“JANGO E EU” – AS AGITAÇÕES POLÍTICAS NO URUGUAI E SUA IDA PARA ARGENTINA ONDE MORREU (FINAL)
No início de 1970 as reuniões de estudantes no Uruguai eram mais politizadas. O processo de americanização estava bem acelerado. João Vicente já tinha uns 14 anos quando foi a Porto Alegre para o enterro do seu tio Moura do Valle.
Lembra que no Uruguai, as agitações políticas começaram após a morte de Che Guevara, em 1967, na Bolívia. Pelas ruas de Montevidéu já circulavam os tupamaros, contrários aos partidos de direita, como os colorados e os blancos. Os tupamaros começaram a agir na década de 60, inspirados em uma esquerda trotskista, maoísta e socialista. Alguns também foram influenciados pela revolução cubana de 1959. A presença de Guevarra, em 1961, na Universidad de la República, despertou mudanças nos jovens. Jango chegou a conhecer Guevara na base militar Irkutsk, na União Soviética.
As atividades clandestinas no Uruguai começaram no início dos anos 70, durante a presidência de Pacheco Areco, No país, os tupamaros desenvolveram a mais perfeita técnica de guerrilha urbana, com roubos e ataques a entidades de direita. A organização chegou a contar com 10 mil membros, conquistando a simpatia popular.
João Vicente lembra do seu companheiro de prisão Nacho Ignacio Grieco. Em 1970, a luta armada havia tomado dimensões maiores, com apoio estudantil. Pacheco Areco transferiu o combate aos subversivos para as forças armadas. Nesse ano, Vicente ele conheceu Stella com quem se casou em maio de 1976.
Em 1971, o Uruguai já vivia um ano pré-eleitoral e Pacheco Areco governava com medidas de segurança, As eleições foram realizadas numa linha de tensões. O principal adversário de Areco, do Colorado, era Wilson Ferreira Aldunate, do Partido Nacional, que contava com a simpatia das esquerdas, que lançaram o general Líber Seregni. Nas eleições, houve mais votos que eleitores. Com a fraude (apoio da ditadura brasileira através de Geisel), Wilson perdeu para Bordaberry, que depois tomou um pé na bunda dos militares. Aldunate se exilou na Espanha.
Na França em 1972, Glauber e eleições no Uruguai
João Vicente retornaria a França com seu pai em 1972 para refazer os exames, ano em que houve novas eleições uruguaias. Jango foi a França por precaução. Aproveitou para retomar os contatos com alguns brasileiros, como Celso Furtado, Luiz Hildebrando, um grande cientista que chefiou a equipe do Instituto Pasteur, Márcio Moreira Alves, Maurílio Ferreira Lima, Glauber Rocha, Hermano Alves e David Lerner. Comentou também sobre Luis Salmerón, diretor do Instituto de Energia Atômica da França, e tantos outros que deixaram o Brasil.
O governo brasileiro estava numa fase de repressão violenta, com a censura à imprensa, e Médici fazia-se de popular nos estádios com o “milagre brasileiro”, e Delfim adotava a política da economia crescer para depois dividir o bolo, o que nunca aconteceu. Celso Furtado lecionava na Sorbone e tinha saudades do seu sertão da Paraíba. A dívida externa brasileira era de 10 bilhões de dólares. A inflação chegava a 68%. Esperava-se o retorno de Perón e as eleições no Chile, com Salvador Allende.
Num restaurante, em Paris, na Champs-Elysés, Jango encontra com Glauber e David Lerner numa mesa animada. Glauber se dirigiu a Jango com afeto dizendo que “agora vamos encontrar uma solução para derrubar os milicos. Vamos incendiar o caminho deles”. Revelou que estava com vontade de escrever sua primeira peça de teatro e inauguraria o repertório com Jango.
Disse ser uma peça em três atos, numa mistura da história com os personagens, a comoção política e a mudança revolucionária. O terceiro ato seria “teu velório e o povo comendo teu cadáver”. De fato, a peça foi escrita por Glauber, que chamou João Vicente para um canto e o convidou para ir para a Itália onde estava filmando, mas o pai não deixou. Em 1972, Glauber ainda passou em Punta del Este para visitar Jango, e de lá para Cuba. Em 1974 houve outro encontro com Glauber na França.
