A CABANA DO OUTRO LADO DO MUNDO
(Chico Ribeiro Neto)
Eu tinha uns 9 pra 10 anos. Fazia parte da turma de rua da Ladeira dos Aflitos, em Salvador. A TV ainda não tinha chegado a Salvador (só chegaria em novembro de 1960) e as ruas eram nossa melhor diversão nos anos de 1957 e 58.
Na rua Tuiuti, que fazia esquina com a Ladeira dos Aflitos, em Salvador, havia um terreno baldio. O terreno era grande e numa parte funcionava uma oficina de automóveis. O resto do terreno era puro mato e muitos pés de mamona cujos gomos serviam como “balas” em nossas “guerras”.
Como fazem os sem-terra em área improdutiva, ali nos assentamos. Construímos uma cabana onde produzimos amizades e sonhos e desfrutamos da liberdade de estar sós, sem a chateação de pai e mãe.
Tudo foi feito na marra. Desmatamos uma pequena área e, com ajuda do pessoal da oficina, fincamos quatro estacas. Para a cobertura usamos uma lona de caminhão velha jogada no fundo da oficina. Sem janela, as laterais foram feitas com papelão e galhos de árvores.
Trouxemos de casa três banquinhos velhos onde ficavam revistas em quadrinhos. Foi numa delas, “Luluzinha”, que nos inspiramos para o cartaz na entrada da cabana. Na revista o personagem Bolinha mantém um clube de meninos com o lema “Menina não entra”, que a gente escreveu numa folha de caderno e pendurou na porta da cabana.
Não sou bom de medidas, mas a barraca devia ter uns 3 a 4 metros quadrados, o bastante para caber nossos sonhos. Fazia um calor retado, mas levar a merenda de casa pra lá tinha outro sabor.
Meu pai Waldemar ganhou uma caixa de charutos Suerdieck. Roubei um e levei para o nosso “clube”. Fumamos o charuto como o “cachimbo da paz”. Saímos tontos, enjoados e tossindo.
Daqui a pouco vamos para a Avenida Sete de Setembro para tocar campainhas das casas e sair correndo e sorrindo. E também um sobe no ombro do outro para roubar bandeirolas verde-amarelas que estão amarradas nos postes, esperando o desfile patriótico de 2 de Julho, data da Independência do Brasil na Bahia.
Fomos abandonando a cabana. A oficina cresceu, a lona apodreceu, uma estaca caiu. A cabana foi indo embora, ou foi a gente.
Ali ficou um pedaço bonito da nossa infância.
Segue o poema “Velha Chácara”, de Manuel Bandeira:
“A CASA ERA por aqui…
Onde? Procuro-a e não acho.
Ouço uma voz que esqueci:
É a voz deste mesmo riacho.
Ah quanto tempo passou!
(Foram mais de cinquenta anos)
Tantos que a morte levou!
(E a vida…nos desenganos…)
A usura fez tábua rasa
Da velha chácara triste:
Não existe mais a casa…
– Mas o menino ainda existe.”
(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)











