:: jul/2020
TEMPOS DE RETROCESSOS E NEGAÇÕES QUE NOS DEIXAM TRISTES E DEPRESSIVOS
Quando olhamos para o passado de quase 100 anos atrás e vemos nítidas semelhanças de comportamentos negacionistas da ciência das pessoas com relação à pandemia da gripe espanhola e a atual Covid-19, quando vemos o meio ambiente sendo destruído através do desmonte das estruturas de órgãos responsáveis pela preservação, quando vemos tanto preconceito, ódio e intolerância e que ainda tem gente do tipo, sabe com quem está falando, os mais sensatos ficam estarrecidos e bate momentos de tristeza e depressão.
Confesso que, da minha parte, depois de tantos tempos vividos, esse quadro tão arrasador me leva à depressão e tristeza de ver meu país sendo destruído, como que por uma força maligna que arranca do brasileiro a esperança e a fé, que sempre teve e acreditou num futuro melhor, com menos desigualdade social e mais justiça. Nos últimos anos e, mais recentemente, milhares que têm condições aquisitivas estão deixando o Brasil para morar em terras estranhas no exterior, como uma resposta de que não dá mais para ficar aqui.
Não dá para ver todos os dias tantas atitudes de retrocesso, como o desmatamento acelerado da Amazônia e a floresta ardendo em fogo, e não entrar em angústia. Causa-me espanto e revolta ver um desembargador em Santos, no litoral paulista, rasgar uma multa, amassá-la e jogar o papel no chão depois de ter chamado o guarda de analfabeto. “Sabe com quem está falando”? Mais de 500 anos depois e o nosso país não avançou. Continua primário e, talvez, pior, inclusive no segmento da produção de produtos.
Previa que a extrema-direita, o fanatismo e o fundamentalismo moralista iam subir ao poder, mas não imaginava que haveria tantos lunáticos escondidos para vomitar suas podridões armazenadas há anos em suas cabeças. Sempre critiquei as posições tomadas pelo ministro Gilmar Mendes, do Tribunal Superior Federal, mas sou obrigado a concordar com seu pronunciamento de que as forças armadas está, direta ou indiretamente, sendo conivente com esse genocídio, quando mais de 80 mil já foram abatidos pelo coronavírus.
O entendimento é que mais que triplicou a presença de militares generais e coronéis, mesmo que reformados de pijama, em cargos chaves do governo federal, como no Ministério da Saúde, cujo ministro interino é da ativa e nada do setor. O mais grave é que a maioria são neófitos no assunto, desbancando técnicos experientes civis de carreira, como aconteceu na área ambiental. Sobre essa questão, o que teria a dizer as forças armadas?
Embora numa democracia mambembe, estamos vivendo em pleno regime militar, sem uma intervenção de golpe do exército, da marinha e da aeronáutica através das armas. Como fica a imagem da instituição diante dessa avalanche de bombardeios a que o país está sendo vítima? Como entender um Ministério que quer a todo custo empurrar o uso da cloroquina contra o vírus, quando a comunidade científica mundial não recomenda? Como convencer os investidores externos de que os índices de aumento dos desmatamentos e queimadas são mentirosos e equivocados?
Como ocorreu há quase 100 anos com a gripe espanhola, no Brasil de hoje da Covid-19, por falta de uma liderança central e de uma coordenação conjunta, está se registrando uma mortalidade por rebanho, chamada também de imunidade por rebanho, o que significa crime de genocídio, sem que os responsáveis sejam julgados, condenados e presos. O Estado do Amazonas e alguns do Nordeste são exemplos.
Além dessa matança, que atingiu os mais vulneráveis economicamente, a pandemia serviu para tirar do armário do esquecimento mais de 38 milhões de pobres e miseráveis invisíveis, milhares morrendo todos os anos de fome e doenças variadas por falta de água potável, tratamento de esgoto e saneamento básico (mais de 100 milhões não contam com esses itens). Todos os dias a nossa Constituição é violentada, inclusive em outros tipos de violações dos direitos humanos.
