:: 27/nov/2025 . 23:09
O PLANO DE CULTURA QUE QUEREMOS
Será que desta vez sairá mesmo o Plano Municipal de Cultura de Vitória da Conquista, tão almejado há anos pelos artistas? Ou será um mero ensaio, como na última conferência realizada no final de 2023, no Centro de Cultura Camilo de Jesus Lima? Cadê o relatório dessa conferência de dois dias?
Quando fui presidente do Conselho Municipal de Cultura, de 2021/23, foi uma das minhas bandeiras, mas foi travado por diversas vezes pela Secretaria de Cultura junto ao executivo. Houve até entendimentos com o Sabre no sentido da sua elaboração, só que nem ocorreu a primeira reunião marcada entre seus membros.
Bem, tudo isso do passado não nos importa mais. Agora a Secretaria vem procedendo chamamentos para escuta dos artistas e fazedores de cultura, com vista à elaboração desse Plano. Será apenas um factoide para que os artistas esqueçam do fechamento dos equipamentos culturais do Teatro Carlos Jheovah, Cine Madrigal e Casa Glauber Rocha?
Vamos colocar mais um voto de confiança, mas a pergunta que não quer calar é como será feito esse Plano? Qual Plano que queremos? Não posso responder por todos, mas antes de tudo, que seja democrático e abrangente a todas linguagens artísticas, não deixando de lado a nossa cultura popular, aquela das periferias e da zona rural.
Queremos um Plano que seja aprovado pela Câmara de Vereadores e se torne lei orçamentária, cujos projetos nele estabelecidos se tornem parte do nosso calendário cultural e sejam cumpridos pelos prefeitos, como por exemplo, realização de uma feira literária, salão de artes plásticas, festivais de música, dança e teatro, além do Natal e do São João autêntico, do tipo pé de serra.
Não queremos um Plano de faixada que fique apenas no papel onde o prefeito, ou a prefeita, não tenha obrigação de executá-lo. Queremos um plano com um olhar mais focado na juventude, principalmente das periferias, com a criação de núcleos culturais nessas comunidades. Queremos um Plano onde seja criada a Fundação Cultura que irá administrar e fixar as diretrizes da política pública cultural.
Queremos um Plano que agilize a abertura dos equipamentos culturais, para que os artistas possam usufruir desses locais para realização de seus ensaios e espetáculos. Vamos criar o Plano e deixar esses equipamentos fechados?
Acima de qualquer coisa, queremos um Plano bem estruturado que venha revitalizar a nossa cultura e que esteja à altura da cidade, a terceira maior da Bahia com cerca de 400 mil habitantes. Portanto, temos que pensar alto porque a nossa cultura está abandonada.
Não adianta todo esse esforço para construir um Plano que depois venha ser engavetado nos gabinetes dos prefeitos, daí a importância dele vir a ser aprovado como projeto-de-lei pela Câmara Municipal de Vereadores. Sem esse aval, este Plano estará fadado a ficar apenas na escrita, como um documento qualquer.
FICA MAIS CLARO NO ESCURO
(Chico Ribeiro Neto)
Faltou luz hoje no meu prédio. Vai ser das 8 às 18 horas, para trocar a central de energia.
Aí lembrei que, ainda pequeno (6/7 anos) peguei o sistema da “luz do motor” em Ipiaú (BA), onde nasci. A luz desligava às 21 horas e só voltava na manhã do dia seguinte.
Tava na hora de acender os candeeiros, um na cozinha, um na sala e cada um num quarto. Havia também o famoso “Aladim”, que alumiava a casa toda, mas nem todo mundo tinha condição financeira de ter. O “Aladim” tinha uma tal de “camisa” que quando queimava a gente tinha que ir correndo comprar outra. O rádio continuava tocando, porque era ligado a uma bateria de carro, e a geladeira continuava funcionando, pois era movida a querosene.
As crianças adoravam quando faltava energia, principalmente quando tio Rubens contava histórias de assombração. Também era hora de fazer figuras com as mãos diante da vela que projetava as sombras na parede. O bicho mais fácil de fazer era o cachorro, mas tinha quem sabia fazer gato, coelho, caranguejo e até dinossauro.
Houve um tempo também em que, durante uma semana, só tinha luz à noite em metade da cidade, ficando a outra metade para a próxima semana, num rodízio do breu. Meu pai Waldemar tinha padaria e, na semana em que faltava luz na nossa metade, ele dava pra gente umas cédulas que passavam na padaria, daquelas “pedaço de um, pedaço do outro” (as melhorzinhas) e mandava a gente ir na sorveteria logo depois que a luz era desligada. A gente ia com uma panela, enchia de picolés, dava o dinheiro ao atendente que estava à luz de velas, e se picava.
Teve o caso de Zé, um homem casado, que morava numa outra cidade do interior da Bahia que também tinha “luz de motor”. Ele foi no brega e depois de várias “pingas” e uma bimbada, agarrou no sono.
