O espírito racionalista grego desde o período republicano romano começou a perder terreno para uma atitude religiosa e mística, tanto no Oriente, na Idade Helênica, como no Ocidente após as guerras civis do século primeiro a.C. Correntes religiosas conquistaram o povo no século I da era cristã.

O interesse pela religião não morreu com Augusto. A religião do Estado visava o imperador e a Trindade de Júpiter, Juno e Minerva. Essa religião era o centro da vida das cidades e do exército. Deferia das religiões das guerras civis e da divinização de Augusto como salvador. O livro “História de Roma”, de M. Rostovtzeff conta toda trajetória desta evolução.

O estoicismo e outros meios de satisfação

O culto estatal da antiga Roma e do imperador tornou-se sem vida e impessoal. O povo se reunia nos templos e prestavam tributos ao poder divino, graças à existência do Império. Esses ritos não proporcionavam consolo para aliviar as dificuldades. Além do culto ao imperador, a consciência religiosa exigia outros meios de satisfação.

As classes educadas valiam-se do estoicismo com sua moral e teologia panteísta. O estoicismo era frio, lógico. A astrologia era insatisfatória. Era natural que o racionalismo estoico desse lugar à versão mística platônica e pitagórica, e florescesse o conhecimento espiritual esotérico. No final do século II, essa tendência conquistou novos adeptos e produziu personalidades notáveis pregando o neoplatonismo.

Nos primeiros dois séculos, os principais representantes da religião e da filosofia são Epicteto (escravo), Sêneca (Senado) e Marco Aurélio, o imperador. No III século, Plotino foi o grande pensador e profeta. Essa escola formula uma teologia e uma doutrina dos meios onde os poderes espirituais podem ser colocados à serviço do homem. Estes são os combatentes na batalha contra o cristianismo.

As classes médias, ora seguem as superiores, ora as inferiores. As mais baixas alimentavam o sentimento religioso. Nos dois primeiros séculos mantém a tendência aos cultos locais. Na Itália, volta o culto doméstico dos Gênius, Lares e Penates, que preservou a vida, a prosperidade da casa e da família. Continua existindo a velha religião greco-romana dos deuses e deusas – a Fortuna e Mercúrio.

Culto aos próprios deuses

As províncias rendiam homenagens aos seus próprios deuses. Os celtas dedicavam louvor aos deuses da natureza, do estado, fadas e ninfas. Os trácios, aos deuses das florestas, jardins, caçadores e guerreiros. Os ilírios, aos deuses das montanhas. Os africanos se voltavam para as divindades bérberes e semitas (Baal e Tanit, Saturno, Juno e Celeste). Os anatólios adoravam a Grande Mãe. Os Sírios tinham variedades ao deus sol. O Egito mantinha sua antiga religião – Serápis – e a uma versão de Ísis. Nunca se levantaram tantos templos e altares e se sacrificaram mais vítimas na história.

Cultos orientais se difundiram. Essa tendência cresceu no período persa e ficou forte na época helênica entre o Império Romano. As mais antigas religiões eram as egípcias e anatólias (Serápis, Ísis e Harpócrates) e o culto à Grande Mãe, deus dos céus, do sol, Mitras e Sabázio. Cada uma tinha suas teologias, com ritos místicos e hierarquia sacerdotal.

O CRISTIANISMO

 Antes disso, quando a dispersão dos judeus ocorreu na era helênica, as comunidades espalharam o cristianismo até o Império. Acompanhando os comerciantes do Oriente, tais crenças atingiram os grandes centros, formando sociedades religiosas fechadas.

Os imperadores não se opuseram, desde que não fossem contra à sua supremacia. O despotismo esclarecido se dispunha a favorecer a difusão, desde que não contrariasse as leis, e não se envolvessem com a política. Assim, os cultos existiam lado a lado entre as locais e as orientais.

