GUARDA COMPARTILHADA DE ANIMAIS
– Gostaria de falar com o sr. Doutor Wilson da Cunha Amaral. Assim se apresenta o senhor aflito para conversar com seu advogado sobre sua situação calamitosa de pedido de aposentadoria no INSS, que nunca sai, ou indenização de perdas morais e financeiras por negligência do Estado.
– Sinto muito, mas ele está numa audiência com o juiz no Fórum, na Vara dos Animais Domésticos, tratando de uma demanda sobre a guarda compartilhada entre um casal, pais do cachorro Tadeu, e vai demorar– responde a secretária.
Por sua vez, o advogado Wilson da Cunha procura o juiz Custódio da Silveira para resolver um processo de soltura de um inocente que há anos foi preso injustamente por erro da Justiça. A atendente responde contando a mesma história.
– Quando eu posso visitar meus “filhos”? Eles são alívio da minha alma, conforto dos meus problemas e até curam minhas doenças, enxaquecas de cabeça e gastrite de estômago – defendem os ex-casados, com unhas, garras e dentes. Haja xingamentos!
A briga é acirrada e os ânimos estão exaltados. Os advogados precisam conter seus clientes para não irem aos tapas. O juiz é severo e grita não admitir desordem ou bagunça em sua sala. “Roupa suja se lava em casa”. Acontece que não vivem mais juntos. O juiz suspende a audiência por alguns minutos e ameaça até prendê-los.
Lá em seu gabinete, o magistrado sério e justo reflete que tem um monte de milhares de processos humanos em sua mesa para despachar, e só aumentam em cada dia que passa.
– Estudei tanto, fiz concurso e agora aqui estou eu a julgar guarda compartilhada de animais, numa briga de dois idiotas alienados e desequilibrados que nem ligam para os filhos biológicos!
O juiz retorna irado, de cabeça quente e determina que a guarda vai ficar com a “mãe”, por ser mulher. O “pai” fica revoltado, nervoso, bate na mesa e afirma que isso não vai ficar assim. “Vou recorrer até ao Supremo Tribunal Federal”. É coisa de milhões!
E quando o juiz decide que ambos têm o direito de visitar seus “filhos” em finais de semana, de forma alternada? Sempre vai ter um que vai se sentir injustiçado (a) com a sentença.
– Vim buscar o meu “filho (a)” para ficar esta semana comigo em casa e passear por aí – bate o “pai” na porta da ex que o recebe com a cara enfezada e psicologicamente mal-humorada.
A “mãe” faz uma série de recomendações, com embalagens de alimentos e vestuários nas mãos, tudo de acordo com a temperatura do tempo. Tem aquela que por pirraça diz que o “filhote” ou a “filhota” está na casa da avó, gripado (a), ou está na rua.
Todo esse cenário “modernista contemporâneo-tecnológico”, meu camarada, só ocorre entre ricos e poderosos. O pobre não tem dinheiro para pagar honorários com advogado e cada um leva o animal na hora que bem entender.
Se o pobre quiser a guarda tem que apelar para a defensoria pública. Na maioria das vezes, o cão, ou o gato, vive mesmo é nas ruas. O marido nem está aí e prefere ir para um boteco encher a cara de cachaça.
Nada contra cães, gatos, papagaios, micos, bodes, cobras, lagartos, coelhos, hamsters, chinchilas, calopsitas, porquinhos-da índia, peixes, patos, pequenos mamíferos e outros animais domésticos e silvestres, mas que a humanidade está invertida, isto sim, está!
Naquele tempo, meu pai já dizia que é fim de mundo. Imagina agora com a inversão de valores onde o ser humano é o que menos importa e interessa, principalmente quando se trata da saúde e da educação. Cachorros e felinos passaram a ser filhos de papai e mamãe. São mais estimados e recebem mais atenção que as crianças, muitas geradas e jogadas nas ruas.
O Senado, com suas bancadas corporativas, acaba de aprovar um projeto-de-lei que institui a guarda compartilhada para animais quando casais decidem se separar. Vai ser um fuzuê danado. Processos vão parar no Superior Tribunal Federal que já tem milhares de casos amontoados dos humanos.
Com tantos problemas neste país no âmbito da corrupção, do narcotráfico, da segurança, da bandidagem de políticos, da saúde, da pobreza extrema, da violência, das injustiças sociais e o Congresso Nacional está mais preocupado com a guarda compartilhada de animais!
Enquanto isso, tem gente que briga para não ficar com os filhos. Pai cai no mundo e larga tudo com a mãe, que se vira nos trinta. Outros jogam nos orfanatos. Confesso que fico irado quando vejo essas dondocas chamarem o cão de meu “filhinho”. “Vem para a mamãe, vem”!
Aqui em Vitória da Conquista, um vereador apresentou uma proposta, e foi aprovada, que os animais domésticos sejam enterrados nos cemitérios ao lado de seus donos, com túmulos e tudo. Não seria mais sensato construir um cemitério próprio?
Dia de finados, com flores na mão, está lá o dono ou a dona chorando pelo “filho” ou a “filha”. “É muito duro e sofrido perder um “filho” logo cedo. O natural é que os pais partam primeiro”. E como ficam o avô e a vó? Vão se sentir de corações partidos e estraçalhados. “Perdi meu netinho e minha netinha. É uma dor muito grande”.











