Ah, senhora dona Cultura, tu és formosa e graciosa morena de feições indígenas, negras, brancas e amarelas, numa mistura de várias etnias! Senhora dona Cultura, que estais em todos lugares da vida, não apernas na arte, ainda desfilas nesta multidão como uma ilustre desconhecida!
Tu és uma brasileira miscigenada representando todas as regiões, mas ficas mais dourada reluzente com o sol do agreste nordestino onde esbanjas mais conhecimento e saber num diversificado universo de linguagens, desde o erudito ao popular, com tuas danças, festas, escritas e oralidades.
É no chão estorricado do Nordeste onde tu mais resplandeces, construindo teu rico folclore através das crendices do teu povo simples, religioso e até messiânico! Grandes nomes de escritores, de artistas em geral, trovadores, repentistas, cordelistas, oradores e contadores de causos te deram mais louvor aqui, senhora dona Cultura!
Senhora dona Cultura, ganhastes até um Dia Nacional, 5 de outubro, em tua homenagem, mas isto só não basta porque ainda andas abandonada pelos cantos por aqueles que deveriam cuidar melhor de ti! Ficarias mais linda e bonita se fosses melhor tratada como uma rainha num fino salão de beleza!
Senhora dona Cultura, nossas vidas perdem a graça, ficam ocas e vazias, sem sentido, como se a existência deixasse de existir, sem o teu sorriso da manhã e o teu encantado pôr-do-sol! Tu és a luz do dia e a inspiradora da noite que iluminas nossos poetas e cancioneiros!
Senhora dona Cultura, sei que nos últimos tempos, com a decadência do ser humano que se bandeou para as tecnologias eletrônicas e virtuais das tais redes sociais, tu andas meio que macambúzia e triste, mas ainda existem aqueles senhores e senhoras da trincheira da resistência que te admiram e te defendem.
Em épocas passadas teu nome era bem mais cultuado e idolatrado em todo território brasileiro, de norte a sul, do leste ao oeste, e não eras apenas um jarro de flores como decoração na mesa dos teus guardiões governantes.
Hoje, eles são teus algozes e pouco cuidam de ti; não molham tuas raízes e tuas pétalas estão murchas, desbotadas e esqueceram até de festejar o teu Dia Nacional, mas nós ainda estamos aqui reavivando tuas seivas para que não morras.
Senhora dona Cultura, perdoai os teus negligentes porque eles não sabem o que fazem! Eles e elas tentam te menosprezar, tirar de ti a sabedoria secular, tuas memórias e tradições históricas para deixar teu povo ignorante e bruto, mas estamos vigilantes.
Esta gente conservadora, senhora dona Cultura, não te quer bem; tem o olhar atravessado e vesgo justamente porque teme passar de dominadora a dominada e tentam manipular as mentes mais fracas como se faz numa lavagem cerebral, mas eu te saúdo neste teu dia!