Quando Jango e seu filho retornaram ao hotel, por volta das dez da noite, tocou o telefone informando que Glauber estava no bar do hotel com algumas convidadas, entre elas Norma Bengell e outras fãs do presidente. Glauber estava muito eufórico, e Jango acreditava nele como um artista intelectual que poderia influenciar uma transformação política e cultural no Brasil.
O Areco, já no exterior, apoiou Juan Maria Bordaberry, que ganhou o pleito e virou um fantoche dos militares. Na época, a ditadura brasileira mandou o delegado Fleury para influenciar o pleito. Os tupamaros presos eram submetidos a sessões de torturas e foi aí que entrou a mão do Fleury.
O adido cultural Dan Mitrione, que havia treinado agentes do Dops no Brasil nas técnicas de interrogatório, foi enviado para operar dentro da embaixada americana no Uruguai. Os agentes tupamaros descobriram sua missão, sequestraram e o mataram.
Com Fleury, Campos Hermida e o inspetor Victor Castiglioni, os tupamaros tiveram algumas baixas, como Amodio Pérez, Em 72 estouraram o local onde estavam muitos sequestrados que viriam a ser negociados, como Pereira Reverbel, da companhia elétrica uruguaia e o embaixador britânico Geoffrey Jackson.
Golpe de Estado em 1973
Essas ações levaram ao golpe de estado comandado pelo presidente Bordaberry, que em 27 de junho de 1973 fechou o Congresso e entregou o poder às Forças Armadas, ficando no palácio como um fantoche. Rivero foi preso neste ano por pertencer ao MLN-T. Ele fazia voos clandestinos para os tupamaros, mas Jango nada sabia da sua atuação. Rivero se preparava para fazer um voo para o Chile onde haveria uma reunião dos movimentos de esquerda na América Latina entre os tupamaros, Washington Alanis, ERP, motoneros e os guerrilheiros do MIR. A casa de Jango, em Maldonado era monitorada até com fotografias do SNI.
Assim começaram os anos difíceis no exílio uruguaio. Jango não era mais bem visto. O Terceiro Exército no Rio Grande do Sul dava suporte à ditadura uruguaia. As ruas não eram mais seguras. Certa vez, Jango, Maneco Leões e Ivo Magalhães foram parados no bairro Pocitos e Jango portava um revólver 38. Foram presos com momentos tensos e depois liberados, mas a arma apreendida no Ministério do Interior.
Mesmo assim, Jango continuava se reunindo com políticos brasileiros que iam ao Uruguai, e trabalhando em Tacuarembó e Maldonado onde criou a marca “Arroz Maldonado”; abriu um abatedouro e frigorífico de produtos embutidos. Era uma tremenda estrutura.
Bordaberry governava com apoio dos militares, violando os direitos humanos com decretos e atos institucionais. Com a prisão de Rivero, as coisas pioraram, e a ditadura brasileira pressionava o Uruguai para perseguir o ex-presidente. Sua fazenda “El Milagro” foi invadida por operações militares do Uruguai, com um aparato de vinte soldados e três caminhões do exército.
Ainda em 1972, Raul Riff foi ao encontro de Jango para conversar sobre a situação política na América Latina. Riff foi encarregado de fazer a redação de uma entrevista para ser distribuída para a imprensa internacional. Existia uma possibilidade de Jango retornar, mas com a condição de ficar confinado em São Borja, o que ele não aceitava ser humilhado como Juscelino.
A conversa com Riff foi longa, resultando numa carta aos brasileiros que foi arquivada. Previu que o Uruguai cairia como um castelo de cartas e planejava ir a Madri conversar com Perón (17 anos no exílio), como alternativa. Jango já havia encontrado com Perón quando era ministro do Trabalho, em 1953. Em Punta del Este ele ainda teve um encontro com Vinícius de Morais (indicado por ele para ser embaixador em Assunção). Perguntou por Caetano, Chico e Geraldo Vandré. Pediu a Vinícius para fazer uma música de protesto.
