sua origem, conforme análise de Billy, a sociedade dos sertões foi deixada ao discernimento. A independência do Brasil, passando pelo Império (1822-1889) e depois a República Velha (1889-1930), pouco alteraram os fatos.

  A maioria do povo vivia em completa penúria de vida. Mesmo assim, desbravou a região. Foi dessa classe que saíram os cangaceiros, como Lampião. Alguns eram vaqueiros e outros combatiam os índios, incluindo uma pequena parte de escravos negros e mulatos.

  Devido a miscigenação, brancos, negros, mulatos e índios formaram uma categoria de pobres submissos. No início da conquista, os índios sofreram grandes baixas. Existiam pessoas livres, de descendência mista, que eram os senhores vindos da costa. Muitos ancestrais pobres chegaram a ser donos da terra.

  Com o tempo, as grandes propriedades se fragmentaram, divididas entre herdeiros. Essa divisão causou o empobrecimento de muitos. As adversidades das secas também ajudaram a dizimar rebanhos e outros recursos dos fazendeiros.

    No entanto, com o casamento de conveniências, muitos conseguiram deter a desintegração e reconstruir suas fortunas. O latifúndio ainda persistia, apesar das circunstâncias nas pessoas dos coronéis e dos chefes políticos.

   A principal atividade era a pecuária que abastecia as capitais litorâneas. O agregado procurava tirar da terra sua magra subsistência através da agricultura, muita parte destinada à população litorânea.

  Esta situação só começou a mudar no século XVIII com o cultivo do algodão, se bem que os lucros não compensavam devido a falta de estradas e a flutuação dos preços no mercado internacional.

A Abertura de estradas de ferro, no final do século XIX e começo do século XX, estimulou a cultura de gêneros alimentícios de exportação, mas tudo isto foi anulado pelos grandes proprietários que começaram a exigir uma parte pela terra alugada. Houve o surgimento do algodão, mas teve pouca duração.

As áreas agricultáveis se tornaram superlotadas, resultando na fragmentação das propriedades através das heranças. O grupo econômico que mais lucrou com a comercialização dos produtos foi o do intermediário que era o fazendeiro empreendedor. O resultado foi o declínio econômico das populações dos sertões, com o empobrecimento.

    Com o fim da Guerra Civil na América do Norte, em 1865, cessou a procura pelo algodão e afetou também o mercado açucareiro. Logo depois veio o fim do ciclo da borracha, no Amazonas, na segunda e terceira décadas do século XX. 

  Dizem que este conjunto de fatores gerou o cangaço, mas houve outras influências, como a fragilidade das instituições responsáveis pela lei, ordem e justiça, implantadas desde a colonização, quando as autoridades entregaram a região aos potentados.

   No império tentou-se reverter a situação, confiando a ordem aos chefes de polícia, mas não funcionou por causa da política entre os dois partidos que sempre nomeavam seus aliados. O sistema de júri também fracassou porque o jurado votava de conformidade com o coronel ou do chefe político. Partidos políticos antagônicos incentivaram os conflitos, bem como as guerras entre famílias.

  A República, em 1889, criou o federalismo delegando poderes aos estados, que estimularam o desenvolvimento das máquinas políticas, assegurando que o coronel votasse a seu favor. Em troca, os coronéis mantinham seu domínio. A força da polícia apoiava os coronéis, mas, aos poucos, foram perdendo poder.

  Com o enfraquecimento das instituições do estado, que sempre estavam a favor da facção local vigente no momento, criou-se um clima de desordem, sem justiça e proteção aos desfavorecidos. Sem garantia de proteção nem do patrão, nem do estado, povoações do sertão se transformaram em verdadeiras selvas onde imperavam a ilegalidade e a desordem.

“Parece, portanto, certo que o aparecimento do cangaço esteja intimamente ligado a este estado de desorganização social” – aponta o escritor Billy Chandler, mas ele acrescenta também as secas calamitosas que se repetiram naqueles anos, entre final do século XIX e nas primeiras décadas de 1900.

  Billy ainda cita o messianismo e o fanatismo religioso que desagregaram a sociedade, só que estes fenômenos ocorreram paralelamente ao cangaço. No entanto, em sua visão, as estiagens prolongadas contribuíram para aumentar a violência. “Com a seca de 1919, o cangaço atingiu seu ponto máximo”. “Tanto o banditismo como o messianismo são produtos do mesmo complexo de condições”