FRONTEIRAS DAS BARBÁRIES
De Jeremias Macário, em homenagem a Camilo de Jesus Lima.
Deixa essa gente avançar a fronteira, gente!
Deixa essa gente ir em frente com sua dor!
Abra os espaços de aços e baixe as armas!
Idosos, crianças e a gente de toda idade;
São filhos dos bombardeios do horror;
Gente do mar revolto e da terra quente,
Faminta de olhos tristes e mãos desarmadas,
Pés que se arrastam em busca da liberdade.
Olha aquela gente, moço, que mira o poente!
Sente como vem em direção da nossa gente?
Como o povo do deserto fugindo do Faraó;
Uns com seus filhos e outros andando só,
Cortando mares, montes, cercas e serras;
Passos apressados para fugir da barbárie,
Do ódio étnico-religioso de “santas guerras”.
Abra a fronteira pra essa gente atravessar!
Gente que vem da espada dos templários!
Como sangria do terror nazista maoísta,
Do poder radical do deus fundamentalista,
Que não porta lenços revolucionários;
Só mochilas com as saudades do seu lar.
O mundo vai ser todo murado e cercado!
Como fazendas fortalezas latifundiárias,
E quem não tiver terra, gente, vai ser boiada;
Viver como escravo e comer a ração dada,
Como palestino perseguido na Faixa de Gaza;
Latino clandestino entre o México e a estrada;
Haitiano na Amazônia pra vagar numa Plaza,
E todo refugiado como párias nas ferroviárias.
As lágrimas se misturam às poeiras,
No rosto daquele solitário menino,
Saído dos escombros das antigas ruínas,
Da linha de fogo das mortais fronteiras,
Do chão lendário e mítico do beduíno,
Onde um dia gerou o filho real ungido,
Para pregar convivência sem conflito,
E poder desbravar seu sonho sem finito.
Das profecias dos tempos os sinais:
A marcha de horrores estarrece o mundo,
Vinda das montanhas áridas em chamas;
Cruza além-mar das profundas sepulturas,
Para cobrar dívida do passado de usuras,
Dos exploradores dos miseráveis salários,
Em nome de seus bárbaros cruéis ideários,
De expandir seus territórios imperiais.
Deixem que os vivos das longas andanças,
Vindos dos porões dos barcos sufocantes,
Deste dantesco inferno dos mil demônios,
Derrubem essas amaldiçoadas fronteiras;
Sigam em direção de seus novos horizontes,
Para acalentar o choro e curar as feridas,
Nascidas do ventre de suas pátrias partidas!
Lá vem gente avexada pra fazer a travessia!
Não para guerrear por domínio de etnia,
Nem para detonar as igrejas e as mesquitas;
Lá vem gente que só pede por passagem!
Numa homérica viagem sem eiras nem beiras,
Como ventania que não teme o sol e o frio;
Sem tanques, sem bombas, símbolos ou fuzil;
Gente que só quer atravessar as fronteiras!
Gente que só quer passar por essas gentes,
Das cercas farpadas e de armas nas mãos.
Quem é essa gente vinda da África e da Ásia?
Navega perdida pelo Mediterrâneo e o Egeu,
Nos mares revoltos do Olimpo de Prometeu,
Para ingressar na Grécia dos sábios filósofos,
Na Itália dos césares romanos conquistadores,
Que sai da Síria, Líbia, Sudão e da Turquia,
Em longa jornada até a Croácia e a Hungria,
Que se amontoa nas estações chiques de trem;
Pendura e se espreme nos macios vagões,
Como se fosse para campos de concentrações!
Gente que morre em frigoríficos de caminhões,
Para a Inglaterra, França, Áustria e Alemanha,
Países que dessa pobre gente se envergonha.
Que civilização é esta tão fútil primitiva,
Que solta foguetes acima espaços lunares;
Investe bilhões com bombas nucleares,
Como sempre fez o letal ianque do norte,
Que exterminou toda sua gente índia nativa,
E agora cala e deixa essa gente à própria sorte?
Que civilização é esta tão hipócrita cristã,
Que aponta o outro lado como o eixo do mal;
Trata os mulçumanos como se fossem animais,
Atirando dos muros sanduiches e gazes letais?
É uma civilização individualista e ainda pagã.
Não é esta uma civilização com a mente sã;
Nem é a minha, nem dos que rogam por paz,
Mas a deles que vendem uma história irreal,
E invade nações só para aumentar o cabedal.
Que civilização é esta da criança morta a boiar,
Nas ondas da praia vindas do outro lado de lá,
De um mar de tormentas de lágrimas a derramar,
Em plena era tecnológica assassina irracional,
Que não aprendeu com o fim do império romano,
Com o tempo da opressão do reino Otomano,
Com a brutal Cruzada das iras religiosas,
Com as câmaras de gás de seres em fornalhas,
Com as inquisições das fogueiras criminosas,
Com os czares e tiranos bestas feras canalhas?
Que civilização é esta amedrontada e dividida;
Desumana que caminha para a destruição fatal,
Que fez um pacto com o diabo pelo vil metal,
Que criou os filosofismos e outros tantos ismos,
Numa história banhada de sangue e barbarismos?
Como já disse uma vez o grande poeta da terra:
“Me solta gente que eu quero atravessar a fronteira”.











