ACABARAM COM O SÃO JOÃO DE CONQUISTA
Enquanto estiver vivo vou levantar minha voz; soltar o meu desabafo da garganta; e espalhar o meu clamor contra a descaracterização do nosso São João, ou o forrobodó, símbolo maior da nossa cultura nordestina, que tanto já nos deu alegrias, conhecimento e saber popular.
Sei que sou uma voz no deserto, mas não me cansarei de gritar. Fico triste porque sempre foi minha festa predileta desde aquelas festas na roça, com todas suas tradições de pular fogueira onde as pessoas se tornavam compadres; comer milho assado, canjica, pamonha e derivados da mandioca.
Não me importa qual seja o partido, prefeito ou prefeita, secretário ou secretária estejam no poder, lá estarei para contestar e protestar contra aqueles que transformaram nossas festas juninas num palco de proselitismo político, principalmente em tempos eleitorais, tudo para atrair as massas cada vez mais alienadas, que deveriam ser instruídas para não deixar morrer a nossa memória de pertencimento cultural.
Nos últimos anos, os nossos dirigentes tiveram a proeza de definhar e acabar, aos poucos, com o São João autêntico, tipo Pé de Serra, de Vitória da Conquista. Agora são shows pirotécnicos de megas bandas de outros ritmos, ao peso de altos cachês, como Safadão, Thierry, Calipso, da cantora Joelma, e tantas outras que nada têm a ver com o nosso forró.
O pior é que o nosso São João foi privatizado, mas o dinheiro continua sendo o nosso. Os ricos nos camarotes e a plebe lá embaixo. Tornou-se uma festa excludente, mesmo de portões abertos.
Para tapear e iludir os menos esclarecidos, no meio das festanças extravagantes, colocam alguns cantores e bandas que ainda representam a nossa identidade, mas, o maior peso são os shows dos milhões. Na verdade, os forrozeiros autênticos foram transformados de personagens protagonistas para simples coadjuvantes.
Estou falando de Vitória da Conquista porque se trata da minha aldeia onde a cultura está sendo jogada no lixo e nossos artistas locais, incluindo todas as linguagens em geral, estão sendo tratados como coisas de menor valor. O cachê de uma Joelma, por exemplo, daria para contratar mais de 50 bandas da região.
Não sei quantos milhões vão custar o nosso São João, e ouvi dizer que tem recursos do Governo do Estado, mas isso não importa porque a fonte desse dinheiro pertence ao contribuinte. Enquanto isso, permanecem fechados, sendo destruídos pela poeira do tempo, os nossos valiosos equipamentos culturais, como Teatro Carlos Jheovah, Cine Madrigal e a Casa Glauber Rocha. Agora temos a Carreta da Cultura, mas nunca vai substituir nossos centros.
Conquista já teve fama de cidade cultural, isto pelos idos dos anos 50,60 e 70, e não adianta aqui citar nomes que foram ícones nacionais e internacionais, porque temos que viver a realidade dos nossos tempos e encarar que perdeu esta sua pluralidade cultural.
Voltando à vaca fria, como diz o matuto tabaréu, nos últimos anos, na época das festas juninas, passou a existir uma disputa acirrada entre as maiores cidades nordestinas, para ver quem contrata as bandas de arrocha, sertanejas, de pagodes, lambadas, de axés e sofrências mais caras do país, somente para competir quem atrai mais público e ganha mais votos.
Além dos altos custos, quando a maioria das cidades está destruída pelas fortes chuvas (passei em várias delas e vi a situação), muitos prefeitos e prefeitas superfaturam e desperdiçam nosso suado dinheiro dos impostos. Alô Ministério Público, tribunais de contas e outros órgãos fiscalizadores!
Para completar esta bagaceira anticultura, aparece a mídia televisada, falada e escrita que também leva uma boa grana como anunciantes, para divulgar as festas e apelar ao povo que compareça aos shows porque são grátis.
Isto é uma grande fake news e um desserviço à opinião público. Nada que vem dos governos é de graça. É mais uma disputa entre quem mais mente na propaganda. Mesmo que tenha um patrocinador, aqui ou acolá, lá está o nosso dinheiro para pagar os famosos ricos, enquanto nossos artistas locais estendem suas cuias em pequenas apresentações em bares e restaurantes.
Deveria ter uma lei federal rígida, onde em festa junina, só forrozeiro, comprovadamente autêntico com anos de estrada, poderia tocar sua sanfona, seu zabumba e seu triângulo. Houve vários movimentos neste sentido, mas a força política interesseira desprezou e engavetou os apelos incessantes dos artistas.