No Brasil de hoje existem dois blocos divididos e se digladiando ideologicamente. Um extremista de direita que pede até Intervenção Militar e insiste que está com razão. O outro que condena os retrocessos, o preconceito a política de desmonte que aí está e também fala que está com a verdade. Cada bloco só se comunica isoladamente com quem comunga da mesma ideologia. Os dois não aceitam se interagir e discutir política.
Como, então, dialogar com uma pessoa que prega e apoia toda essa política de desmonte e retrocesso? Que é preconceituoso, racista, misógino, defende posições retrógradas na área da educação, acha que o coronavírus não passa de uma gripezinha e não se deve fazer isolamento social? Que chega a dizer que o governo atual é o orgulho para América Latina? Existe uma forma de aproximação entre esses blocos para que o país não continue dividido entre o ódio e a intolerância? Falta uma liderança, com um novo discurso, não o do passado.
FUTEBOL X COVID-19
Carlos González – jornalista
“Nós somos a favor da vida. Não temos condições de retornar aos treinamentos e aos jogos”, protesta Rafael Damasceno, vice-presidente do Jacobina. Sob o argumento de que houve imposição da FBF, o clube recorreu à Justiça para não colocar seu time em campo esta semana; “a CBF quer nos fazer de cobaias, no momento em que aumenta o número de mortes pela Covid-19 na Bahia”, denuncia Roberto Carlos, presidente da Juazeirense. Dispensados em março, os jogadores estão se mantendo com o auxílio emergencial do governo federal.
Os clubes baianos estão programados para voltar aos gramados, após quatro meses de paralisação, no próximo dia 23, pela penúltima rodada da fase de classificação do Campeonato estadual. Bahia, Jacuipense, Bahia de Feira e Vitória estariam hoje classificados para as semifinais; o Jacobina cairia para a segunda divisão. O Vitória da Conquista vai a Juazeiro no meio da semana e no domingo recebe o Jacobina.
Diplomaticamente, o presidente do Vitória da Conquista, Ederlane Amorim, que em março passado se desfez do time profissional, não se manifesta com relação a falta de apoio do poder público municipal. Nesse período de pandemia, com o olhar voltado para a reeleição, Herzem Gusmão, sob pressão de comerciantes e pastores evangélicos, “liberou geral”. Ao mesmo tempo, alimenta seu ego, criando uma rusga com o governo do Estado, num claro propósito de politizar a pandemia.
Sem justificativas, os decretos assinados pelo gestor não se referem às práticas esportivas. Em 120 dias a ajuda financeira ao Conquista se resumiu praticamente nos R$ 120 mil enviados pela CBF, com a finalidade de manter em atividade os 68 clubes da série D do Campeonato Brasileiro, cuja rodada inicial está marcada para 19 de setembro – o representante baiano estreia em casa diante do Coruripe, de Alagoas.
Ederlane compara a situação financeira e estrutural (em termos de agremiação esportiva) do Conquista a alguém sendo tragado numa zona de areia movediça, sem condições de salvamento. Os apelos feitos ao comércio e aos patrocinadores, em busca de recursos, não tiveram a resposta desejada. Antepenúltimo colocado, o time tem menos de 1% de probabilidade de ser rebaixado.
O Conquista tem menos de uma semana para montar um time para fazer apenas duas partidas, oferecendo aos atletas contrato de 30 dias, permitido pela MP 984/2020, assinada pelo presidente Bolsonaro. Depois, tratar de aprimorar a equipe para uma jornada mais longa de, no mínimo, dois meses, na série D, recebendo da CBF transporte, alimentação e hospedagem. Ederlane confessa que, em abril, pensou em desistir do torneio nacional, mas receou uma punição da CBF ao clube.
Antes da bola rolar no “Baianão”, sete jogos serão disputados nos dias 21 e 22 próximos, pela última rodada de classificação da Copa do Nordeste, todos em território baiano (Salvador, Mata de São João, Riachão do Jacuípe e Feira de Santana). Bahia, já classificado para a segunda fase, e Vitória, são os representantes baianos.