Na viagem para Madrid, Jango teve um encontro com Perón, através de seu secretário Jorge Antônio. Lá ele topou com o José Lopez Rega, o bruxo, temido chefe da Aliança Anticomunista Argentina, Foi grande manipulador no governo de Isabelita, depois da morte de Perón, em 1974.
Para Argentina
Em 1973 foi instaurado o Golpe de Estado no Uruguai, forçando a família ir para Argentina. Azambuja, seu fiel amigo e oficial de Gabinete do Exército foi até o Uruguai para avisar a Jango que ele estava em perigo por parte dos militares uruguaios. O general Perón se dispôs a dar apoio para sua ida para Buenos Aires, e isso foi combinado com o presidente argentino Héctor Campora. Perón retornou à Argentina em 20 de junho de 1973, mas Isabelita e o bruxo já exerciam domínio sobre o velho general.
O Bordaberry aceitou continuar na presidência como marionete das forças armadas. Jornais e semanários de esquerda foram fechados, jornalistas perseguidos e barreiras de revistas foram montadas nas ruas de Montevidéu. Em 29 de junho a imprensa noticia tentativa de golpe no Chile. Depois da ditadura Bordaberry foi condenado à prisão por crimes de lesa-humanidade.
No Uruguai, trabalhadores são acusados de sabotagem e subversão. Estudantes são mortos na desocupação da Universidad de lá República. Morto na sala de aula, o estudante Ramón Peré foi enterrado com comoção. O líder da Frente Ampla, general Líber Seregni, foi preso. Milhares de uruguaios saem do país.
Aos poucos, a família foi para Argentina e o Hotel Liberty foi um dos primeiros abrigos. O amigo Luis Bogado apresentou Jango para vários fazendeiros na província de Misiones para abrir possibilidade de ali se fixar. No Uruguai, Jango era incomodado todos os dias. O SNI temia a amizade entre Jango e Perón, e no Uruguai muitas pessoas ligadas a Jango foram detidas em regime de isolamento.
Meses depois, o próprio João Vicente, que cursava o ginasial no Liceo Departamental de Maldonado, foi preso incomunicável no Batalhão de Engenheiros, na Luguna del Sauce, em Maldonado. Sofreu torturas com um saco na cabeça para não ver os militares. Nessa época, ele tinha 16 anos. Os interrogatórios sempre aconteciam pela madrugada. Perguntavam quem trazia as armas para seu pai e para o Tupamaros. Era obrigado a correr pelo pátio de pedregulhos. Só lhe soltaram depois de três dias.
Por volta de 1974, ele e o pai foram novamente a França, mas antes passaram em Buenos Aires, para alugar um apartamento no bairro Norte. Em Paris Jango voltou a se comunicar com os exilados, inclusive o Márcio Moreira Alves e Edmundo Moniz que esteve no aniversário do seu pai em primeiro de março de 1975, na fazenda “El Milagro”. Muitos que frequentaram este evento foram marcados pelo SNI.
Ainda na Europa, Jango esteve na Suíça com Arraes (ele veio da Argélia) e Jorge Antônio, em Madri. Arraes lhe alertou que sua segurança no Uruguai estava bastante comprometida. Comentavam sobre a possibilidade de Jango ir para o Brasil onde poderia ser preso, mas provocaria uma reação da ONU. Em 1974, houve eleições parlamentares no Brasil com uma vitória estrondosa do MDB. Em Madri, Jango queria uma sinalização de que seria abrigado em Buenos Aires com respeito e com documentação pessoal de residente. Não queria pedir um novo exílio na Argentina porque limitaria seus passos.
Gaivotas em direção ao Condor
“Não sabíamos que éramos gaivotas em direção ao Condor (Operação Condor), que se intensificou na Argentina, em 1974. Jango era cada vez mais monitorado pelos agentes brasileiros que lhe deram o apelido de “Gaivota”, segundo Mário Neira Barreiro, incluído na investigação da morte de Jango.
De Madri, Jango retornou a Paris num voo da Varig onde se encontrou com Armando Falcão, ministro da Justiça de Geisel. Como apoiou a ditadura, ficou constrangido de falar com o ex-presidente, mas foi articulador no Ceará da chapa Juscelino-Jango, em 1955, e chegou a ser ministro da Justiça com aval do PTB.
