:: 20/fev/2026 . 23:57
“O MUNDO ESTRANHO DOS CANGACEIROS”
Numa descrição poética do árido do sertão nordestino, o professor e escritor Estácio Luiz Valente de Lima, em seu livro “O Mundo Estranho dos Cangaceiros”, coloca estes personagens como produto das agressões mesológicas, do solo castigado pelas estiagens das secas repetidas, mas não descarta outros fatores que contribuíram para o surgimento do cangaço, como a injustiça social.
No capítulo de abertura sobre “O Meio”, ele diz que “o clima, no império dos bandoleiros, é um clima áspero, esse mesmo que prossegue desafiando a técnica e a inércia dos nossos governos e diante do qual falazes têm sido todas as ajudas internacionais”.
Sua linguagem é dura como o chão rachado pelo sol inclemente que deixa o sertanejo endurecido e o transforma, muitas vezes, numa alma cruel, ao ponto de perder as esperanças em determinados momentos da vida.
Com sua visão da poligenia nordestina, com sua multiplicidade de raças, o médico, odontólogo e presidente do Conselho Penitenciário da Bahia, no final dos anos 30, Estácio de Lima penetra fundo no psicológico do cangaceiro ao ponto de se colocar como advogado em defesa da sua regeneração.
Na prática, como presidente do Conselho, Estácio controlou a vida de muitos cangaceiros presos que pertenceram ao bando de Lampião, depois da sua morte, em 1938. A prefaciadora da sua obra, professora Maria Thereza Pacheco, relata que o mestre acompanhava seus afazeres e mantinha permanente contato com eles.
Muitos foram trabalhar em hospitais de Salvador, na condição de vigias. O lugar-tenente de Lampião, o Ângelo Roque, conhecido como Labareda, tornou-se porteiro do Conselho Penitenciário, no Fórum Ruy Barbosa. Outros também exerceram a mesma função no Instituto Médico Legal Nina Rodrigues, como o Benício, chamado de Saracura.
A professora conta que Estácio encontrou dificuldades para indultar o cangaceiro Antônio dos Santos, vulgo “Volta Seca”, que entrou no grupo ainda criança, e entre os 14 e 15 anos, obedecendo ordens do capitão, executou três soldados que estavam montando guarda na cadeia de Queimadas (Bahia). Foi capturado depois pela polícia e condenado a cem anos de prisão.
Após 20 anos de pena, mesmo tendo tentado evadir-se da cadeia, Estácio de Lima defendeu a sua liberdade, se colocando como responsável. Além de “Volta Seca”, o presidente do Conselho, após estudos minuciosos sobre os condenados, escreveu ao presidente da República, Eurico Gaspar Dutra, solicitando o livramento condicional.
Mesmo temeroso, o presidente aceitou o pedido, mas colocou sobre os ombros do mestre toda capacidade de responder pelos atos dos cangaceiros então em liberdade. De acordo com a professora Thereza, na época, o fato foi noticiado com muita admiração ao mestre em todo Brasil.
Ela escreveu no prefácio que Estácio foi um pioneiro no estudo multifário do cangaceirismo no Brasil. Cita que o autor do livro faz uma interessante síntese associativa entre os italianos que se rebelaram em grupos a jeito dos rebeldes como os homens do cangaço nordestino, estudando a personalidade e o meio em que viveram.
Em sua obra, Estácio faz também uma comparação com os gângsteres, os homens do faroeste, concluindo que eles não dariam jamais o cangaceiro. “O meio tem sua influência maior”. Sobre a lei para o sertanejo e o nordestino, o médico afirma que “o mais forte prosseguia, com as garantias do seu poder, e os fracos, pobres e desamparados, defender-se-iam como pudessem”!
“A primeira atitude humana contra as ações nocivas do agressor trazia um aspecto negativo, tão indisciplinado nas cavernas, quanto nas catingas. O revide, a pouco e pouco, é que foi perdendo o caráter das ações arbitrárias, individuais, para tornar-se coletivo, num esboço de legalidade”- destaca o autor.
Em sua opinião, o elemento telúrico explica, em parte, o cangaceiro brutal e cruel como a seca. O cangaceiro, segundo Estácio, “possui assim, aquelas características do homem das cavernas…”
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