A crise provocada pela paralisação do futebol também bateu na porta dos chamados grandes. O Bahia calcula uma perda de R$ 60 milhões na temporada – seu orçamento para este ano seria de R$ 180 milhões. A arrecadação dos três primeiros meses, que oscilou entre R$ 13 e R$ 15 milhões, caiu em abril para R$ 3,7 milhões. Entre 40 mil sócios adimplentes, cerca de 7 mil deixaram de pagar as mensalidades.
O maior pesadelo para o Vitória no momento é começar o Campeonato Brasileiro da série B, no dia 8 próximo, com seis pontos perdidos, ao lado do Cruzeiro, apenado pela FIFA por causa de uma dívida. O rubro-negro deixou de repassar ao Boca Juniors, da Argentina, 347 mil dólares (cerca de R$ 2 milhões), pelo empréstimo do atacante Walter Bou, em 2018. Com dificuldade para se manter, o Vitória desviou para outras finalidades uma ajuda de R$ 120 mil, enviada pela CBF, destinada exclusivamente ao futebol feminino.
O queridinho da direita
Quem poderia imaginar, o Flamengo, o clube do povo, é a nova “menina dos olhos” da direita no país. Essa simbiose teve começo com a visita do presidente do Flamengo, Rodolfo Landim, ao Planalto, levando na mala seu colega do Vasco, Alexandre Campello. No encontro, Jair Bolsonaro orientou os cartolas a apressar a volta do futebol carioca, contrariando organizações e especialistas em saúde.
A VERDADE NOSSA…
É mais um texto do livro “ANDANÇAS”, de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário, lançado recentemente e que pode ser encontrado na livraria Nobel, na Banca Central, ou através do próprio autor, também da obra “UMA CONQUISTA CASSADA” e outras.
Há mais de dois mil anos Cristo disse: “Eu Sou a Verdade e a Vida”. Na época, quase ninguém acreditou. Terminou sendo flagelado e crucificado em nome desta verdade. Antes Dele, há 2.600 anos, os filósofos gregos ditavam sua verdade, passeando pelas ruas de Atenas. Contam que Sócrates tomou cicuta em nome da sua verdade. Muitos procuraram uma resposta nos deuses e mais tarde se decepcionaram. Os egípcios tinham sua verdade nos faraós. No deserto edificaram suas pirâmides de sabedoria, mas nem por isso se tornaram donos da verdade.
Desde os primórdios dos tempos, os homens se inquietam e se agarram aos sinais, tentando captá-la por aí com suas antenas parabólicas. Transbordam ansiedades. Uns jorram inquietações pelos planetas a fora. Outros preferem ficar no sofismo. Onde está mesmo essa verdade? Entre as estrelas? Qual o sentido de viver? A vida já é uma verdade? Que verdade é essa que nos ensinam valorizar a morte?
Mentira e verdade andam em lados opostos e, às vezes, juntas. Às vezes se confundem. No mundo materialista, a mentira vive camuflada num aparente conceito de verdade, como no prazer a qualquer preço, na estética da beleza e nas propagandas enganosas. A filosofia espiritualista diz que ela tem a verdade na reencarnação. Como encontrá-la? A verdade é uma “metamorfose ambulante”?
A verdade, nada mais que a verdade. Jura dizer só a verdade? Aí vem a mentira como moeda corrente e ofusca a verdade. O filósofo britânico Simon Blackburn conta a história da verdade na cultura ocidental, desde os gregos, passando pelas narrativas bíblicas, os pensadores da Idade Média, o pragmatismo americano e os pós-modernos.
O ex-presidente Bush, o filho, (EUA) mentiu sobre a existência de armas químicas no Iraque. Mesmo assim, foi reeleito. O cidadão deve, a esta altura, estar se perguntando: por que dar tanta atenção á verdade, se a mentira dá tanto resultado? Vivemos mais da mentira, ou da verdade?
Os tempos se evoluíram e a verdade sempre foi imposta sob diversos pontos de vista, com faces diferentes, sombras e dúvidas. Analisem sob a ótica da religião; em termos subjetivos e objetivos; absolutos e relativos; sob os ângulos filosófico, material e científico; e ainda no campo da política e da justiça.
