Em final de 1928, praticamente escorraçado de Pernambuco, Lampião atravessou o Rio Francisco e chegou à Bahia por Santo Antônio da Glória (Paulo Afonso). De forma mansa, ordeira e cordeira se acoitou na fazenda do coronel Petronilio Reis, o Petro, seu amigo.

  Astuto e sagaz, passou um tempo em paz, com poucos homens, fazendo um reconhecimento do terreno e até se tornou amigo do coronel João Sá, de Jeremoabo. A impressão que dava era que ele havia se regenerado, até que começou a fazer suas tripolias e praticar violência nas vilas e povoados.

  Na Bahia achou um campo aberto, pois as forças policiais eram deficientes e praticamente não realizavam campanhas contra o cangaço, até que aconteceu o caso de Queimadas, no Natal de 1929, onde Lampião com seu bando invadiu a cidade, saqueou o povo, os comerciantes e cometeu a atrocidade de matar sete soldados de forma cruel.

  Conforme nos conta o autor da obra, “Lampião, o Rei dos Cangaceiros”, Billy Jaynes Chandler, foi aí que, depois de outros crimes, o estado resolveu tomar providências e indicar o coronel Terêncio dos Santos Dourado para comandar uma campanha contra Lampião.

  Sua primeira medida foi dividir o estado em seis regiões, com equipamentos de comunicação, mais soldados e armamentos. Um comando ficou em Bonfim, os outros nas regiões de Juazeiro, Jeremoabo e Uauá, com 1.200 soldados e 36 oficiais. Boa parte dessas forças, no entanto, ficou estacionada nas cidades e poucos foram enfrentar a caatinga.  Cada volante tinha entre 20 a 30 soldados.

 Depois de oito meses de fracasso, com o revés da batalha de Mandacaru, renunciou ao cargo. Como bom estrategista, aprendiz do cangaceiro Sebastião Pereira, o “Sinhô Pereira”, Lampião fazia sua luta de guerrilha e, diante das suas investidas, a imprensa começou a compará-lo com o bandido Al Capone, de Chicago, nos Estados Unidos.

   A força policial ainda era ineficiente e pobre. Os soldos chegavam atrasados e, às vezes, faltavam uniformes. Quando em campo, a tropa comia rapadura, farinha e carne seca. Tinha comandante que cobrava dos homens o dinheiro da comida e depois embolsava.

  Lampião fazia suas fugas e tinha seus esconderijos, como exemplo, o Raso da Catarina, um lugar inóspito e perigoso que os soldados não aguentavam e pereciam. Outros comandantes assumiram depois de Dourado e até melhoraram as condições da tropa, com mais pistolas, assistência médica, binóculos e mais rastejadores.

  Nesse meio, veio a Revolução de 30, entre outubro e novembro. A luta pelo poder tomou lugar da captura dos cangaceiros. O combate contra o cangaço podia esperar na visão dos governantes. Com Getúlio Vargas, vieram os interventores que resolveram desarmar os sertões. A população ficou sem defesa para enfrentar os cangaceiros.

  Somente em fevereiro de 1931, o capitão Juarez Távora, chefe regional da polícia para o Nordeste, começou a reorganizar a polícia, mas pouca coisa aconteceu por falta de verba. Com isso, a campanha passou a se fixar no Rio de Janeiro.

  O regime de Vargas traçou seu plano para eliminar Lampião. No centro apareceu o capitão Carlos Chevalier, um aviador que divertia os cariocas com suas manobras de paraquedas. Pensaram em usar aviões para acabar com o cangaço.

  Com apoio do ministro do Interior, Oswaldo Aranha, foi criada a “Missão Chevalier”, com radiocomunicações e uso de mil soldados, mas a operação foi esbarrada na escassez de recursos. Pistas de aterrissagem teriam que ser construídas. Sugeriram até festa de gala para despedida do capitão, mas nada ocorreu.

  Chevalier chegou a sugerir infiltrar dois espiões no bando de Lampião. Somente em setembro de 1931, o governo federal liberou recursos para a Bahia, com a nomeação do interventor Juracy Magalhães, de 26 anos.

  Com muito alarde, o capitão João Facó, secretário de Segurança Pública da Bahia, começou uma campanha de perseguição e garantiu que iria fechar o cerco aos cangaceiros. Paraíba, Pernambuco, Alagoas e Sergipe entraram para cooperar.

  Enquanto isso, um jornal do Rio organizou até um concurso para ajudar a campanha. O “Diário da Noite” ofereceu um prêmio a quem desse a melhor sugestão de como matar Lampião. Coisas desse nosso Brasil. Foi um fato, por assim dizer, pitoresco.

  Um sugeriu que um avião jogasse uma bomba em cima do “Rei do Cangaço”. Outro alvitrou que mandasse um soldado, disfarçado de frade, para assassinar o “Governador do Sertão”. Enquanto isso, Lampião continuava agindo normalmente e piorou mais ainda com a morte do seu irmão Ezequiel, durante um combate num lugarejo chamado de Umbuzeiro de Touro, perto de Juazeiro da Bahia, em abril de 1931.

   Nisso, o chefe do cangaço se tornou inimigo de Petronilo Reis, e seus atos foram devastadores contra o fazendeiro que detinha o poder político na região de Santo Antônio da Glória. Com seu bando de 40 homens, arrasou o povoado de Várzea da Ema.

  Em novembro e dezembro de 31, o capitão Facó e o coronel João Felix resolveram apertar o cerco e viajaram para uma inspeção no interior, com o repórter Victor do Espírito Santo, do “Diário da Noite”, quando escreveu que Lampião era conhecido além da fronteira brasileira, pois sua fama se igualava à de Al Capone.

Como estratégia, Lampião fez acampamentos no Raso da Catarina e dividiu seu bando em três (Lampião, Corisco e Antônio de Engracia), para confundir e dar mais trabalho às forças policiais.

  No Raso da Catarina houve troca de tiros e, mais uma vez, Lampião tomou outro rumo desconhecido. Nesse período, entre final de 30 e início de 31, o bando começou a ser acompanhado de mulheres. Lampião foi o primeiro com Maria Bonita, ou Maria Déia (dona Maria Neném).