A QUESTÃO SOCIAL, A I GUERRA E A DECADÊNCIA NA INGLATERRA
No livro “Um Pouco de Ar, Por Favor”, o famoso escritor George Orwell, conta a história de George Bowling desde os tempos de criança e sua obsessão pela pesca; os hábitos das pessoas mais pobres e seus problemas sociais nos idos dos anos 1909 a 1918. É uma narrativa na primeira pessoa feita por George numa pequena cidade inglesa.
Nessa época, ele mostra uma Inglaterra em decadência com grandes desigualdades sociais onde muitas empresas comerciais estavam entrando em falência. Apesar da vida corriqueira, pacata e monótona da classe média e carregada de preconceitos, o autor da obra prende o leitor com seus mínimos detalhes.
Ainda jovem, entre 16 a 17 anos, o narrador se alista e participa da I Guerra Mundial (1914-1918), lutando na França contra a Alemanha. George Boelling mostra os horrores da guerra e as sujeiras nos campos e nas trincheiras das batalhas. São cenas de degradação humana, atos de estupro, inclusive de freiras.
Em toda sua narrativa, George está sempre falando de pesca, mas volta também sua atenção para a descoberta da leitura aos 10 ou 11 anos, de maneira voluntária. “Nessa idade é como descobrir um novo mundo”. Sempre me apaixono pelo best-seller do momento (Os Bons Companheiros, Lanceiros da Índia e O Castelo do Homem sem Alma).
Quando jovem ele se tornou membro do Clube do Livro da Esquerda. “Li as coisas que queria ler e tirei mais proveito delas do que jamais tirei das coisas que me ensinaram na escola”. Descreve também os semanários para meninos que circulavam naqueles tempos dos idos de 1900.
Como ocorre no Brasil de hoje e em outros países do mesmo nível desenvolvimentista, o escritor relata a situação do narrador da prosa que teve logo cedo de deixar a escola para trabalhar para ajudar sua família que tinha uma loja entrando em falência.
Num de seus diálogos de juventude, George Orwell destaca que “Algum dia, de uma forma ou de outra, haveria dinheiro suficiente para eu “me estabelecer” sozinho. Era assim que as pessoas se sentiam naquela época. Isso foi antes da guerra, lembre-se, e antes das crises e do desemprego”. Ele relata os tempos da grande concorrência comercial, mas enfatiza que havia lugar para todos.
Sobre a vida jovem, diz que “em alguma parte conhecida da cidade, os meninos caminhavam para cima e para baixo em pares, observando as meninas, e as meninas caminhavam para baixo e para cima em pares, fingindo não notar os meninos. E logo algum tipo de contato era estabelecido e, em vez de dois, estavam andando em quatro, todos os quatro totalmente mudos”.
Quanto a primavera de 1914, George, o narrador, ressalta que a vida era mais dura. “As pessoas em geral trabalhavam mais, viveram com menos conforto e morreram de forma mais dolorosa. O que era chamada de pobreza “respeitável” era ainda pior. Você via coisas horríveis acontecendo. Pequenos negócios falindo, comerciantes sólidos indo aos poucos à bancarrota, pessoas morrendo de câncer e doenças hepáticas…”
“Meninas arruinadas para o resto da vida por um bebê ilegítimo. As casas não tinham banheiro, você quebrava o gelo da sua bacia nas manhãs de inverno, as ruas de trás fediam como o diabo no tempo quente, e o cemitério ficava cheio no meio da cidade, de modo que você nunca passava um dia sem se lembrar de como teria que morrer”.
No que diz respeito à crença religiosa, o escritor assinala, através de seu personagem principal, que quase todo mundo ia à igreja, pelo menos no interior. As pessoas acreditavam em uma vida após a morte. “Mas nunca conheci alguém que me desse a impressão de realmente acreditar em uma vida futura. Acho que, no máximo, as pessoas acreditam nesse tipo de coisa da mesma forma que as crianças acreditam no Papai Noel. É fácil morrer se as coisas com que você se preocupa vão sobreviver. Você teve sua vida, está ficando cansado, é hora de ir para baixo da terra”.
Ao falar da guerra, ele indaga: “Você se lembra daqueles hospitais de campanha em tempos de guerra? As longas filas de cabana de madeira, que pareciam galinheiros, presas bem no topo daquelas colinas geladas bestiais – a Costa Sul, as pessoas costumavam chamar assim, o que me fez imaginar como seria a Costa Norte – onde o vento parece soprar de todas as direções ao mesmo tempo”.
“Qualquer um que fosse forte o suficiente costumava vagar por quilômetros nas colinas na esperança de encontrar garotas. Nunca havia suficiente para todos. Um garoto de rosto rosado, de cerca de oito anos, caminhou até um grupo de homens feridos sentados na grama, abriu um pacote de Woodbines e prontamente entregou um cigarro a cada homem, era exatamente como alimentar os macacos no zoológico”.











