A FIDELIDADE DE UM POLÍTICO
Albán González – jornalista
O brasileiro comum tem o direito de escolher os seus candidatos, sem necessidade de justificar seu voto, mesmo que seja dado de forma leviana e inconsciente, colocando tiriricas, escadinhas e fernandinhos nos gabinetes governamentais e casas legislativas. Àqueles que só são lembrados em época de eleições não lhes é dado o direito, expresso na Constituição de 1988, de exercer plenamente a cidadania. Negam-lhe a faculdade de ter acesso à educação, saúde, lazer, segurança, emprego e moradia.
Essa prática nociva, que contamina nossas instituições, não deve ser referendada pelo brasileiro que ocupa um cargo público; que se coloca na condição de líder de uma comunidade.
Refiro-me a um episódio ocorrido no último dia 18, aqui, em Vitória da Conquista. Participando de um encontro do seu partido, o MDB, Herzem Gusmão reiterou seu apoio incondicional, na condição de chefe do Executivo local, ao emedebista Lúcio Vieira Lima, candidato, mais uma vez, à Câmara dos Deputados.
Nas fotos, o prefeito segura um cartaz, onde dois dedos (polegar e indicador) fazem um “L”, imitando, coincidentemente, acredito, a mesma letra do alfabeto usada pelo Movimento Lula Livre. Os dois sobrenomes do candidato são omitidos, por motivos óbvios.
Como escrevi na abertura deste comentário, o cidadão Herzem Gusmão tem plena liberdade para escolher seus candidatos nas eleições de outubro. Mas, como a principal personalidade hoje deste município, elevado a um cargo de gestor pela maioria dos seus moradores, surpreende-me ver o nobre alcaide “tomar o bonde errado”, indicando para seus conterrâneos o nome de um Vieira Lima.
Essa decisão extemporânea de Herzem vai de encontro aos interesses de alguns dos políticos locais, que já lançaram seus nomes à Câmara Federal. Alguns deles, ao que me parece, integram a bancada de sustentação ao prefeito na Câmara de Vereadores.
Será que Herzem não tem acompanhado o noticiário político-policial da imprensa nacional? Vou avivar-lhe a memória: no dia 5 de setembro de 2017 a Polícia Federal encontrou num apartamento em Salvador a soma de R$ 51 milhões – as fotos das nove malas e caixas se tornaram a marca da corrupção no país. No material periciado havia impressões digitais dos irmãos Geddel e Lúcio.
Sem imunidade, Geddel foi “morar” no Presídio da Papuda, no Distrito Federal. Já o mano Lúcio, “blindado” pelo mandato, tem conseguido evitar seu julgamento pelo Conselho de Ética da Câmara, por suposta quebra do decoro parlamentar. Além de não haver interesse dos membros do colegiado, que se acham fora de Brasília, em busca da reeleição, Lúcio não tem sido encontrado – houve cinco tentativas – para receber a notificação.
A família Vieira Lima (a mãe Marluce e os filhos) tornou-se ré no Supremo Tribunal Federal (STF), depois de analisada a denúncia feita pela Procuradoria Geral da República (PGR). O trio responde às acusações de lavagem de dinheiro e associação criminosa, além do emprego de dois assessores parlamentares em serviços domésticos, no apartamento de Marluce, no bairro do Chame-Chame, em Salvador.
Nos primeiros dias do seu governo Herzem Gusmão escolheu seus padrinhos políticos, os Vieira Lima e o presidente Michel Temer. Depois que a PF descobriu o “bunker”, no bairro da Graça, o nome de Geddel não foi mais mencionado pelo prefeito. Anunciada em várias ocasiões, a visita presidencial a Vitória da Conquista ficou apenas na promessa, mas o prefeito permanece entre os 10% dos brasileiros que apoiam Temer.
Nas hostes do MDB baiano tem candidatos que não querem ver os Vieira Lima nos seus palanques eleitorais. Um deles é João Reis Santana Filho, que se irritou ao ser questionado num debate na Rádio Sociedade da Bahia sobre sua relação com Geddel e Lúcio. “Nada tenho a ver com as malas. É problema deles. Sou ficha limpa. Fui ministro de Lula. Saí incólume. Lula está preso e eu estou solto”, respondeu o candidato emedebista ao governo baiano.
A fidelidade (qualidade rara entre os políticos) de Herzem é pouco comum nos dias atuais, reconhecida pelo próprio Lúcio, ao declarar recentemente que “somente Herzem me deu crédito”, no momento em que as portas se fecham para ele. A resposta do eleitorado conquistense ao seu prefeito se dará no dia 7 de outubro após o fechamento das urnas.











