JANGO E EU – A VIDA NO EXÍLIO E A REFORMA AGRÁRIA (II)
“JANGO E EU” – A VIDA NO EXÍLIO E A REFORMA AGRÁRIA (II)
Em janeiro de 1965, a família alugou uma casa que se chamava “El Ventisco”, em Playa Brava. Entre 1966/67 foram morar na casa “La Rinconada”, mais distante, mas também na Playa Brava. Se dividiam entre o apartamento Leyenda Patria, em Montevidéu, a fazenda “El Rincón”, em Tacuarembó, e a casa de veraneio em Punta del Este. Tempos depois, Jango comprou uma fazenda em Maldonado, “El Milagro”, e três aviões financiados. Tacuarembó era refúgio de brasileiros que atravessavam a fronteira seca fugindo da ditadura (chegada de exilados clandestinos).
O engraçado em tudo isso foi que a ditadura soube da aquisição dos aviões e ficou preocupada que Jango fosse invadir o Brasil com três teco-tecos. Solicitou ao governo uruguaio que proibisse, alegando risco à segurança aérea do Brasil. O Uruguai havia entrado num processo inflacionário.
O suposto filho
João Vicente, o autor do livro, nos conta a história do suposto filho que Jango teve na juventude, o Noé Monteiro da Silveira que, na verdade, era do seu avô Vicente Goulart com a empregada da fazenda. Ele queria ir visitar o “pai”, mas Jango barrou. Ele explicou para o filho que o Noé era seu irmão, mas que teve uma filha.
Foi a primeira investigação de paternidade no Brasil feita apenas com testemunhas. O juiz disse que não era possível reconhecer a paternidade por mera semelhança. O processo foi parar na terceira turma de desembargadores do Rio Grande do Sul. Noé ganhou a causa. “Uma farsa que virou realidade ”-ressaltou Vicente. Em 1983 foi feito um acordo, e o desembargador recebeu 400 hectares da fazenda “São José” como honorários. João Vicente era deputado estadual pelo Rio Grande do Sul (PDT) e seus bens foram bloqueados. O interventor das propriedades foi o Cirne Lima.
João Vicente ameaçou ir à Tribuna e denunciar os subornos da Justiça. O presidente do Tribunal de Justiça, Bonorino Butelli deu um ultimato ao seu partido, o PDT: ou ele se desculpava, ou denunciava o desembargador. Foi aí que entrou na jogada o seu tio Brizola, governador do Rio de Janeiro. Ele e seu advogado foram ao Rio e Brizola contornou a situação através da política. Com a exumação dos restos mortais do pai, João Vicente conseguiu o DNA dele e fez o seu também, mas o Noé se negou.
Os tempos em que viveu no Uruguai
No capítulo “As Esquinas das Cidades”, o autor da obra descreve os tempos em que viveu no Uruguai e lembra dos velhos amigos, como do Queruza, o Itar Nery Gutierrez, que tentou roubar a fazenda “El Milagro”, em Maldonado, e terminou trabalhando para seu pai. Recorda quando seu pai teve um infarto em 1968. Raul Riff, seu ex-ministro do Trabalho, esteve ao lada da cama no apartamento Leyenda Patria. “Era com Riff que meu pai dividia os maiores desafios”. Quando Jango enfartou, o professor Zerbini e o médico Macruz foram a Montevidéu examinar o seu caso e montaram no Uruguai a máquina de coronariografia, no Hospital Americano. Em Lyon, Jango começou a se tratar com o professor Fremont, no Hospital de Cardiologia, uma vez por ano. No ano anterior (1967) havia recebido o Lacerda em Montevidéu, que se desculpou pela sua atuação política.
Na época, Brizola deu declarações ferozes afirmando que Jango havia traído o trabalhismo, e que ele estava enterrando sua trajetória. Segundo ele, o negócio do tio era a luta armada, e montou “Caparaó”, no Espírito Santo, lá do exílio. Depois da Frente Ampla, a ditadura baixou o AI-5. Mesmo assim, o ex-presidente se articulava com Perón no exílio, com o senador Salvador Allende, no Chile e alguns militares no Brasil. Em 1967, Vicente cita que, em uma entrevista a uma revista da antiga Iugoslávia, ele deixou clara sua paixão pelo Brasil e admiração ao seu líder Getúlio Vargas. Foi quando comprou a fazenda “El Milagro”, em Maldonado.
Foi por volta de 1968/69 Jango começou a ir ao Paraguai e visitar Assunção. Ele e o filho foram para o Hotel Paraguay, mas o Toto e Ito Barchinni, ligados a Stroessner, por ordem superior, os levaram para a casa do Ito onde ocorreu um encontro com o presidente Stroessner. Os dois recordaram as conversas que tiveram naquela época na fazenda “As Três Marias”, de propriedade de Jango, no Pantanal.
Cita que não podia receber o ditador Stroessner no Rio por causa das manifestações das esquerdas e dos interesses norte-americanos por parte das empresas Siemens e a General Electric, que queriam vender o maquinário do projeto da represa “Sete Quedas” Itaipu), por um custo mais alto. Na época ele estava desenvolvendo o projeto, que depois se tornou Itaipu pelos militares. De lá, no outro dia, foram para Puerto Stroessner (Cuidad del Este) onde Jango comprou um campo.
