A VERDADE NOSSA…
É mais um texto do livro “ANDANÇAS”, de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário, lançado recentemente e que pode ser encontrado na livraria Nobel, na Banca Central, ou através do próprio autor, também da obra “UMA CONQUISTA CASSADA” e outras.
Há mais de dois mil anos Cristo disse: “Eu Sou a Verdade e a Vida”. Na época, quase ninguém acreditou. Terminou sendo flagelado e crucificado em nome desta verdade. Antes Dele, há 2.600 anos, os filósofos gregos ditavam sua verdade, passeando pelas ruas de Atenas. Contam que Sócrates tomou cicuta em nome da sua verdade. Muitos procuraram uma resposta nos deuses e mais tarde se decepcionaram. Os egípcios tinham sua verdade nos faraós. No deserto edificaram suas pirâmides de sabedoria, mas nem por isso se tornaram donos da verdade.
Desde os primórdios dos tempos, os homens se inquietam e se agarram aos sinais, tentando captá-la por aí com suas antenas parabólicas. Transbordam ansiedades. Uns jorram inquietações pelos planetas a fora. Outros preferem ficar no sofismo. Onde está mesmo essa verdade? Entre as estrelas? Qual o sentido de viver? A vida já é uma verdade? Que verdade é essa que nos ensinam valorizar a morte?
Mentira e verdade andam em lados opostos e, às vezes, juntas. Às vezes se confundem. No mundo materialista, a mentira vive camuflada num aparente conceito de verdade, como no prazer a qualquer preço, na estética da beleza e nas propagandas enganosas. A filosofia espiritualista diz que ela tem a verdade na reencarnação. Como encontrá-la? A verdade é uma “metamorfose ambulante”?
A verdade, nada mais que a verdade. Jura dizer só a verdade? Aí vem a mentira como moeda corrente e ofusca a verdade. O filósofo britânico Simon Blackburn conta a história da verdade na cultura ocidental, desde os gregos, passando pelas narrativas bíblicas, os pensadores da Idade Média, o pragmatismo americano e os pós-modernos.
O ex-presidente Bush, o filho, (EUA) mentiu sobre a existência de armas químicas no Iraque. Mesmo assim, foi reeleito. O cidadão deve, a esta altura, estar se perguntando: por que dar tanta atenção á verdade, se a mentira dá tanto resultado? Vivemos mais da mentira, ou da verdade?
Os tempos se evoluíram e a verdade sempre foi imposta sob diversos pontos de vista, com faces diferentes, sombras e dúvidas. Analisem sob a ótica da religião; em termos subjetivos e objetivos; absolutos e relativos; sob os ângulos filosófico, material e científico; e ainda no campo da política e da justiça.
Na sociedade moderna, ela se torna camaleão, de acordo com o meio em que se vive, dando sensação ilusória de que basta lustrar a couraça para se
tornar confiável. No mundo do consumismo ela está sempre mudando de imagem e de cor. Na estética da beleza, a verdade aparece como caminho de sucesso. Uns dizem que é fundamental. Outros que é uma coisa relativa e banal. O medíocre sobrevive e a competência falece. A aparência faz escárnio do conteúdo. Não se valoriza mais o caráter. O mundano virou celebridade. O homem é produto do meio? Carrega na sua essência o DNA do mal? Para uns, sim, para outros, não.
Cada religião, cada seita, cada credo, cada simbolismo, cada slogan, cada código procura transmitir e defender sua verdade, mesmo que seja através de dogmas da fé. Os deuses estão por todos os lugares, com faces e visões diferentes. Cada um com seu caminho de salvação. O vazio faz aumentar a concorrência da crença e da cura do espírito. A busca é incessante.
Nunca se acreditou tanto em tantas coisas fúteis e descartáveis dentro de um materialismo vulgar e adorado. É a “corrida do ouro de tolo”. Será que o entrevistado a uma vaga de emprego fala a verdade? Seu comportamento diante do entrevistador é a sua verdade? Ele foi treinado para seguir um padrão ditado pelo mercado. Quem está com a verdade?
No mundo moderno da competição, uma espada está sempre apontada para nossas cabeças. Nos corrige a todo momento. Nos recomenda o que fazer, como vestir, o que comer, como se expressar, como andar, como apertar a mão, como se emocionar e sentir sua própria dor. Não temos mais domínio de nós mesmo. Nada de arbítrio. Não posso dizer e escrever toda verdade.
A mídia eletrônica, a escrita, os programas televisivos nos enchem e nos entopem de receitas (falsas ou verdadeiras), costurando nossas vidas sobre como se alimentar e sobreviver nesta estrada violenta. Nos cercam por todos os lados como se fossem nossos donos, e nós os escravos obedientes. As receitas e as normas de conduta estão por todos os lados. As placas nos confundem. As cartilhas se espalham. Os conceitos e princípios são os mais variados.
Não é preciso ver para crer. A teologia “garante” uma verdade metafísica, não palpável e material. É preciso fé para acreditar. No cristianismo existe o mistério da Santíssima Trindade, onde os fiéis são convocados ao chamamento da verdade. O islamismo e o judaísmo também têm suas simbologias “incontestáveis”. Quem está com a verdade? O satanismo?
Do ponto de vista subjetivo, entendo que a verdade está dentro de cada um, desde que essa sua verdade não seja usada para praticar o mal, que está dentro de si para ser domado. O homem conduz sua verdade pelo caminho do mal. Que sua filosofia de vida seja sua verdade, sem cultos e sem religiões, as quais, atormentam, regridem, violentam e acorrentam. Seja bruxo e mago de si mesmo. Seja instrumento de si mesmo na sua passageira construção.
O certo para um, pode ser o errado para outro. Quem somos e para onde vamos? Nem o conhecimento e a sabedoria milenar da ciência e da filosofia podem nos responder O que existe além desse infinito universal? Se existe finito, o que é depois desse finito? Somos apenas uma partícula subatômica, girando por aí, sem definição precisa e exata. Corpo e mente não respondem tudo o que queremos e o que somos de verdade. “Só sei que nada sei” – assim afirmou o filósofo. Então, não diga que tem a verdade.
Coisa chata mesmo essa de se falar da verdade. Besteiras e mais besteiras!… Os intelectuais tentam nos convencer com seus discursos “lógicos”, com suas leituras academicistas e pernósticas. Os sofistas nos confundem mais ainda. A oratória nos engana e a propaganda também.
Não tive o propósito de deixar o leitor mais confuso. Pare e pense sobre sua verdade, mesmo diante das contradições e mentiras. O réu confessa inocência. O político promete e não cumpre. O corrupto não se acha corrupto. As provas não são mais provas. O céu é o inferno, e o inferno é o céu. Nem mais as leis tornam as pessoas iguais. O poema se esfacelou. Quebraram seu encanto.
Na verdade, não sei falar de verdade, e nem deveria tentar escrever sobre esse tema. O mapa mundi pode ser virado de cabeça para baixo. A terra vai continuar lá no seu lugar. O norte pode ser sul, e o leste ser oeste. Não faz diferença o Brasil ficar no lugar do Japão, lá do outro lado. As verdades vão continuar diferentes. O espaço não é a questão primordial.
O desvio de dinheiro não é mais roubo. A prova do crime não serve mais para provar a verdade. O suspeito nunca deixa de ser suspeito. A malandragem passou a ser divertida e a corrupção recebeu o nome de malfeito. A impunidade é a verdade. O direito é negado e a mentira virou verdade. Um dia me pediram para escrever sobre ela. Fiquei confuso.