O exército era um dos principais centros do sentimento religioso. Tinha o culto oficial ao imperador, ao deus Marte e à Trindade Romana. Lado a lado cresce o culto às divindades locais no campo fortificado. Na Criméia era Artemis. Fora das muralhas, os deuses trácios. Os africanos, anatólios e sírios trouxeram os deuses orientais.

No século III floresceram os trácios, e os ilírios levaram a imagem do deus Mitres, um herói destruindo as forças do mal. O exército do Danúbio teve papel destacado, e a trindade adorada por ele foi reconhecida nos mais altos círculos. O Estado não ignorava os movimentos religiosos. Os imperadores procuravam utilizar as forças religiosas para amarrar a ligação permanente entre o exército e o trono.

A IGREJA CATÓLICA

Enquanto isso, a seita cristã se destacava com um grupo de discípulos que celebravam a vida terrena de Cristo. O gênio do apóstolo Paulo apareceu numa liga bem organizada, espalhada por todo Oriente, abrindo caminhos na Itália. Paulo preparou tudo para que fosse fundada uma Igreja de missão universal, com bases teológicas, moral e cristã, no que terminou sendo a Igreja Católica.

Recusa dos cristãos ao culto ao imperador

As comunidades cristãs entraram em choque com o poder civil. As causas não são claras. A perseguição era estranha à política habitual dos imperadores. Ela pode ter sido provocada pela recusa dos cristãos ao culto particular prestado ao imperador ou, talvez, as comunidades cristãs fossem consideradas sociedades ilegais. De qualquer modo, havia uma lei no reinado de Trajano que tornava possível tal perseguição.

Embora o cristianismo não fosse hostil ao Estado, tornou-se, em consequência da atitude adotada pelas autoridades contrária ao governo. A perseguição só lhe deu mais forças para aperfeiçoar sua organização. Os cristãos procuravam tornar a religião inteligível e acessível, não só ao povo sem cultura, como às classes mais esclarecidas.

Orígenes

Um dos grandes gênios do cristianismo foi Orígenes, que estabeleceu uma conexão entre a religião e a filosofia antiga. No século II e III testemunharam lento desenvolvimento da nova doutrina. No século III, época da convulsão política, marcou uma crise na sua evolução.

Abandonando a atitude de tolerância quase completa, os imperadores Maximino, Décio e Valeriano declararam guerra aberta aos cristãos. Houve crescente influência do cristianismo no exército que ameaçava minar a lealdade dos soldados. Muitos tombaram mártires por causa de sua fé.

Pela sua organização, os adeptos se convenceram que sua Igreja era indivisível e poderosa. A filiação ao Estado trazia sofrimentos, ao passo que a filiação à Igreja representava conforto material e moral. A doutrina nova exigia que todos amassem e ajudassem o próximo.

Perseguição de Diocleciano e o Estado perdeu a batalha

Diocleciano e seus sucessores ofereceram ao cristianismo a última batalha. Diocleciano realizou perseguição sistemática, tentando forçar a Igreja a submeter-se e a fundir sua sociedade com o Estado. Isso era incompatível como princípio básico do sistema ´despotismo calcado na submissão de seus súditos. Os cristãos tiveram perdas, mas o Estado perdeu a batalha.

A vitória do cristianismo representou um rompimento com o passado, e uma nova atitude na história do espírito humano. Os homens voltaram-se para o credo que lhes permitia calma ao espírito agitado, que podia trocar a dúvida pela certeza, que dava solução final a uma multidão de problemas e preferia a teologia no lugar da ciência e da lógica.

O começo do século IV ignificou o voltar de uma nova página de assuntos estranhos na história da humanidade. O cristianismo assegurava uma felicidade além-túmulo. As esperanças humanas se transferiram para a vida futura. Os homens se resignavam ao sofrimento. Este estado de espírito era estranho ao mundo antigo, até mesmo às primitivas nações do Oriente, para não falar dos gregos e romanos.