Certa vez o “rei do cangaço” e “governador do Sertão”, como muitos o denominavam, disse que deixaria de ser cangaceiro se fosse para ser presidente da República. Aliás, o primeiro a ser chamado “governador do Sertão” foi Antônio Silvino, isto até 1914 quando ferido se rendeu. Ele apelidava Lampião de “meu príncipe”.

Não se sabe ao certo se foi boato, lenda, ou não, mas deve ter sido quando foi convidado a ir a Juazeiro do Norte para combater a Coluna Prestes, por volta dos anos 30. Confundiram o juízo dele que já estava torrado de tanto sol e espinhos.

Pensando bem, já tivemos vários tipos de presidente, até um descendente de cigano, generais da ditadura, uns bons e outros não, uns exóticos e estrambólicos malucos, sem citar nomes. É bom não queimar e poupar os neurônios.

Então, vamos aqui viajar em nosso imaginário do realismo fantástico no caso de Lampião ter sido presidente da República, naquela época, entre o “arcaico” e o moderno.

Seu primeiro ato seria mandar surrar as mulheres de cabelos curtos e com saias um pouco acima do joelho, até correr o sangue em suas carnes. Só Maria Bonita ousou colocar esses trajes para se proteger dos garranchos da caatinga, do agreste e do sertão.

Ah, Maria Bonita seria ministra das Mulheres, com a incumbência de acabar com o cativeiro delas nas famílias. Seria Bom. Dadá poderia até ser ministra da Cultura, para incentivar as artes moralistas escolhidas por ela.

Lampião gostava de ouvir boas músicas em seus esconderijos e dançar o xaxado com seu bando. Adorava uma sanfona. Apreciava também que os fotógrafos tirassem fotos suas para exibir sua força e provocar os governantes. Era dado às artes. No entanto, talvez extinguisse o Ministério da Educação.

O padre Cícero Romão Batista, o seu idolatrado “Padim Ciço” seria nomeado ministro da Justiça, da Moral e dos Bons Costumes. Mandaria degolar Carlos Prestes e seus oficiais, os satanases comunistas vindos lá da União Soviética. Iria sobrar também para os ex-presidentes Artur Bernardes e Getúlio Vargas, com final trágico. A imprensa seria censurada e só pulicaria o que fosse do seu agrado.

Lampião decretaria a religião católica como a oficial do país, como fez o imperador Constantino na Roma do império em decadência. Todas regalias para os padres sacerdotes que deveriam ser venerados pelos fiéis como santos intocáveis, com bons salários.

O misticismo religioso, as superstições, os mandingueiros “fecha corpo” com suas rezas dos santos arcanjos Gabriel e São Jorge seriam preservados e seus praticantes ganhariam um bom dinheiro. Trataria os negros com desprezo, como raça inferior.

Para as outras religiões, ele mandaria queimar todos seus membros nas coivaras nordestinas, ou ordenaria suas tropas fuzilar todos nos paredões. Acabaria com os direitos humanos e nada de liberdade de expressão.

“Zé Baiano”, o grande agiota e ferrador de mulheres, seria indicado como ministro da Fazenda. Ia ter muita grana nos cofres públicos para dividir boa parte entre eles.

Seus “cabras” da peste, como Volta Seca, Gato, que matou toda família, Sabino, Turco Cândido, Xico Pereira, Paizinho Baio, o “Lampião do Agreste”, Jurema, Jararaca, Tenente, Fiapo, Andorinha, Nevoeiro, Gavião, Trovão, Mormaço, Cocada, Pontaria, Cobra Verde, Vereda e tantos outros seriam chefes de polícia ou teriam algum lugar nas pastas dos ministérios.

Corrisco, que chegou a servir o exército, seria comandante-chefe das Forças Armadas, com toda autonomia para praticar suas atrocidades contra qualquer opositor ao seu regime tirânico.

Os “coronéis de patentes”, nem todos, só seus aliados, seriam proclamados governadores das províncias ou dos estados. Para os outros adversários, autorizaria serem eliminados na base do punhal, do rifle e do fuzil.

Não vamos só imaginar coisas ruins e macabras. Como ele violentou muita gente, roubou até dos pobres dando a eles as migalhas das moedas, poderia se redimir de seus pecados hediondos e mandar distribuir muito dinheiro e alimentos para os miseráveis do nosso Sertão Agreste Nordestino. Seria o primeiro presidente a instituir o Bolsa Família.

Para os sulistas, só castigo de carregar pedras para erguer as construções, na condição de escravos. Ninguém mais iria esculhambar e debochar dos nordestinos. Seria um bom patrão para pagar bem os seus asseclas e abraçaria a todos com amizade, com viés marxista, embora de forma inconsciente.

Ordenaria importar perfumes franceses e máquinas modernas do exterior, principalmente as de costurar e bordar. Seu ministro nesta área poderia ser até o Antônio Silvino, desempregado e regenerado, depois de passar mais de 20 anos de cadeia na Casa de Detenção do Recife, ao lado do comunista Gregório Bezerra.

A segurança seria altamente reforçada com pena sumária de morte para os bandidos quadrilheiros. Bandoleiro só admitiria ele como presidente da República. Não que isso aí seria bom e politicamente correto. Mas, esse termo nem existia naquela época.

Acho que está bom, sem mais delongas. Como neste país é tudo falso como uma nota de três e misturado como os destilados, o resto é só vocês colocarem a imaginação para funcionar, se Lampião fosse presidente da República.