Levanto cedo e fico pensando que a gente era feliz e não sabia. Sem pressa, tomava o café no bule, pilado no pilão da roça, com cuscuz, abóbora com leite, batata doce e outros alimentos sadios do campo. Era tudo preparado de forma artesanal, com muito amor e carinho.

Nesse mundo da tecnologia e dos eletrônicos, têm-se as facilidades das máquinas e dos aparelhos com maior rapidez, mas sem aquela sensação do prazer caseiro. Detesto comida esquentada nesses fornos e chapas elétricos. É tudo industrializado e feito de maneira superficial.

As famílias de hoje não sentam mais juntas na mesa para conversar. Cada um vai chegando com o celular na mão e toma uns goles de café e, em pé, joga uns enlatados na boca, dizendo que já está atrasado. Na correria, nem dá um tchau. Não existe mais aquele calor humano nessas novas gerações.

Tem momentos que preferia ser um mocó e viver dentro da minha loca. Sair só para caçar, com todo cuidado e desconfiança, porque o terreno está minado e infestado de predadores por todos os cantos.

Não era propriamente disso que queria falar, mas uma coisa está entrelaçada a outra. Meu alvo, na verdade, é a superficialidade da vida nessa era tecnológica do invento da internet, das redes sociais e agora com a tal inteligência artificial, ou, como queira, superficial mesmo. Sou mesmo um peixe fora dessa água lamacenta.

A gente abre as redes sociais e só ler, assisti e ouve besteiróis, palhaçadas, dancinhas, gente fazendo coisas horríveis e arriscadas para se aparecer, depoimentos idiotas e outros de ódio e intolerância. Evangélicos moralistas falam barbaridades em nome de Deus, da pátria e da família. Mulheres seminuas oferecem sexo em troca de uns pix.

Por falar nisso, tem rede social que está mais parecendo um brega ou cabaré sofisticado. A prostituição mudou de presencial para virtual, com o nome charmoso de mulheres de programa. As que frequentavam os antigos bregas (ainda existem) eram chamadas de putas. Coisas da nossa sociedade hipócrita.

A corrida frenética é pelas visualizações de seguidores. Criaram o papel do influenciador, que não sei de que. Muitos aproveitam do termo para fazer suas picaretagens, enganar os otários e ganhar muito dinheiro, sem falar nos golpistas que estão sempre de plantão.

Sejam bem-vindos ao mundo superficial das futilidades, mas as pessoas fazem questão de chamar a tudo isso de conteúdo. Se o maluco, ou maluca, faz um vídeo enchendo a boca de insetos, espuma de sabão ou merda, diz que se está produzindo conteúdo.

O importante é chamar a atenção como prova de mostrar sua existência. “Olhem, eu estou aqui e existo”! Em geral, as pessoas no mundo de hoje têm uma necessidade vital de se aparecer na imagem, não importa se nu ou cheio de melecas. Seria o vazio existencial?

Se vivo fosse, como Freud analisaria os comportamentos modernos, as indiferenças e as atitudes individualistas? Acho que ele teria que queimar muito de seus neurônios para interpretar esse nosso mundo superficial. O que Nietsche e outros filósofos pensadores diriam?

Agora está aí a inteligência artificial e já disseram que ela vai superar a humana. Oh, como assim? Quem sou eu para afirmar que ela também é superficial! Os doutores da técnica garantem que ela é revolucionária e é muito benéfica para a humanidade. Outros que a bicha é pavorosa. Será que não estamos criando monstros para nos devorar?

Dia desses um amigo me pediu um texto sobre fotos antigas de Vitória da Conquista. Para me auxiliar na tarefa, ele me enviou uma “redação” tirada da IA. Li todo e confesso que perdi meu tempo porque achei uma porcaria, sem nexo e sequência lógica, um fraseado solto com algumas pitadas de emoção artificial e superficial.

O mundo está bem mais desumanizado e alienado. Os exemplos estão aí para nos comprovar. Aliás, já estamos sendo engolidos e nem notamos porque não damos mais conta de pararmos para refletir. Pensar e criticar ficaram para trás. Nos encantamos pela pílula dourada da tecnologia que tem o poder de nos hipnotizar.

A impressão é que estamos sofrendo de uma espécie de oligofrenia coletiva, de fraqueza mental e debilidade à idiotia. As classes mais oprimidas, como os negros, as mulheres, LGBTs e os mais pobres apoiam os brutos racistas, homofóbicos, misóginos e nazifascistas que em nome do seu Deus xingam e repudiam justamente estes que lutam pelos seus direitos e por justiça social.