(Chico Ribeiro Neto)

Atendimento em barzinho novo é igual à presteza de um funcionário novo numa loja: rapidez no atendimento, um desfazer-se em mesuras para segurar o cliente e fazê-lo voltar. Afinal, o negócio está começando e o dono está todo endividado.

Mal você entra e já tem um garçom junto, colado. A mesa está limpíssima, mas ele passa a flanela de novo, gesto que repete nas cadeiras. O dono está de lá, no balcão, e fica logo com uma postura mais ereta. Vê-se logo que ele está pronto para se desdobrar em cuidados.

Sai a primeira cerveja e noto que o dono fala baixinho com o garçom, entregando-lhe o cardápio. Na certa, deve ter dito: “Vá ver se o pessoal ali vai comer alguma coisa, mas sugira também, diga que o caldo de sururu está ótimo e que as lambretas estão enormes, que tem caldo de feijão e que, mais tarde, vai sair muqueca de arraia, comida caseira mesmo, e que o prato é só 40 reais. Se ele esperar, não vai se arrepender, e vá tirando logo aquele vendedor de amendoim de lá, senão o pessoal não come nada”.

A primeira cerveja ainda está pelo meio e o garçom já vem perguntar se a gente quer trocar os copos. O dono está de lá. Vejo logo que ele está fazendo contas. Deve ser a primeira prestação do freezer, a primeira conta de luz que já dá um susto, a cartinha do ECAD que fala em pagamento de direitos autorais, a nota do fornecedor da carne-de-sol, separar 500 reais para o cigarro, que vai chegar amanhã, e mandar consertar o liquidificador, que é novinho e já pifou.

O doido está doido pra se aproximar. Está um pouco mais tranquilo agora, porque há seis mesas ocupadas, e ainda é cedo pra dia de sexta-feira. Arruma algumas cadeiras, dá ordens a outro garçom, afugenta o menino vendedor de ovos de codorna e vai pra porta fumar um cigarro.

Sai a carne-de-sol que pedimos de tira-gosto. A bandeja está tinindo de nova, o paninho de prato vem alvíssimo e o molho, ao lado, está coberto de tempero verde, um festival de coentro e cebolinha.

“Qualquer coisa é só pedir”, diz o sorridente garçom, cujos sapatos pretos foram engraxados hoje mesmo.

A carne-de-sol está gostosa, a farofa foi feita com manteiga mesmo. Daqui a uns dias vão mudar pra margarina, pois a freguesia já estará conquistada.

“O senhor me chamou?”, pergunta o garçom.

“Não, estava só coçando a cabeça”.

Acabamos de pagar a conta. O dono vem anunciar que dispensou os quebrados, e saímos do barzinho recém-inaugurado com os bolsos cheios de folhetos, que têm até um mapinha dizendo como chegar lá.

(Crônica publicada no jornal A Tarde em 26/5/1993)

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