A família ficou passando um tempo entre Uruguai e Argentina, mas a transferência para este país passou a ser permanente no começo de 1974 com a prisão de Maria Thereza. No dia seguinte, os jornais repercutiram sua prisão, alegando ter violado uma lei federal. Eles moraram uns tempos no Hotel Liberty e depois foram para um apartamento no Barro Norte. João Vicente começou a estudar no Liceo Manuel Belgrano. Com Perón no poder, a família obteve residência permanente.
Perón morreu pouco depois, cercado pela direita peronista. Isabelita assumiu o poder, mas quem mandava mesmo era o bruxo López Rega. Por isso que a “Operação Condor” matou tantos líderes latino-americanos, como o senador e o deputado uruguaios Michelini e Gutiérrez Ruis, o ex-presidente da Bolívia, Juan José Torres, Carlos Prats, das forças armadas do Chile e o próprio Jango, em 1976.
Em abril de 1974, Jango retornou ao Uruguai, sempre tomando rotas diferentes para despistar os militares. Em Mercedes, na Argentina, acabou comprando a fazenda “La Villa” onde veio a falecer dois anos depois. Com a morte de Perón, o panorama político começou a se degradar. A política se acirrou e os comandos de direita começaram a praticar o terrorismo de Estado contra adversários de esquerda. Os montoneros voltaram para a clandestinidade, acusando o carrasco López Rega. O Ejército Revolucionário del Pueblo começou a se organizar para a luta armada. Os militares criaram uma guerra interna chamada de “guerra suja”.
Após a morte de Perón, deram início a atentados contra líderes latino-americanos que estavam na Argentina. Em setembro de 1974, o agente americano Michael Townley , o mesmo que até hoje o Instituto Goulart investiga a morte de Jango, matou Carlos Prats na garagem do seu apartamento. O mesmo matou Orlando Letelier numa avenida em Washington.
Por volta de 1975, houve uma operação de um grupo paramilitar que tentou o sequestro dos filhos de Goulart, o que precipitou a decisão dele de mandar os filhos para Londres, em 1976. Ele também comprou um sítio na Província de Buenos Aires, no departamento de Marcos Paz, para sair de circuito. O seu amigo Orpheu dos Santos Salles sempre o visitava, em Buenos Aires, e abriram uma empresa de exportação e importação com o nome Cibracex.
Em fins de 1974, Ernesto Geisel governava o Brasil e havia a disputa de abrir o regime ou fechar mais ainda. Geisel tinha oito estrelas juntando as do seu irmão Orlando. Em Paris, num encontro com Ubirajara Brito e Glauber Rocha disse ter sido ele que promoveu Geisel a general de quatro estrelas contra a opinião de toda Casa Militar.
João Vicente declara que a partir de investigações, Geisel e seu irmão estão envolvidos na morte de seu pai, como de Herzog, José Ferreira de Almeida, Ângelo Arroyo e tantos outros. O delegado Fleury tinha forte ligação com Orlando Geisel. Ainda em 1974, Jango tentou várias possibilidades de voltar ao Brasil, inclusive chamou o general Serafim Vargas para sondar o clima.
Os filhos em Londres
O golpe na Argentina só foi consumado em 1976. A permanência na Argentina ficou ainda pior. Um ano antes já tinha ocorrido uma tentativa de golpe. Em janeiro de 1976, João Vicente e sua mulher Stella, que já estava grávida, decidiram passar uma temporada no Rio Grande do Sul e depois se casaram em maio, em Maldonado, na fazenda “El Milagro”. Em março de 1976 foram para a Europa. Seu pai ficou em Paris e eles para Londres.
Em Londres passaram os primeiros dias num hotel no Soho, um bairro perto do Hayde Park Parque. Continuou se comunicando com o pai através de cartas que contavam os sequestros e assassinatos de líderes políticos. O Ivo Magalhães, antes seu procurador no Uruguai, tinha se aliado aos milicos após a construção da represa El Palmar idealizada por Jango.
