O livro de Laurentino Gomes, “ESCRAVIDÃO” mostra curiosidades do tráfico negreiro, muitas das quais de horror, mas que precisam ser conhecidas por historiadores, estudantes e todos brasileiros sobre o que aconteceu nos quase 350 anos de escravidão no Brasil.

Em prosseguimento aos relatos do autor, vamos destacar alguns deles sobre os sofrimentos dos negros no cativeiro:

A ESCRAVIDÃO, A IGREJA E A LEI ÁUREA

Treze de maio é o Dia da Lei Áurea e, sobre a data, a maioria dos movimentos negros não reconhece. Prefere homenagear Zumbi dos Palmares no 20 de novembro, Dia da Consciência Negra. Alega que a princesa Isabel só fez assinar um documento e nada em termos de reparação dos danos de 350 anos de escravidão, o que, em parte, é uma verdade. No entanto, ela bem que tentou, mas D. Pedro II sempre foi pressionado pelas oligarquias da cafeicultura e outros setores da economia que se posicionaram contra qualquer tido de indenização. As elites nunca aceitaram repartir e distribuir.

O jornalista e escritor Laurentino Gomes fala muito dessa questão em sua obra “ESCRAVIDÃO” em três volumes. No primeiro, em um trecho do seu livro ele tece comentários sobre a Igreja Católica, a qual sempre tomou partido favorável à escravidão e, em algumas vezes, seu posicionamento quanto ao tema era dúbio.

“Só em 1888, às vésperas da assinatura da Lei Áurea, o papa Leão XIII condenou a prática de forma inequívoca. São inúmeros os exemplos da íntima associação que, a partir dessas bulas papais, se estabeleceu entre Igreja, o tráfico de escravos e o Reino de Portugal. Em 1482, ao final da construção do Castelo de São Jorge da Mina, atualmente Gana, destinado ao comércio de cativos, o papa Sisto IV concedeu indulgência plenária a todos os cristões que ali falecessem a serviço da coroa portuguesa”.

Laurentino comenta mais na frente que, o simples fato de morrer no castelo do tráfico negreiro lhes garantia o total perdão dos pecados e a garantia da vida eterna. Descreve o autor que na África, as instituições religiosas possuíam e comercializavam escravos com a mesma naturalidade de qualquer outra empresa ou associação dedicada ao tráfico. Em Angola, por exemplo, os jesuítas tinham, em 1558, mais de 10 mil escravos trabalhando em seus quinhentos sítios e fazendas, de acordo com o relatório do governador João Fernandes Vieira enviado à coroa portuguesa.

Segundo o historiador Roquinaldo Ferreira, no começo do século XVII, a Companhia de Jesus era a maior proprietária de escravos de Angola. Da mesma forma, instituições religiosas ganhavam muito dinheiro vendendo escravos para o Brasil. Um outro resíduo da trágica história da Igreja relacionada à escravidão africana é o preconceito racial. Conforme a historiadora Larissa Viana, a Ordem dos Carmelitas Descalços Teresianos, estabelecida em Olinda, em 1686, manteve a mais rigorosa e persistente contra pessoas de alguma descendência africana, mesmo que longínquo.

Como pregava o padre Antônio Vieira, os pardos eram quase sempre malcriados e foram banidos do colégio porque as famílias brancas não toleravam ver seus filhos ao lado de pessoas de vil e obscura origem, de costumes corrompidos e com audaciosa soberba. Acrescentava que por esta razão, nesta costa do Brasil, já lhes está totalmente fechado o ingresso ao sacerdócio e aos claustros religiosos e a qualquer função governativa.

De acordo com o autor das obras “Escravidão”, “a pureza de sangue do seminarista tinha de ser provado por meio de inquérito judicial para apurar se pais e avós de ambos os lados estavam isentos das tais máculas raciais, ou “sangue defeituoso”, e aí estavam também incluídos os judeus. Os estatutos da Ordem Terceira de São Francisco, de Mariana (MG), determinavam que todo candidato à confraria teria de ser de nascimento branco legítimo…”

Não entendo essa quizila toda dos movimentos negros contra a princesa Isabel que sempre foi defensora da abolição e concedeu centenas e milhares de cartas de alforrias. Com a Igreja Católica, existe hoje um sincretismo religioso entre o candomblé e o catolicismo, sem ranços raciais, talvez por consciência pesada pelo que cometeu de maldades no passado.

Contra a Igreja não existe essa renegação, como contra o 13 de maio. Na época, final do século XIX, o próprio Ruy Barbosa, ministro da Fazenda, por pressão dos fazendeiros e empresários em geral, mandou para a fogueira vários documentos para evitar pedidos de indenização por parte dos escravos, que nunca receberam seus direitos por trabalharem séculos debaixo da chibata. A escravidão no Brasil, na verdade, não acabou, e está aí mais que visível nos fatos do dia a dia, principalmente com a reforma trabalhistas, que está mais para reforma escravista.