Na sociedade moderna, ela se torna camaleão, de acordo com o meio em que se vive, dando sensação ilusória de que basta lustrar a couraça para se
tornar confiável. No mundo do consumismo ela está sempre mudando de imagem e de cor. Na estética da beleza, a verdade aparece como caminho de sucesso. Uns dizem que é fundamental. Outros que é uma coisa relativa e banal. O medíocre sobrevive e a competência falece. A aparência faz escárnio do conteúdo. Não se valoriza mais o caráter. O mundano virou celebridade. O homem é produto do meio? Carrega na sua essência o DNA do mal? Para uns, sim, para outros, não.
Cada religião, cada seita, cada credo, cada simbolismo, cada slogan, cada código procura transmitir e defender sua verdade, mesmo que seja através de dogmas da fé. Os deuses estão por todos os lugares, com faces e visões diferentes. Cada um com seu caminho de salvação. O vazio faz aumentar a concorrência da crença e da cura do espírito. A busca é incessante.
Nunca se acreditou tanto em tantas coisas fúteis e descartáveis dentro de um materialismo vulgar e adorado. É a “corrida do ouro de tolo”. Será que o entrevistado a uma vaga de emprego fala a verdade? Seu comportamento diante do entrevistador é a sua verdade? Ele foi treinado para seguir um padrão ditado pelo mercado. Quem está com a verdade?
CENÁRIO IMPROVISADO
Foto de José Carlos D´Almeida, nosso câmara e um dos diretores dos nossos vídeos que estamos realizando desde março quando começou a quarentena da Covid-19 no Brasil, que parece não mais terminar. Para cada assunto, sempre improvisamos um cenário e figurino. Neste último vídeo improvisamos de acordo com o tema que foi sobre a Intervenção Militar, ou ditadura, como queira, com o título “Brasil, Nunca Mais”! Já realizamos 13 vídeos enviados para nossos grupos, amigos e parentes. Estamos finalizando um curta-metragem, contando com a colaboração financeira de diversos admiradores do nosso trabalho, como Almerinda Gonçalves, Carlos Gonzalez, Ciro Macário, Itamar Aguiar, Jovino Moreira, Tânia Gusmão, Rócia e Dadai Almeida e Dr. Saúde. Com interpretações de Jeremias Macário e Vandilza Gonçalves, os vídeos têm a produção dos 10 anos do Sarau Espaço Cultural A Estrada.
O GALO PROFESSOU
Poema mais recente de autoria do jornalista Jeremias Macário
Seu canto é também canção de amor,
De cisco riscado no chão reprodutor.
O galo professou e me ensinou
A ser semente levada pelo vento,
Louvar a vida, desencantar a morte,
E sempre ter a mente firme e forte.
Sem o relógio para o tempo anotar,
O sono leve vigia no silêncio da noite,
O sinal do galo no açoite da madruga,
Que está na hora da tropa se levantar.
O galo galante no terreiro é bem visto;
Foi testemunho da antiga divina profecia;
Cantou três vezes após Pedro negar Cristo,
Ao dizer que o seu mestre não o conhecia.
O galo professou pegar no pasto os jumentos,
No orvalho do sertão pra na feira mascatear
Os mantimentos lavrados na enxada do torrão,
E na baixada deu pressa antes do dia clarear.
O galo professou na curva ainda meio turva.
Que a aurora com seu esplendor logo ia raiar;
Professou que com o trabalho a dor se cura,
E o vade nos guiou até à cidade a carga arriar.
CONHEÇA SUA VIDA CURRICULAR
Filho de lavradores, Jeremias Macário de Oliveira veio lá do sertão agreste de Monte Alegre, hoje Mairí (BA), mas ainda menino fez o primário e foi registrado como filho de Piritiba, no Piemonte da Chapada Diamantina. De lá, por intermédio do pároco de Mundo Novo, foi estudar, em 1962, no Seminário Nossa Senhora do Bom Conselho, em Amargosa (BA), vocacionado para ser padre. Em 1968 ingressou no Seminário Central de Salvador, concluindo o Clássico, em 1969, quando se afastou do seminário e, em 1970, passou no vestibular para Jornalismo, na Universidade Federal da Bahia.
