Cleonice ainda brincava de boneca quando casou com Waldemar aos 16 anos. Teve quatro filhos: Luiz, José Carlos, Cleomar e eu.
Nasci em Ipiaú (BA) em 1948. A família veio de lá para Salvador uns 6 a 7 anos depois.
Waldemar e Cleonice arrendaram uma pensão, um velho casarão na Avenida Sete de Setembro, 239, defronte ao Colégio das Mercês. Hoje só resta a fachada do velho casarão.
Depois, Waldemar labutou com armazém na Rua da Imperatriz, na Cidade Baixa, onde também moramos. Cleonice voltou a arrendar um pensionato num casarão da Rua Gabriel Soares, 33 (Ladeira dos Aflitos) por volta de 1958, enquanto Waldemar levava coco seco de caminhão para vender em São Paulo, retornando com uma carga de confecções.
Dona Cleonice tomava conta da pensão, que tinha uns 25 hóspedes, com muita energia. Tinha um empregado que cuidava da limpeza e fazia as compras diárias (não havia freezer e as geladeiras eram pequenas) na feira do Largo 2 de Julho. Eram 5 quilos de carne por dia. Trabalhavam ainda uma cozinheira e uma copeira.
Numa luta de 10 anos à frente do 33 Cleonice enfrentou de tudo. Desapartou uma briga de espadins entre dois universitários concluintes do curso do Centro de Preparação de Oficiais da Reserva (CPOR), do Exército. Eles iam se formar no dia seguinte e levaram os espadins para a pensão, onde começou uma briga.
Teve um hóspede que fugiu de madrugada pela janela do primeiro andar do casarão, usando uma “teresa”, corda feita com lençóis, e deixando três meses sem pagar e uma mala cheia de roupa velha.
Depois de velha, Cleonice costumava dizer na minha presença: “Chico ficou assim perdido porque não tive tempo de tomar conta dele”. Ela sempre achou tempo para cuidar da minha asma e das coceiras.
Praia do Unhão, só depois de terminar o dever. Uma vez fui pescar nas pedras do Unhão e perdi o horário. Quando deu uma da tarde, Cleonice desceu a encosta do Unhão e começou a me gritar. Ela dobrou meu dedo mindinho e fomos assim até em casa.
Costumava dizer: “Chiquinho foi o que menos apanhou lá em casa”.
Já viúva e mais velha, dona Cleonice foi morar em Aracaju junto aos filhos Luiz. Zé Carlos e Cleomar. Morreu em Aracaju com 86 anos.
Em Salvador, onde trabalhava em dois lugares, sem tempo pra nada, fiquei uma vez uns 15 dias sem ligar pra ela. Aí ela me liga:
“Como vai você? Tá Tudo bem?”
“Tudo bem, velha”.
“Você não está nem gripado?”
Ela sentia saudades de Salvador, mas costumava dizer: “Não sei por que em Salvador tem tanta lavagem e a cidade só anda fedendo!”
Gostava de citar alguns ditados populares: “Água e conselho só se dá a quem pede”. Quando via alguém que era pobre e ficou rico e metido a besta, dizia: “Quando não chovia onde é que nambu bebia?”
Andava meio ressabiada com a Igreja Católica, decepcionada com os casos de corrupção e abuso sexual. Tinha simpatia pelo espiritismo e achava-se vidente. Uma vez, de madrugada, ela estava no interior e acordou com uma dor terrível no polegar direito. Não havia ferimento algum no dedo. De manhã, chegou Luiz de viagem, com um panarício enorme no polegar direito.
Ela dava a receita de como se livrar de uma visita chata: “Você concorda com tudo que a pessoa fala. Ela se cansa e vai logo embora!”
Dona Cleonice lia muito depois que deixou a vida de dona de pensão. Gostava de ouvir música e ficou encantada com “Roda Viva”, de Chico Buarque, em 1967. Cleomar comprou o disco compacto com “Roda Viva”. Cleonice ouviu três vezes e depois disse a Cleomar: “Agora eu já sei o que é curtir”.