fevereiro 2026
D S T Q Q S S
1234567
891011121314
15161718192021
22232425262728

:: 16/fev/2026 . 21:47

O CARNAVAL QUE PASSOU

Na suadeira do carnaval entro com minha fantasia de excluído de pano encardido, no peito escrito “Fora a Corrupção” e nas costas os dizeres “Por Justiça e Igualdade Social”. Na mão carrego um cartaz que fala do carnaval que passou.

Sou um velho solitário no meio da multidão. A grande maioria nem viu a minha passagem. Muitos acharam meu traje engraçado e só poucos entenderam minha mensagem. Fui até alvo de algumas fotos feitas por uns gringos que acham tudo exótico e pulam com aquele jeito desengonçado, com o sotaque de que o Brasil e a Bahia são maravilhosos. Aliás, tudo é maravilhoso!

No Pelourinho, no Terreiro de Jesus e na Praça da Sé ainda vejo algumas bandas tradicionais de samba e pagode. O Olodum faz aquele barulho ensurdecedor com seus tambores. No palco, algumas músicas que lembram o carnaval que passou. A partir da Rua Chile, o cenário vai mudando e a Praça do Poeta Castro Alves não é mais do povo como o céu é do condor.

Não mais Dodô e Osmar na fóbica com Armandinho, Morais Moreira, Luiz Caldas, Caetano, Gil, o autêntico Trio Tapajós, os blocos sem corda (Os Internacionais, Jacu) e os amigos no Clube de Engenharia tocando violão, confabulando ideias e enchendo a cara e a cuca com lança perfume.

Procurei em vão a Colombina e o Pierrô. Não mais aquelas marchinhas de carnaval, “Ô Abre Alas, que Eu Quero Passar”… (a mais antiga de Chiquinha Gonzaga); “Mamãe eu Quero, Mamãe eu Quero, Mamãe eu Quero Mamar…”; “Aurora, Oôôô, Aurora”; “Você Pensa que Cachaça é Água”…; “Chegou a Turma do Funil”…; “Me dá um Dinheiro Aí, Ei, você aí, me dá um dinheiro aí…”

Cadê as famílias com seus idosos, mulheres e crianças sentadas em suas cadeiras nas calçadas da Avenida Sete de Setembro para ver os cordões e as marchinhas passarem? Das janelas não mais confetes de papel (eram os camarotes). Todos brincavam em clima fraternal, sem violência e empurrões. As bandas eram um sucesso juntamente com os blocos de índios e os afros.

Por falar nisso, o carnaval tem suas raízes históricas no período colonial, tornando-se uma festa altamente lucrativa a partir da segunda metade do século XX, nos anos 80 e 90. O entrudo era praticado pelos escravos que saiam pelas ruas com seus rostos pintados, jogando farinha e bolinhas de água de cheiro nas pessoas.

Foram-se as guerras de cascas de ovos, de milho e feijão. Haviam até vassouradas e colheradas de pau, mas tudo são coisas de outrora, no carnaval que passou, que era bem mais inclusivo. Tudo se tornou lucrativo, e a festa num comércio concentrador de renda onde o rico fica mais rico e o pobre mais pobre.

Do Campo Grande desci até a Barra, Barra Avenida e Ondina. Nesse circuito maluco, barulhento e infernal de trios elétricos, que não são mais trios, e sim bandas de cantores com músicas de letras lixo de uma só estrofe repetitiva, foi onde senti a saudade bater mais forte no coração daquele carnaval que passou.

Uma tremenda loucura, meu camarada! Coisa de doido! Fui trucidado pelo empurra-empurra dos “pipocas” e lá se foram minha pobre fantasia e meu cartaz. A camisa em formato de abadá foi rasgada. As frases perderam o sentido. Ninguém está ali para ouvir ou ler protestos! Basta o circo!

Para não ser esmagado, encostei num canto de um barraqueiro e o senhor e a mulher com seus filhos pequenos nem me viram. O suor caia de seus rostos de tanto andar de lá para cá para atender a turba. Sempre atentos para não serem passados para trás pela malandragem que leva a cerveja na “mão grande”.

Aquelas pessoas dormem praticamente sujos durante mais de uma semana no cimento daquelas barracas de bebidas e comidas para no final ganhar uns míseros trocados. De lá debaixo do asfalto espiei aqueles camarotes de luxo frequentados por ricos, celebridades e famosos. Muito conforto, curtições e bacanais. Os “trios” berram na frente deles na disputa para ver quem mais ganha. Todo conjunto compõe o palco das desigualdades sociais. É tudo misturado e separado.

Sem forças para prosseguir, aos poucos fui me desviando das brigas, dos furtos de celulares e dos soldados embrutecidos metendo o cassete nos “arrastas chinelos”. O “pau comeu”, enquanto os “puxadores” das muvucas gritavam em tom de ordem para todos tirarem o pé do chão. Os súditos obedeciam no rebolado dos passinhos com as mãos para o alto.

Fui cortando em meio à aquela parafernália para sair lá pelo Rio Vermelho. No roteiro vi a banda “Baiana Systen”, que prega o antirracismo, tocando no camarote Premium, o mais luxuoso que invadiu terrenos na praia com enormes tapumes.

A mídia joga toda sujeira e a violência debaixo do tapete. Os políticos, lá do alto de seus camarotes, são ovacionados pelos músicos que dizem que tudo é de graça. Todos acreditam. Tudo se inverteu. Foi-se o carnaval que passou. Agora é só deles, dos poderosos.





WebtivaHOSTING // webtiva.com . Webdesign da Bahia