Para sobreviver e custear seus estudos, morando na Residência Universitária, trabalhou, temporariamente, em várias empresas da capital e concluiu o bacharelado em Jornalismo, em 1973, quando foi admitido pelo jornal “A Tarde” onde atuou como revisor, repórter em vários setores, redator e editor de Economia até 1991, em Salvador.
Neste ano foi indicado pelo próprio jornal “A Tarde” para chefiar a Sucursal de Vitória da Conquista onde permaneceu até o ano de 2005, quando, por decisão pessoal, afastou-se da empresa e se aposentou pelo INSS. Em Conquista exerceu a função de diretor e vice-presidente do Sindicato dos Jornalistas da Bahia, diretor da Apae e premiado pela sua atuação na gerência da Sucursal, especialmente no âmbito da produtividade e seriedade na direção do cargo a que foi confiado.
Em Salvador, Jeremias Macário foi premiado na área econômica pela cobertura de várias matérias jornalísticas, e concluiu cursos nos setores do mercado de capitais, na área da petroquímica, comércio lojista, na agricultura, entre outros segmentos. Em 1982 realizou, na Alemanha, através da Fundação Konrad Adenauer, o curso de “Economia de Mercado”.
Além de jornalista, Jeremias é escritor com o lançamento de quatro livros, sendo dois deles equivalentes a seis. Como letrista e poeta, várias de suas composições foram musicadas por artistas locais e do Nordeste. É também fundador do Sarau Cultural A Estrada que neste mês de julho completou dez anos de funcionamento, reunindo artistas, estudantes, intelectuais, professores e demais interessados pela cultural.
UMA CAMPANHA ELEITORAL DIFERENTE
Muitos candidatos a um cargo eletivo, principalmente os novos que almejam uma cadeira no executivo, ou no legislativo devem estar se perguntando como fazer uma campanha eleitoral nesses tempos terríveis da Covid-19. Se antes as pessoas já estavam desinteressadas por política por causa das decepções, imagina agora com tantos problemas de ordem emocional, perdas de parentes pela pandemia e financeira, sem contar outras questões.
Estamos entrando na segunda quinzena de julho e quase nada se tem ouvido na mídia sobre eleições 2020. As atenções estão todas voltadas para os noticiários sobre o coronavírus, seus efeitos e consequências, quando cerca de 75 mil já morreram no país. Se o eleitor vive nesse clima de consternação, imagina o que passa na cabeça do candidato!
Confesso que, como pré-candidato a vereador pelo PSB a uma vaga na Câmara Municipal de Vitória da Conquista, fico a pensar por onde começar e qual discurso a ser abordado, levando-se em consideração o quadro brasileiro e, particularmente, da nossa comunidade, que está sofrendo os danos causados por esse vírus que mudou o mundo.
É preciso ter muito ânimo, sensibilidade, força e mais que seriedade no trato com o problema. Caso seja mesmo candidato efetivado, não pretendo levantar o discurso do passado mais recente que terminou dividindo o pais, criando ódio e intolerância.
Em minha visão, a linha é mostrar o que está ocorrendo no presente no Brasil e defender um trabalho para um futuro próximo, combatendo os retrocessos e as desconstruções. Sei que essa campanha eleitoral vai ser muito difícil, mas cada um deve ter o seu foco.
Muitos amigos meus não têm visto com bons olhos mais esse desafio a enfrentar em minha vida, dizendo que não devo me meter nesse angu de partidos de agrupamentos, e que política é coisa suja. Outros têm dado apoio e me encorajado a seguir em frente. Essa proposição tem me levado a muitas reflexões, mas uma coisa tenho certeza, se encarar mais essa tarefa, vou mais pela nossa educação, pela cultura e gritar contra as desigualdades sociais.
