novembro 2025
D S T Q Q S S
 1
2345678
9101112131415
16171819202122
23242526272829
30  

:: 24/nov/2025 . 22:50

O NAMORO E O AMOR DAS ANTIGAS

Só os mais velhos lembram e sabem como era o namoro e o amor das antigas, isto até as primeiras décadas do século passado, principalmente nas pequenas cidades e nos cafundós do sertão.

As donzelas não saiam de casa porque os pais não deixavam e, numa oportunidade qualquer, ficavam das janelas olhando os rapazes passarem. Nas brenhas rurais, praticamente ficavam nas cozinhas com as mães. Eram bem mais oprimidas pelo pai, o chefe patriarcal que não queria ter uma filha difamada na boca dos outros.

Muitas não aguentavam a “prisão” e fugiam com o primeiro namorado. Por aquelas redondezas dos povoados e cidades, ainda menino, ouvia muito aquele falatório de que “João roubou Maria na calada da noite, na garupa de um cavalo e caíram no mundão do meu Deus”.

Ai de quem se atrevesse desonrar uma virgem! O cabra era obrigado a se casar com uma peixeira ou um trabuco nas costas. Tinha que dar o sim no altar. Uns pegavam “os panos de bunda” e fugiam para São Paulo. Era o maior desgosto dos pais ter uma filha desonrada. Quem tinha posse pagava um pistoleiro, ou o próprio ofendido mandava a alma do sujeito pros quintos dos infernos.

Havia coronel e roceiro tão brabos que os homens tinham medo de se aproximar da filha ou das filhas, que começavam a ficar para titia. No século XIX ainda era pior, quando o pai era quem escolhia o marido, e a noiva só o conhecia na hora do casamento, muitas vezes era um velho caquético caindo aos pedaços, porque tinha uma boa herança para deixar.

Eram os casórios arranjados e muitas diziam que não gostavam do indivíduo tabaréu, meio troncho e desajeitado. O lamento sempre era ouvido pela mãe, que consolava a filha chorosa pelos cantos porque se engraçou por outro mais simpático.

– Calma, minha filha, a vida é assim mesmo, você casa, vai se acostumando e, com o tempo, vem o amor. “Foi assim com seu pai. Hoje já tem mais de 30 anos que nos casamos”. Ah, casamento era para sempre, mesmo no sofrimento e na dor. O que Deus uniu não se separa.

Pois é, mas os tempos foram mudando e o namoro de pegar na mão e ficar mais perto um do outro foi chegando, só que com um acompanhante do lado, espiando tudo.

Era a mãe, uma tia, uma avó ou um irmão, que ia junto à praça comer pipoca, visitar um parente ou outro lugar. Nada de beijo, mas num vacilo – dava-se jeito para tudo -, os dois começavam a se esfregar. No atraca-atraca, o cara até ejaculava na calça ou na cueca. Não era mole, não!

Com a evolução, as moças ficaram assanhadas e esse negócio de donzela foi ficando para trás. Mesmo assim, ainda eram os homens que tomavam a iniciativa, insistiam e chegavam juntos. Os introvertidos e os tímidos eram os mais cobiçados com os olhares. Nem se falavam em assédio sexual, que virou crime.

O macho fazia de um tudo para ir às vias de fato, mas a virgindade ainda era um tabu para a maioria das moçoilas de família. A religião dizia que era pecado dos graves. No sentido intuitivo, o comportamento dos animais silvestres para pegar a fêmea é bem parecido com o do homem. Ambos ficam engabelados e abrem suas “asas” para impressionar o lado feminino.

– Não insista, sou dou a “periquita” depois de casar – endurecia a jovem, mesmo com o corpo pegando fogo na base do beijinho, beijinho e no agarra, agarra. Ufa, não era fácil aguentar a tentação! Algumas terminavam dando mesmo. Depois eram outros quinhentos!

Conheci um amigo de longas farras que se apaixonou por uma loiraça bonita, que garantia para ele que era virgem, apesar das “bocas pequenas” comentarem o contrário. Ele preferia confiar nela.

Casaram-se com juras de amor e programaram uma noite de núpcias, ou lua de mel, num hotel. Foi lá que o noivo descobriu tudo e fez aquele escândalo e, decepcionado, partiu para o maior porre de sua vida.

Nos dias atuais, não existe mais essa do homem tomar a iniciativa. As mulheres ficaram mais decididas e partem logo para o “vamos ver”, sem aquele namoro das antigas. Em muitos casos, o amor à primeira vista termina no motel. Com o crime de assédio sexual, os homens ficaram mais retraídos e alguns são até chamados de frouxos.

O intervalo entre o primeiro beijo e o casamento ficou bem mais curto. No altar, ou no civil, são aquelas juras de amor, de serei fiel na alegria e na tristeza, na pobreza e na riqueza, na saúde e na doença até que a morte nos separe.

Em muitos casos, em pouco tempo, lá vem a separação. Cadê aquelas juras sinceras de amor? Como na canção de Raul Seixas, tudo não passa de falsidade. Basta um ficar na pobreza ou ter um entrevero, que o outro dá no pé.

Esta de até que a morte nos separe me faz lembrar do poeta boêmio Vinícius de Morais, de que o amor é eterno enquanto dura. No amor das antigas, os casamentos eram mais duradouros, se bem que por diversos motivos de ordem religiosa do juramento, da mulher não ficar falada na sociedade, dentre outras razões, inclusive por amor, depois de longa vivencia.

Até hoje ainda não existe aquele casamento de faixada ou de aparência, onde os dois dormem em quartos diferentes, mais para não ter que dividir os dotes? De qualquer forma, viva o amor, mesmo que seja passageiro, moderno ou das antigas.

 





WebtivaHOSTING // webtiva.com . Webdesign da Bahia