BODE E VACA CURTIAM ADOIDADO
(Chico Ribeiro Neto)
Zé da Baixa gosta de contar uns casos difíceis de acreditar, mas fáceis de fazer rir. Quando toma umas duas, então, Zé se solta, e tome-lhe história. Conta todas com aquele jeito sério do bom culhudeiro, pois mentiroso é palavra pequena pra ele.
De bode, então, ele é cheio de casos. Outro dia, na Barraca de Isidro, falava-se de roubo de animais quando Zé tomou a palavra pra contar como é que se rouba bode na terra dele: “Você joga um algodão com éter, e o bicho vem doido. Cheira, fica tonto, e aí você pega ele com a maior facilidade e coloca dentro da camionete”.
“Vai ver”, comentou um dos frequentadores de Seu Isidro, “que ele gostava mesmo era do cheirinho da loló, muito usado no Carnaval”. Zé completou na hora – pois mentiroso sempre está acrescentando – dizendo que o bode cheirava loló mesmo, pois fora criado no quintalzinho de uma prostituta na Ladeira da Montanha e que, no Carnaval, não tinha quem segurasse o bicho. Teve um dia que seguiu o trio elétrico de Dodô e Osmar da Praça Castro Alves até o Campo Grande e voltou descansando num afoxé. No Campo Grande teve até confusão, pois queriam pegar ele pra churrasquinho.
Se o bode do interior cheirava éter, viciado que era dos tempos da capital, o que acontecia com os outros bichos? Mais animado ainda – pois mentiroso, quando a plateia aumenta, o tamanho da culhuda também cresce -, Zé da Baixa passou a falar da vaca de Zé Paulino, viciada em maconha. Trocava qualquer capim colonião por umas folhas da erva maldita.
A vaca, que se chamava “Fumacinha”, chegou até a ser usada pela Polícia Federal numa das batidas em Juazeiro e no sertão de Pernambuco. “Era só soltar a bicha que ela ia certinha na plantação de maconha. Todo mundo preso, a plantação queimada, mas antes se tirava uns molhezinhos para acalmar “Fumacinha”, que já tinha dois bezerros começando a enjoar do colonião, esse capim que não tá com nada”.
Ele dizia, também, que a tal vaca chegou a passar uns tempos em Arembepe, na década de 70, e não podia ver barraca de hippie armada que encostava, já fuçando pela janelinha algum cheiro conhecido. Foi dessa época o colar de pedras peruanas que segura seu sininho até hoje. Também o coraçãozinho de prata, que usa na pata direita.
Segundo Zé da Baixa, tem vaqueiro que costuma notar, de noite, um foguinho aceso no curral. Quando vai ver, é “Fumacinha” acendendo um incenso e mugindo umas canções dos Hare Krishna. Outro vaqueiro mais velho atesta que ela chorou de fazer dó no dia em que John Lennon foi assassinado e que só não foi, agora, pro show de Paul McCartney, no Rio, porque o único caminhão disponível já tinha sido fretado pelo bode da loló, que levou amigos e cabritas.
Zé confessa que não sabe o que levou “Fumacinha” a isso. Se foi a falta de pasto ou a desilusão amorosa com o touro “Carambola”, aquele que passou a se chamar “Caramba” depois de um salto mal dado por cima da cerca de arame farpado, onde ficaram as bolas.
Outros acham que foi um macaco que andou pela cidade tempos atrás, que tinha um embornal de onde saía o diabo. Dizem que esse macaco mora hoje na Colômbia.
(Crônica publicada no jornal A Tarde em 12/5/1990)
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