QUARENTENA DA CORONAVID
Desde março, quando a Covid-19 começou a infectar os primeiros brasileiros e entramos no período da quaresma, o jornalista Jeremias Macário, sua esposa, a professora Vandilza Gonçalves e o fotógrafo José Carlos D´Almeida começaram a produzir uma série de vídeos com textos poéticos, abordando diversos assuntos de ordem política, social e cultural sobre o próprio vírus e seus efeitos, a seca e a cultura popular nordestina e temas pessoais do nosso cotidiano.
Fotos de José Carlos D´Almeida
O coronavírus serviu de abertura com o título “Quem é Este Coronavid?, uma fusão do corona com a Covid-19, que deu sequência a outros vídeos, sempre realizados aos domingos e enviados para os grupos do Sarau Cultural A Estrada, Amantes da Música, para os blogs da cidade, artistas, amigos em geral e parentes, como forma de amenizar e aproximar as pessoas nessa fase tão dura de confinamento e isolamento social.
Cenário de “Brasil, Nunca Mais”!
Durante este tempo, de março até julho (em alguns domingos não foram possíveis realizar gravações) produzimos 14 vídeos no formato de declamação com questões diferenciadas. Como não dispomos de recursos humanos e equipamentos suficientes, todos os vídeos foram gravados através do celular, com D´Almeida na câmara, e as interpretações dos textos a cargo de Jeremias e Vandilza. Os cenários e figurinos sempre são improvisados de acordo com o tema, e cada um vai deixando a ideia voar.
Nos intervalos das produções, surgiu a ideia de transformamos os dez vídeos realizados (entre 40 a 50 minutos ao todo) na edição de um curta metragem de 20 minutos, mas faltava pequena verba para tanto. Foi aí que nasceu outra proposta de criarmos um grupo de colaboradores que chegou junto, e o projeto agora está sendo finalizado nos estúdios do nosso amigo Alex Baducha, numa produção em homenagem aos 10 anos do Sarau, completados neste ano e interrompido, temporariamente, por causa da pandemia.
Lembro Ainda Menino, Brasil Saco de Pancada, “Brasil, Nunca Mais”, Quaresma Quarentena, República Cabana Banana, Sequidão, Mente Brasileira, Ninguém Quer Aprender a Lição, Uma Nação em Correrias, Voa Mente Inteligente foram, entre outros, os títulos e os respectivos textos desenvolvidos e declamados pela nossa pequena equipe, com o intuito e o prazer de passarmos uma mensagem para os amigos e companheiros. Sabemos que não podemos agradar a todos, mesmo porque isso é impossível, mas estamos registrando nosso singelo trabalho nestes tempos tão difíceis.
“A NEGA DO LEITE”
Este texto faz parte do mais recente livro “ANDANÇAS”, do escritor e jornalista Jeremias Macário
Têm coisas do tempo de infância que marcam nossas vidas e não saem jamais. Grudam na memória como nódoas na roupa. Para brotar da lembrança, basta uma conversa de estórias e causos entre amigos e a família. Existem aquelas passagens que se tornam segredos nunca revelados. As que deram momentos de felicidade e prazer são contadas várias vezes.
Quem não guarda no seu baú da vida os causos de menino e menina e as broncas e surras (geração mais antiga) que levou dos pais por ter cometido estripulias em casa, na roça ou nas ruas? Pois é, existem aquelas que não se esquece nunca. Muitas se vão e outras ficam na mente, doidas para pularem fora em qualquer ocasião.
Agora mesmo lembro-me daquela “pisa” de chicote que meu pai me deu numa cacimba quando brincava de jogar pedras na água. Era gostoso ver a pedrinha quicando na superfície fazendo redemoinhos. Foi numa manhã quando fui pegar o leite numa fazenda próxima para minha irmãzinha que logo cedo acordava chorando de fome. Ao invés de levar o leite, parei no meio do caminho para me divertir no tanque. Deu no que deu!
Meus pais não me contavam nem liam estorinhas infantis de ninar, mesmo porque eram analfabetos e, com seus jeitos rudes da vida dura da roça, não tinham tempo nem sabiam lidar com essas coisas. No entanto, ouvia prosas dos adultos sobre assombrações, lendas, entidade e mitos a respeito do lobisomem, da mula sem cabeça, do marruá brabo, do saci e do curupira que perambulavam pelas matas.