O pai havia marcado visitar o filho em julho e levar sua irmã Denize para morar em Londres. A sogra Zulma estava de malas prontas para acompanhar o nascimento de seu filho Christopher. Jango terminou indo em agosto para a Europa e lhe ligou de Paris. João Vicente foi encontrá-lo em Paris e reviu vários amigos, como Pedro Taulois, Talarico, Ubirajara Brito e Tertuliano dos Passos.
João Vicente encontrou seu pai feliz e contente, considerando sua volta ao Brasil, em 1977, mesmo que resultasse em prisão. Sua cassação de dez anos havia expirado. Denize ainda foi com ele a Lyon para revisão de consultas. Os dois acabaram chegando a Londres em final de agosto. Sua mãe, que também estava na Europa, não foi e retornou a Buenos Aires, para lançamento da nova coleção de sua butique.
Em Londres, Jango ficou no hotel perto da Mount Avenue. Ele não gostava de Londres e depois de conhecer o primeiro neto ainda passou em Paris antes de retornar para Buenos Aires. Sua empresa, A Cibracex chegou a ser invadida por um grupo que entrou à força procurando por ele. Foi uma tentativa de sequestro. Em correspondências, contou que o Juscelino apoiou sua saída do governo brasileiro.
“Há certos momentos em que cair de pé é melhor do que lutar pela preservação do poder” – disse ao filho, citando como exemplo durante a crise dos mísseis em Cuba. Numa conferência da OEA, mandou defender a autodeterminação dos povos, como já havia feito na China. Destacou, naquela época, que a maior parte do povo brasileiro é pobre, desnutrida, ´desprotegida, desinformada, analfabeta e sem oportunidades de estudo. Sua política externa foi marcada por independência e soberania.
Seu pai chegou a Londres vindo de Paris, em 2 de outubro de 1976 (morreu dois meses depois). No dia 6 de outubro, pela manhã, nasceu seu primeiro filho. Jango esteve lá para conhecer seu neto. Planejava voltar à Europa no Natal e pedir uma audiência com o Papa no começo de 1977, bem como falar com Ted Kennedy nos Estados Unidos.
Sua morte e “A Carta de Jango”
O dia 6 de dezembro foi muito triste para toda família. Por volta das nove e meia da manhã tocou o telefone de sua casa em Londres. Era o Percy Penalvo, administrador da fazenda Tacuarembó, avisando da morte de seu pai. Logo depois, recebeu a notícia de que a ditadura brasileira não autorizaria o traslado do corpo do pai. No voo para o enterro de seu pai passou muitas lembranças em sua cabeça durante o período dos 12 anos de exílio do pai.
No aeroporto do Galeão estavam lá lhe esperando Waldir Pires, Raul Riff, Darci Ribeiro e outros. De lá foram para São Borja. Finalmente, o corpo foi traslado de Uruguaiana para São Borja. Tropas do exército já haviam sido deslocadas para São Borja, para reprimir qualquer manifestação. “Os militares não têm medo de homens, mas sim de ideias. Seu caixão já estava com a tampa fechada e coberto com uma grande bandeira brasileira”.
No momento em que o féretro estava sendo retirado da igreja, o povo rompeu o cordão de isolamento e tomou seu pai das mãos dos militares, em uma atitude que até hoje me deixa comovido. O caixão foi conduzido nos braços do povo brasileiro, cercado por faixas com dizeres: “Jango continuará conosco”, “Anistia”. No cemitério, Pedro Simon e Tancredo Neves fizeram os últimos discursos em sua homenagem.
João Vicente publica no final do seu livro, uma entrevista do seu pai à Repúblika Zagreb, de 28 de abril de 1967, onde fala de seus momentos mais difíceis de seu governo, a partir de Cingapura, retornando da China, em 1961, quando Jânio Quadros renunciou à presidência. Fala ainda de seu pensamento sobre os movimentos morais, éticos e políticos, sobre o momento presente, o futuro à luz do desenvolvimento científico e técnico. Está impresso também em seu livro a “Carta de Jango” ao Jornal do Brasil e, finalmente, a carta do presidente brasileiro ao presidente Kennedy em outubro de 1962















