“A NEGA DO LEITE”
Este texto faz parte do mais recente livro “ANDANÇAS”, do escritor e jornalista Jeremias Macário
Têm coisas do tempo de infância que marcam nossas vidas e não saem jamais. Grudam na memória como nódoas na roupa. Para brotar da lembrança, basta uma conversa de estórias e causos entre amigos e a família. Existem aquelas passagens que se tornam segredos nunca revelados. As que deram momentos de felicidade e prazer são contadas várias vezes.
Quem não guarda no seu baú da vida os causos de menino e menina e as broncas e surras (geração mais antiga) que levou dos pais por ter cometido estripulias em casa, na roça ou nas ruas? Pois é, existem aquelas que não se esquece nunca. Muitas se vão e outras ficam na mente, doidas para pularem fora em qualquer ocasião.
Agora mesmo lembro-me daquela “pisa” de chicote que meu pai me deu numa cacimba quando brincava de jogar pedras na água. Era gostoso ver a pedrinha quicando na superfície fazendo redemoinhos. Foi numa manhã quando fui pegar o leite numa fazenda próxima para minha irmãzinha que logo cedo acordava chorando de fome. Ao invés de levar o leite, parei no meio do caminho para me divertir no tanque. Deu no que deu!
Meus pais não me contavam nem liam estorinhas infantis de ninar, mesmo porque eram analfabetos e, com seus jeitos rudes da vida dura da roça, não tinham tempo nem sabiam lidar com essas coisas. No entanto, ouvia prosas dos adultos sobre assombrações, lendas, entidade e mitos a respeito do lobisomem, da mula sem cabeça, do marruá brabo, do saci e do curupira que perambulavam pelas matas.
Adorava os causos dos coronéis e dos vaqueiros valentes do sertão, mas uma das estórias que mais me marcou foi sobre “A Nega do Leite”. Até hoje estou lá no varandado da minha casa, esperando ela passar por aquela estrada de cascalho, toda tagarela, mas sempre caio no sono e não consigo ver o primeiro raio do amanhecer da madrugada trazendo “A Nega do Leite”.
Quando o feijão da roça estava seco, no ponto de ser colhido, meu pai arrancava e empilhava na varanda para depois fazer a debulha no terreiro, às vezes, por meio do chamado adjutório em que várias famílias ajudavam na tarefa de retirada da palha através das batidas de porretes, cadenciadas pelas cantorias tradicionais da terra.
Esse costume herdado dos tempos coloniais é outra história. O bom mesmo era que eu, minhas irmãs e outros coleguinhas da vizinhança adoravam brincar de pula-pula e esconder em noites de luar nas pilhas de feijão seco. O divertimento só dava certo quando meu pai viajava para fazer serviços de carpintaria em outras fazendas. Minha bondosa e santa mãe não ligava para a zoadeira e sempre ia dormir.
Naquelas algazarras havia sempre uns instantes de paradas para contar estórias e histórias de espíritos do além e pessoas que iam sendo espalhadas de boca em boca pelos mais velhos. Algumas nem eram lendas. Nos livros escolares (eram raros) ou na base da escuta, as crianças captavam os enredos e as mais espertas narravam os causos. Todos ficavam atentos para ver o final do personagem.
Um desses causos que mais me marcou foi o da “Nega do Leite” que em noite de muito luar passava naquela estrada em frente da nossa casa. Desde longe se ouvia o cantarolar dela, carregando recipientes cheios de leite. Cantava e falava alto sobre histórias de seus antepassados e fatos de pessoas da região. Era uma repórter da oralidade. Na tradição, a origem do nome remete à pessoa que fala sem parar.
“A Nega do Leite”, como o próprio nome já diz, conversava muito enquanto distribuía leite para os mais necessitados, especialmente para as crianças e os idosos. Depois de certificar que ela não fazia mal a ninguém, naquela noite toda gurizada combinou ficar acordada para ver a “Nega do Leite” que sempre passava ao clarear do dia.
O acerto era ninguém dormir, só que o cansaço do brincar terminou nos colocando nos braços do deus Orfeu e todos caíram no sono profundo. Fomos despertados de manhã cedo pela nossa mãe que nos repreendia por termos ficado ali expostos a noite toda naquelas pilhas de feijão.
Um do grupo, não sei quem, falou que a gente estava ali para conhecer “A Nega do Leite”, conversar com ela e pegar um pouco de leite que trazia consigo. Minha mãe simplesmente riu e respondeu, para frustração terrível de todos, que “A Nega do Leite” já havia passado na estrada há muito tempo. Perdemos a oportunidade de ver a tão decantada e folclórica “Nega do Leite”. Um culpava o outro por ter dormido.
Os tempos se foram, mas no meu juízo “A Nega do Leite” nunca deixou de existir. Sempre me culpo por ter dormido. Seria o único a ter visto ela para contar com orgulho e soberba a história para os outros. Hoje imagino que seria como dar um grande furo de reportagem.
Acontece que ainda jovem estudante e morador da Residência Universitária, em Salvador, no Corredor da Vitória, o fato se materializou por diversas vezes, e não foi somente naquela casa que a vi de carne e osso. Troquei muitas idéias e consultas com a simpática e irreverente “Nega do Leite”.
Como estudante pobre nunca tem dinheiro mesmo e vive sempre na “pindaíba”, naquela época da ditadura (início dos anos 70) uns amigos, depois de uma pequena cotização (merreca mesmo), se reuniam nos finais de semana na Residência para tomar umas cachaças brabas misturadas com limão. Para ficar mais chique, dávamos o nome daquilo de caipirinha.
Era brincadeira de uma cantoria de desafinados ao som de um violão tocado por um colega. Uma forma de desafogar as mágoas de quem não tinha condição financeira para curtir uma noitada num bar, num restaurante ou numa festa com uma namorada gostosona. Na roda, rolavam casos da vida, piadas e assuntos sobre mulheres. Era proibido discutir política.
Na maioria das vezes ficávamos ali na fuzarca até o dia amanhecer. Eu, que muitas vezes era obrigado a providenciar a cachaça no boteco mais distante que fosse, já que não tinha grana para entrar na “vaquinha”, dizia que “A Nega do Leite” ia passar de madrugada.
Ninguém conseguia decifrar a charada e me chamavam de maluco. Àquela altura, todos estavam bêbados mesmo e nunca contei a verdadeira origem da estória. Só dizia que ia esperar “A Nega do Leite” passar. Aqueles porres de “pés rapados” de muita persistência para vencer os desafios da vida deixaram saudades.
Na verdade, “A Nega do Leite” era o caminhão-baú carregado de saquinhos de leite de uma cooperativa de Feira de Santana que ao raiar do dia chegava para abastecer a Residência. Como todos ali estavam “biritados” e famintos, era um “assalto” e tanto daqueles!
Cada um bebia um saquinho daquele leite e depois ia curtir a cachaça em seus beliches de quartos apertados. Como não contávamos com outro alimento mais substancioso e nutritivo, o argumento que prevalecia era que o leite era muito bom para cortar a maldita da ressaca do outro dia. Valia mesmo era a farra.