Adorava os causos dos coronéis e dos vaqueiros valentes do sertão, mas uma das estórias que mais me marcou foi sobre “A Nega do Leite”. Até hoje estou lá no varandado da minha casa, esperando ela passar por aquela estrada de cascalho, toda tagarela, mas sempre caio no sono e não consigo ver o primeiro raio do amanhecer da madrugada trazendo “A Nega do Leite”.
Quando o feijão da roça estava seco, no ponto de ser colhido, meu pai arrancava e empilhava na varanda para depois fazer a debulha no terreiro, às vezes, por meio do chamado adjutório em que várias famílias ajudavam na tarefa de retirada da palha através das batidas de porretes, cadenciadas pelas cantorias tradicionais da terra.
Esse costume herdado dos tempos coloniais é outra história. O bom mesmo era que eu, minhas irmãs e outros coleguinhas da vizinhança adoravam brincar de pula-pula e esconder em noites de luar nas pilhas de feijão seco. O divertimento só dava certo quando meu pai viajava para fazer serviços de carpintaria em outras fazendas. Minha bondosa e santa mãe não ligava para a zoadeira e sempre ia dormir.
Naquelas algazarras havia sempre uns instantes de paradas para contar estórias e histórias de espíritos do além e pessoas que iam sendo espalhadas de boca em boca pelos mais velhos. Algumas nem eram lendas. Nos livros escolares (eram raros) ou na base da escuta, as crianças captavam os enredos e as mais espertas narravam os causos. Todos ficavam atentos para ver o final do personagem.
Um desses causos que mais me marcou foi o da “Nega do Leite” que em noite de muito luar passava naquela estrada em frente da nossa casa. Desde longe se ouvia o cantarolar dela, carregando recipientes cheios de leite. Cantava e falava alto sobre histórias de seus antepassados e fatos de pessoas da região. Era uma repórter da oralidade. Na tradição, a origem do nome remete à pessoa que fala sem parar.
“A Nega do Leite”, como o próprio nome já diz, conversava muito enquanto distribuía leite para os mais necessitados, especialmente para as crianças e os idosos. Depois de certificar que ela não fazia mal a ninguém, naquela noite toda gurizada combinou ficar acordada para ver a “Nega do Leite” que sempre passava ao clarear do dia.
O acerto era ninguém dormir, só que o cansaço do brincar terminou nos colocando nos braços do deus Orfeu e todos caíram no sono profundo. Fomos despertados de manhã cedo pela nossa mãe que nos repreendia por termos ficado ali expostos a noite toda naquelas pilhas de feijão.
Um do grupo, não sei quem, falou que a gente estava ali para conhecer “A Nega do Leite”, conversar com ela e pegar um pouco de leite que trazia consigo. Minha mãe simplesmente riu e respondeu, para frustração terrível de todos, que “A Nega do Leite” já havia passado na estrada há muito tempo. Perdemos a oportunidade de ver a tão decantada e folclórica “Nega do Leite”. Um culpava o outro por ter dormido.
“ARMAÇÕES”
O título da foto “Armações”,clicada pelo jornalista Jeremias Macário faz alusão às barracas das feiras armadas por barraqueiros que vendem seus variados produtos, como frutas, verduras, tecidos, sandálias, cereais e tantos outros encontrados pelos consumidores. Estas armações amontoadas numa das ruas do Bairro Brasil estavam sendo levadas, ou recolhidas da tradicional “Feirinha”, em Vitória da Conquista, que faz tanto sucesso e superlota nos dias de sábados e domingos. Vem gente de toda parte da cidade e da zona rural da cidade para comprar e vender. Também serve como ponto de encontro de amigos, parentes e familiares. Eu mesmo sou um frequentador da “Feirinha” por conter uma variedade de alimentos e produtos por um preço mais baixo, e ainda com a vantagem da costumeira pechincha. Já encontrei muitos amigos por lá e comemos uma boa buchada gostosa com umas geladas.

















