Blog Refletor   TAL-Televisión América

De Orlando Senna

Itamar indica e comenta

Às vezes a gente lê sobre a falta de assunto do cronista ou comentarista diante da página em branco (leia-se da tela do computador em branco). Hoje isso é raro, mas antes era comum encontrar textos sobre esse tema escritos pelos jornalistas que têm por obrigação entregar um artigo diário ou semanal, com hora marcada. Menciono isso porque, aqui e agora, diante da tela em branco com um sinal luminoso intermitente mostrando onde devo começar o texto, minha indecisão viaja na contramão da falta de assunto. Neste momento caótico da civilização, com a velocidade da informação disputando corrida com a luz, é a quantidade e não a falta que paralisa o escriba (por isso quase ninguém mais filosofa sobre páginas em branco).

Os dedos e os neurônios coçam quando olho para um mapa do mundo que acabo de colorir e vejo que o cinza que pintei nas zonas de conflito armado é uma área maior do que o azul que apliquei nas zonas sem conflitos letais. São 12 países com guerras de alta ou média intensidade e 33 países com guerras de baixa intensidade (que significa com menos de mil mortos por ano). Um impulso é escrever, no sentido de tentar entender, sobre as razões que levaram a Colômbia (guerra civil) e o México (guerra do narcotráfico) estar entre os 12 países mais violentos.

Já que entrei pela América Latina, outro impulso é refletir sobre a perigosa confusão política e econômica que assola os países que, por volta do ano 2000, adotaram grandes políticas de inclusão social e combate efetivo à pobreza. E assola também o Chile, que não adotou essas políticas. Talvez deva escrever mesmo é sobre o Brasil, pátria amada idolatrada metida em uma camisa de onze varas, com governo enfraquecido, oposição canhestra, mídia leviana, corrupção a grosso e a granel. Ou quem sabe sair correndo para um aeroporto virtual, pegar um avião ídem e dar uma olhada no Estado Islâmico, no desatino da hiper violência fundamentalista.

Também penso em rumar para o outro lado, descrever a crença que nem tudo está perdido, que há uma luz brilhando no futuro, que à capacidade destruidora do ser humano corresponde uma capacidade de reconstruir, de refazer-se, a obsessão de quebrar equilibrada com a necessidade de consertar e concertar (principalmente esse último verbo, com suas raízes em harmonizar, conciliar, pactuar). Se for por esse caminho o gancho neste momento é a aproximação Cuba/EUA, nos seus sentidos prático e simbólico. Na prática de uma nova e promissora geopolítica econômica no Caribe e América Central, no poder emblemático e estimulante do diálogo entre contrários, do encontro entre antagônicos.

Ou, simplesmente, registrar a moda das revistas de colorir, já que fiz menção ao Mapa Mundi que pintei de cinza e azul. É uma onda grande, para alegria não apenas das indústrias gráficas e dos comércios que estão vendendo milhões de exemplares e não apenas para as crianças, às quais são destinadas: também para os adultos. As revistinhas com desenhos para ser preenchidos com cores não são novidade, mas o que está acontecendo agora é um boom de grande extensão na América Latina (principalmente no Brasil), na América do Norte e na Europa, iniciado em 2012.

A razão dessa procura enorme pelas revistinhas é, justamente, o consumo pelos adultos. Antes os pais compravam uma ou duas revistas para o filho, agora eles compram duas para o filho e quatro para eles mesmos. Simplesmente porque se deram conta que colorir, pintar, é um exercício espiritual tranquilizador, realimentador de energias, saciador da sede de estar bem consigo mesmo e com os outros. Inclusive porque também faz parte da onda pintar coletivamente o mesmo desenho, juntar a família para se dedicar a isso por algumas horas. Quer dizer, alcançar um estado de alma que todos os de boa vontade necessitam neste momento de desorientação planetária.

Por Orlando Senna

Comentário:

Neste artigo, a criatividade de Orlando, navega da folha de papel em branco, a tela do computador que, provocam mesmo tipo de reação no “escriba” com a variação dos fenômenos quantidade e intensidade e, no último parágrafo recorre, após visitar as violências e, diria até mesmo, a barbárie mundo afora, às revistinhas com quadros a colorir pelas crianças, destacando o aumento das vendas e a dedicação dos adultos a tal atividade, como que eu diria, apresentando comportamento de fuga, fuga de situações para muitos incomoda e, para os mais sensíveis intoleráveis.

Neste vôo virtual panorâmico sobre o mundo e suas violências, passa pelo Brasil dizendo que: “Talvez deva escrever mesmo é sobre o Brasil, pátria amada idolatrada metida em uma camisa de onze varas, com governo enfraquecido, oposição canhestra, mídia leviana, corrupção a grosso e a granel. Ou quem sabe sair correndo para um aeroporto virtual, pegar um avião idem e dar uma olhada no Estado Islâmico, no desatino da hiper violência fundamentalista”. Quando olho para o que os governantes e os poderosos estão fazendo com o Brasil e ao Povo brasileiro, da uma vontade enorme de sectarizar e, se fazer fundamentalista, mas, a crença em uma vida melhor, a consciência em favor dos atos humanamente justos, faz pisar no freio e controlar a vontade.

Porem não posso me furtar a entender que a situação atual do Brasil é anômala e que, revolta ver os governantes atuais na tentativa desesperada para justificar, o injustificável, ou seja, a corrupção o roubo do dinheiro público, por eles praticados como coisa natural, uma vez que dizem “a corrupção e o roubo dos bens público sempre existiram no Brasil”. Mas, ao observar o histórico, a trajetória e a luta política da “cumpanherada”, fica uma sensação de traição, de engano, de abandono sem precedente, acentuada com a percepção de que todo esse imbróglio se dá em função do enriquecimento pessoal ilícito.

Orlando Senna nasceu em Afrânio Peixoto, município de Lençóis Bahia. Jornalista, roteirista, escritor e cineasta, premiado nos festivais de Cannes, Figueira da Foz, Taormina, Pésaro, Havana, Porto Rico, Brasilia, Rio Cine. Entre seus filmes mais conhecidos estão Diamante Bruto e o clássico do cinema brasileiro, Iracema. Foi diretor da Escola Internacional de Cinema e Televisão de San Antonio de los Baños e do Instituto Dragão do Mar, Secretário Nacional do Audiovisual (2003/2007) e Diretor Geral da Empresa Brasil de Comunicação – TV Brasil (2007/2008). Atualmente e presidente da TAL – Televisão América Latina e membro do Conselho Superior da Fundacion del Nuevo Cine Latinoamericano.

Itamar Pereira de Aguiar nasceu em Iraquara – Bahia; concluiu o Ginásio e Escola Normal em Lençóis, onde foi Diretor de Colégio do 1º e 2º graus (1974/1979); graduado em Filosofia, pela UFBA em 1979; Mestre em 1999 e Doutor em Ciências Sociais – Antropologia – 2007, pela PUC/SP; Pós Doutor em Ciências Sociais – Antropologia – em 2014, pela UNESP campus de Marília – SP. Professor Titula da Universidade Estadual do Sudoeste do Estado da Bahia – UESB; elaborou com outros colegas os projetos e liderou o processo de criação dos cursos de Licenciatura em Filosofia, Cinema e Audiovisual/UESB.