A miséria e as injustiças sociais no Nordeste, a vingança entre famílias, o poder dos latifundiários, o domínio dos chefes políticos e as secas foram os principais fatores que deram origem à violência e ao cangaço. Afinal, o homem é produto do meio.

O cangaço não tinha ideologia política definida de tendência esquerdista comunista. Seus membros eram desprovidos dessa noção revolucionária. Os bandos, especialmente os chefiados por Lampião, eram exímios guerrilheiros das caatingas, mas não revolucionários, com propósito de derrubar o poder constituído.

   Antônio Silvino, o “Rifle de Ouro” (1875-1944) foi um bandoleiro sanguinário que entrou no cangaço movido pela morte do pai e as brigas entre proprietários de terras; Jesuíno Brilhante (1844-1879), o primeiro cangaceiro, tido como “romântico” (Robin Hood do Sertão), roubava dos coronéis para ajudar os famintos da seca; Sinhô Pereira (1896-1979), de família rica e nobre,  ingressou por vingança na briga entre os Pereira e Carvalho; e Lampião (1898-1938) foi instigado a entrar no cangaço pela perseguição do fazendeiro José Saturnino à sua família.

  Nenhum, aparentemente, possuía motivos ideológicos políticos no sentido de lutar para derrubar os poderosos e protestar contra a opressão imposta aos sertanejos, abandonados pela ausência dos governantes, embora suas ações revelassem formas de revolta e rebeldia contra estes senhores. Deles o banditismo tirou proveito para si, cada um usando suas razões individuais para fazer fortunas.

  No entanto, a esquerda daquela época, tendo como expoente Luis Carlos Prestes, e ainda muitos nos tempos atuais, via e vê o bando de Lampião como guerrilheiros revolucionários enfrentando o Governo em defesa dos sofridos camponeses.

Talvez por desconhecimento ou estratégia para reforçar suas tropas, os revolucionários tentaram incorporar os cangaceiros às suas forças. Um grupo isolado chegou a formar um bando, mas fracassou. Dentro do contexto do Nordeste daquela época, messiânico e religioso, era difícil introduzir uma doutrina revolucionária socialista.  Padre Cícero, o senhor do sertão, era inimigo número um de Prestes que poderia ter sucesso se os cangaceiros o seguissem.

  Em 1926, durante sua passagem pelo Nordeste, a Coluna Prestes “paquerou” o “rei do cangaço” várias vezes com seus bilhetes para que ele se engajasse às suas causas, considerando que Lampião também era um guerrilheiro revolucionário e podia derrubar o poder.

Até pelo seu baixo nível de instrução, o bandoleiro não tinha ideia dessa essência ideológica política de Carlos Prestes. Ele foi sendo empurrado pela violência nordestina. Tornou-se cangaceiro cruel não para tirar a pobreza da miséria em que vivia. Não tinha ideais socialistas e usou toda sua força para extorquir políticos e grandes proprietários, inclusive do comércio.

Antônio Silvino, por exemplo, foi o único cangaceiro a atacar os senhores de engenho do litoral nordestino. Todos eles fizeram suas fortunas que depois caíram nas mãos dos soldados e oficiais corruptos. Repartiam migalhas com os pobres para obter deles a admiração como heróis.

Lampião e seu bando, influenciados pelo deputado Floro Bartolomeu e o Padre Cícero, o “Padim Ciço” , inimigos ferrenhos dos comunistas, entraram nos “Batalhões Patrióticos” para combater a Coluna, em troca do título fajuto de “capitão” e dos armamentos.

  Quando a Coluna Prestes se debandou para a Bolívia e Prestes fugiu para Moscou, na Rússia, ele passou a ideia aos bolchevistas de que Lampião e seus cangaceiros poderiam ajudar a fazer a revolução no Brasil pela força que exerciam na região e esta ideia perdurou até a Intentona Comunista de 1935.

  As cabeças decapitadas de Lampião, Maria Bonita e muitos de seus cabras, mortos no combate de Angico, em 1938, ficaram por um tempo em Maceió e depois foram transferidas para o Instituto Nina Rodrigues, em Salvador.

  Em 1959, conforme assinala a jornalista e escritora Adriana Negreiros em sua obra “Maria Bonita”, os jornais dos Diários Associados promoveram uma campanha pelo sepultamento das cabeças, somente ocorrido em 1969.

  Essa campanha contou com figuras ilustres da esquerda, a exemplo do deputado estadual Francisco Julião, de Pernambuco, líder das Ligas Camponesas, movimento em prol da reforma agrária que nunca aconteceu no Brasil.

 Chocado com o que vira em Salvador, em sua visita ao Museu Antropológico Estácio Lima, o deputado Julião defendeu o enterro das cabeças, sobretudo pelo respeito que lhe inspirava a figura histórica de Lampião, para ele, o primeiro homem do Nordeste, oprimido pela injustiça dos poderosos a batalhar contra o latifúndio e a arbitrariedade. Em sua opinião, o cangaceiro chefe foi símbolo de resistência política.

  Interessante que o grande historiador inglês (nasceu em Alexandria, no Egito e viveu na Áustria e Alemanha) Eric Hobsbawm (1917-2012), marxista convicto, em seus escritos, fazia esta mesma leitura em relação a Lampião e outros bandoleiros famosos que agiram em outros países. Hobsbawm os incluía na lista de revolucionários que se levantaram e protestaram contra as injustiças do sistema capitalista.