As lâmpadas da casa piscavam três vezes, às 20:50, para avisar que dentro de 10 minutos a luz seria desligada. Mas Zé a essa altura não piscava mais nada. Quando acordou, às 23 horas, deu um grito de espanto: “Vixe, a luz já foi embora! Preciso ir pra casa”. Chegou em casa, a mulher roncava e ele, morto de sono, só fez tirar a calça e apagou na cama. Acordou cedo com os gritos da mulher: “Zé, que diabo é isso? Tu tá de calçola?” Na pressa de sair logo do brega, ainda grogue da cachaça e já agoniado, no escuro total que nem breu, Zé vestiu a calçola de algodão da prostituta. E admitiu logo que era coisa do Demo: “Vixe, mulher, só pode ser feitiço! Eu juro que deitei de cueca! Isso é arte de alguém que quer ver a gente separado. Vixe, não pega não, mulher! Faz mal! Temos que tocar fogo logo nisso!”
A mulher de Zé, que morria de medo de feitiço do Diabo, levou a calçola na ponta de uma vassoura para o quintal. Se benzeu 3 vezes e tocou fogo na calçola do Capeta, Zé rezando do lado. Jogou a vassoura novinha no lixo e rezou três Pai Nosso.
Já adulto, na Redação do jornal A Tarde, faltou energia uma noite e um colega deu uns gritinhos finos e histéricos. O saudoso poeta Béu Machado arrematou: “É no escuro que as coisas ficam mais claras”.
(Leia crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)
O ANTIGO E O MODERNO
No bico da pena, o grande artista das pegadas nordestinas, no sabor da vida simples dos sertões, Silvio Jessé nos apresenta uma exposição inédita que retrata o antigo e o moderno dos 185 anos de emancipação de Vitória da Conquista. Vale a pena visitar seus trabalhos que estão no “Memorial” da Câmara Municipal de Vereadores. A partir da visão do príncipe alemão Maximiliano, que visitou o arraial da Conquista, por volta de 1917, Jessé nos presenteia com belos quadros sobre a cidade antiga e a moderna, mostrando sua evolução nos tempos. Sua sensibilidade ultrapassou fronteiras entre o regional e o internacional, com pinturas encantadoras e realistas sobre o nosso sertão nordestino. Ele tem um olhar artístico que faz a pessoa penetrar em suas paisagens, de tão reais que são.
Como o pintor espanhol Pablo Picasso que retratou os horrores da guerra civil espanhola e as atrocidades do ditador Franco, o nosso artista conquistense Silvio Jessé pincela, em outras obras, os sofrimentos dos sertanejos diante da seca e da omissão dos políticos e governantes em resolver os problemas do homem do campo. Sílvio é o Picasso do sertão, embora com outras formas, linhas e estilos modernistas.
Lembro como jornalista de uma entrevista que fiz há muitos anos sobre o trabalho de Silvio onde ele recordava da sua infância numa fazenda do município de Vitória da Conquista. Dizia que foi ali que começou a aprender a pintar, usando a terra e olhando as pessoas, seus costumes e hábitos. Tudo isso é vida e pura poesia que transborda da alma.
Como escreveu a curadora Ester Figueiredo sobre sua última exposição no Centro de Cultura Camilo de Jesus Lima, com o tema “Sertão Colorido Quanto Preto e Branco, obras inspiradas no grande fotógrafo Evandro Teixeira (saudades do amigo que se foi), Silvio Jessé é tudo isso, expressão maior do seu tempo de moleque travesso na roça.
QUEM VIVER, VERÁ…
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
É o início do fim,
Quem viver, verá
Subirem as águas do mar.
Cidades serão inundadas,
Quem viver, verá
Capitais sairão do radar.
Os escombros da terra,
Quem viver, verá
A poluição apagar o luar.
Toda geleira vai derreter,
Quem viver, verá
Os viventes tombarem sem ar.
As florestas vão deixar de existir,
Quem viver, verá
O solo deserto salgar.
Ventos, raios e furacões,
Quem viver, verá
Ranger de dentes e chorar.
A luxúria do consumismo,
Quem viver, verá
O planeta de lixo se lixar.
Enchentes, secas e fome,
Quem viver, verá
Não se ter mais nada pra comprar.
As quatro estações do ano,
Quem viver, verá
Não haverá mais tempo pra plantar.
Os poços do óleo petróleo,
Quem viver, verá
Não terão mais energia pra jorrar.
O rico vai ficar pobre,
Quem, viver, verá
Todos vão se igualar.
Os segredos vão ser revelados,
Quem viver, verá
E o amor vai perdoar.
Seus desuses não vão mais te olhar,
Quem viver, verá
Não adianta mais orar.
Sem mais abelhas pra florar,
Quem viver, verá
Não terão mais flor a polinizar.
A noite vai virar dia,
Quem viver, verá
É o aquecimento solar.
Quem sabe as trevas!
Quem viver, verá
Sem mais tempo pra clarear.
Não mais cientistas pra alertar,
Quem viver, verá
Porque não tem mais nada pra profetizar.
- 1















