Sempre se soube pela história que Lampião, Maria Bonita e mais nove de seus companheiros foram mortos pela Volante do tenente João Bezerra, na Gruta de Angicos, em Sergipe, em 28 de julho de 1938, mas há controvérsia, caro mestre, como dizia um aluno da Escolinha do professor Raimundo, ou do humorista Chico Anísio.
No mundo do cangaço, este assunto até hoje não foi totalmente esclarecido pelos historiadores, pesquisadores, jornalistas e escritores. Não existe nenhuma prova científica de que a cabeça que ficou exposta no Instituto Nina Rodrigues, em Salvador, era mesmo de Lampião.
Existem sim, várias versões e uma das quais é que o “rei do cangaço” teria ele mesmo tramado um envenenamento dos seus cabras, Maria Bonita ficado com um cangaceiro, possivelmente Luis Pedro, e depois fugido para Goiás onde morreu aos 83 anos.
Esta é a mais esdrúxula de todas, mas outras falam que todos foram envenenados através de garrafas de bebidas pelo seu coiteiro de confiança Pedro de Cândida, o delator, a mando do João Bezerra.
Na véspera, um cabra teria alertado que haviam furos de agulhas de seringas nas tampas e que Lampião não deu a devida importância para o caso. Outra foi de que a própria Maria Bonita colocou veneno num pote de água.
Na época, e até nos tempos atuais, no psicológico dos sertanejos não entra a história de que as volantes tenham abatido Lampião e seu bando com tanta facilidade. A partir da sua fama de invencibilidade e de ter o “corpo fechado”, Lampião não se deixaria ser pego de surpresa do jeito como foi contada sua morte.
Para muitos testemunhos, que inclusive viram sua cabeça um tanto esfacelada, aquele crânio não era de Lampião, mesmo mostrando o olho embranquecido.
Poderia ser de outro que também tinha problemas com as vistas. “Essa não é a cabeça de Lampião” – disse um sertanejo morador de Piranhas, município de Alagoas, do outro lado do Rio São Francisco.
Outro argumento é o de que Lampião sempre foi um sujeito precavido, não confiava em ninguém e, quando estava num esconderijo, colocava sentinelas para vigiar qualquer movimento em redor. No massacre de Angicos, não havia guardas, e as volantes tiveram campo aberto para metralhar os cangaceiros.
Esse debate foi aberto pela escritora Élise Grunspan-Jasmin em sua obra “Lampião – Senhor do Sertão”. Ela escreve que “a partir dos anos 50, começou a ganhar corpo um boato ao qual muitos autores, testemunhas e jornalistas emprestaram certo crédito: Lampião não morrera sob balas da polícia, mas envenenado na véspera”.
Foi descoberto que o tenente João Bezerra era um corrupto, inclusive coiteiro e traficante de armas para Lampião. Ao saber disso, seus chefes oficiais teriam lhe dado um ultimato para que ele desse cabo de Lampião ou seria punido com prisão ou expulso da corporação militar.
A autora Élise descreve que “em carta que mandou publicar no Diário de Pernambuco, de 19 de setembro de 1952, Manuel Neto, que dirigiu uma das mais importantes Forças Volantes de Pernambuco (um dos nazarenos que sempre perseguiram o “rei do cangaço”), afirma, no entanto, que João Bezerra mandara envenenar Lampião. O coronel José Alencar de Carvalho também admite o mesmo.
Comentam também que os nazarenos, comandados pela família Flor Ferraz, nunca se conformaram de ter sido João Bezerra o mentor da morte de Lampião e que, por isso, espalharam esses boatos. A vitória de João Bezerra foi vista pelos nazarenos como uma vitória nacional que os privava do privilégio de resolver um contencioso entre dois clãs restritos ao seu território: O Sertão do Pajeú.
O oficial Optato Gueiros, escritor sobre o cangaço e um dos grandes adversários de Lampião, por outro lado, não acredita na hipótese de envenenamento, mas concorda quanto ao caráter estranho das circunstâncias da morte de Lampião e seus companheiros. Ele procura um lógica naquilo que não foi propriamente um combate