Quando olhamos para o passado de quase 100 anos atrás e vemos nítidas semelhanças de comportamentos negacionistas da ciência das pessoas com relação à pandemia da gripe espanhola e a atual Covid-19, quando vemos o meio ambiente sendo destruído através do desmonte das estruturas de órgãos responsáveis pela preservação, quando vemos tanto preconceito, ódio e intolerância e que ainda tem gente do tipo, sabe com quem está falando, os mais sensatos ficam estarrecidos e bate momentos de tristeza e depressão.

Confesso que, da minha parte, depois de tantos tempos vividos, esse quadro tão arrasador me leva à depressão e tristeza de ver meu país sendo destruído, como que por uma força maligna que arranca do brasileiro a esperança e a fé, que sempre teve e acreditou num futuro melhor, com menos desigualdade social e mais justiça. Nos últimos anos e, mais recentemente, milhares que têm condições aquisitivas estão deixando o Brasil para morar em terras estranhas no exterior, como uma resposta de que não dá mais para ficar aqui.

Não dá para ver todos os dias tantas atitudes de retrocesso, como o desmatamento acelerado da Amazônia e a floresta ardendo em fogo, e não entrar em angústia. Causa-me espanto e revolta ver um desembargador em Santos, no litoral paulista, rasgar uma multa, amassá-la e jogar o papel no chão depois de ter chamado o guarda de analfabeto. “Sabe com quem está falando”? Mais de 500 anos depois e o nosso país não avançou. Continua primário e, talvez, pior, inclusive no segmento da produção de produtos.

Previa que a extrema-direita, o fanatismo e o fundamentalismo moralista iam subir ao poder, mas não imaginava que haveria tantos lunáticos escondidos para vomitar suas podridões armazenadas há anos em suas cabeças. Sempre critiquei as posições tomadas pelo ministro Gilmar Mendes, do Tribunal Superior Federal, mas sou obrigado a concordar com seu pronunciamento de que as forças armadas está, direta ou indiretamente, sendo conivente com esse genocídio, quando mais de 80 mil já foram abatidos pelo coronavírus.

O entendimento é que mais que triplicou a presença de militares generais e coronéis, mesmo que reformados de pijama, em cargos chaves do governo federal, como no Ministério da Saúde, cujo ministro interino é da ativa e nada do setor. O mais grave é que a maioria são neófitos no assunto, desbancando técnicos experientes civis de carreira, como aconteceu na área ambiental. Sobre essa questão, o que teria a dizer as forças armadas?

Embora numa democracia mambembe, estamos vivendo em pleno regime militar, sem uma intervenção de golpe do exército, da marinha e da aeronáutica através das armas. Como fica a imagem da instituição diante dessa avalanche de bombardeios a que o país está sendo vítima? Como entender um Ministério que quer a todo custo empurrar o uso da cloroquina contra o vírus, quando a comunidade científica mundial não recomenda? Como convencer os investidores externos de que os índices de aumento dos desmatamentos e queimadas são mentirosos e equivocados?

Como ocorreu há quase 100 anos com a gripe espanhola, no Brasil de hoje da Covid-19, por falta de uma liderança central e de uma coordenação conjunta, está se registrando uma mortalidade por rebanho, chamada também de imunidade por rebanho, o que significa crime de genocídio, sem que os responsáveis sejam julgados, condenados e presos. O Estado do Amazonas e alguns do Nordeste são exemplos.

Além dessa matança, que atingiu os mais vulneráveis economicamente, a pandemia serviu para tirar do armário do esquecimento mais de 38 milhões de pobres e miseráveis invisíveis, milhares morrendo todos os anos de fome e doenças variadas por falta de água potável, tratamento de esgoto e saneamento básico (mais de 100 milhões não contam com esses itens). Todos os dias a nossa Constituição é violentada, inclusive em outros tipos de violações dos direitos humanos.

No Brasil de hoje existem dois blocos divididos e se digladiando ideologicamente. Um extremista de direita que pede até Intervenção Militar e insiste que está com razão. O outro que condena os retrocessos, o preconceito a política de desmonte que aí está e também fala que está com a verdade. Cada bloco só se comunica isoladamente com quem comunga da mesma ideologia. Os dois não aceitam se interagir e discutir política.

Como, então, dialogar com uma pessoa que prega e apoia toda essa política de desmonte e retrocesso? Que é preconceituoso, racista, misógino, defende posições retrógradas na área da educação, acha que o coronavírus não passa de uma gripezinha e não se deve fazer isolamento social? Que chega a dizer que o governo atual é o orgulho para América Latina? Existe uma forma de aproximação entre esses blocos para que o país não continue dividido entre o ódio e a intolerância? Falta uma liderança, com um novo discurso, não o do passado.