Quando ainda na presidência, Jango havia reatado relações com a União Soviética e queria comprar as turbinas desenvolvidas lá, que eram bem mais baratas. Os militares, no entanto, preferiram negociar com os norte-americanos, pagando preços bem mais altos pelas turbinas.
Na reunião com Stroessner, Jango explicou das dificuldades para viajar para Europa por falta de documentos negados pela ditadura brasileira (a ONU havia lhe oferecido um título de viagem que era mal visto nos aeroportos). Foi aí que Stroessner lhe outorgou um passaporte diplomático. “O titular desse passaporte é o ex-presidente do Brasil e amigo do Paraguai”.
O autor do livro recorda da vez que a seleção brasileira de futebol esteve em Montevidéu para um amistoso contra o Uruguai. Os jogadores decidiram ir ao apartamento Leyenda Patria para visitar Jango. Wilson Piazza era o capitão. Todos foram, menos o Pelé, com medo de ser mal interpretado pelos milicos da ditadura. Na época disse não se importar que o Brasil não tivesse eleições para presidente e governadores, porque o povo não sabia votar.
João Vicente fala também do piloto do seu pai, Rivero, preso depois pela ditadura uruguaia (1973) por pertencer ao MLN-Tupamaros. Ele tinha uma visão diferente do mundo, voltada para o humanismo e ao desenvolvimento social. Bem antes disso, a situação no Uruguai já era de repressão com sequestros, desaparecimentos, golpes e rebeliões.
Narra o caso da festa no Cantegril Coutry Club, em Punta del Este, para escolha da miss onde haviam muitos argentinos, e a discussão de Rivero com outro piloto que se chamava Jorge Sandoval. Jango terminou saindo antes do desfile. Certa vez, numa viagem para o Paraguai, o avião pilotado por Rivero se perdeu na volta para Tacuarembó. Muitas pessoas amigas e da família ficaram aflitas.
Houve uma verdadeira odisseia do exílio. Jango, Maneco Bigode e Rivero saíram de Tacuarembó para o aeroporto Internacional do Paraguai. Ficaram dois dias em Assunção e voltaram clandestinamente, sem plano de voo para Tacuarembó. Na volta, o tempo fechou com o Cesna -210. Rivero tentou um voo raso para descer até Artigas, Salto, e passar no Uruguai. Não havia visibilidade.
O piloto terminou fazendo um pouso de emergência numa estrada de terra. Jango ficou nervoso e começou a bradar. Terminaram descendo em território argentino, na fronteira com o Brasil, e o ex-presidente julgou logo que seria deportado para o Brasil. Duas horas depois, chegaram dois carros da polícia e informaram que eles estavam na Província de Corrientes, em Paso de Los Libres.
A notícia do pouso de Jango chegou logo ao conhecimento das autoridades brasileiras. O regime militar do Brasil mandou fechar a Ponte da Amizade, que liga Brasil e Argentina. Jango estava do outro lado e foi para um hotel com Maneco. O juiz lavrou um ato de prisão para Rivero e apreensão do avião, por sobrevoo ilegal.
A Argentina era governada por Juan Carlos Onganía, um dos generais das ditaduras da América Latina. O cônsul brasileiro foi até ao hotel e explicou que a ponte foi fechada porque caravanas de brasileiros queriam ir até Paso de Los Libres para ver Jango. Após dois dias de consultas, chegou à unidade militar de Los Libres um telegrama do comandante das Forças Armadas Argentinas, Alejandro Agustin Lanusse, mandando liberar os passageiros do avião, prestando ao ex-presidente do Brasil todas as homenagens. Tempos depois foi Lanusse quem permitiu a volta de Perón, abrindo o país à democracia.
O problema é que Rivero ficou preso, e os militares argentinos não poderiam passar por cima da ordem do juiz. Lanusse fez decolar o Tango I para levar Jango para Montevidéu. No entanto, Jango disse que não sairia de lá sem o piloto. Então, o coronel do regimento militar argentino mandou um pelotão para conversar com o juizado e à delegacia, solicitando a soltura de Rivero. Mesmo assim, o juiz se negou a entregar a papelada de soltura.
O coronel consegui pegar o processo, entregou a Rivero e ordenou que ele rasgasse. Assim todos voltaram para casa. Jango só foi se encontrar com Lanusse, em 1974. No retorno tiveram que fazer outro pouso forçado, mas já em território uruguaio.
Exilados como criminosos e a reforma
Segundo João Vicente, as pessoas confundem os exilados como criminosos fugidos. Após o golpe, o povo brasileiro se tornou mais alienado, muito por força da censura e das perseguições. A ditadura implantou uma educação tecnicista e voltada para os interesses norte-americanos, para atender aos mercados.
O autor do livro faz uma análise sobre a situação política e econômica do Brasil quando afirma que existe uma elite com instrução, dinheiro e poder que se compara à da Suíça, Dinamarca e Suécia. Do outro lado, existem milhões vivendo abaixo da linha de pobreza, com índices de desenvolvimento iguais aos de Serra Leoa. Jango acreditava que a história um dia lhe faria justiça, o que não aconteceu.
No exílio, dois jornalistas lhe entrevistaram. – Senhor presidente, quando estava em seu cargo, achava que ainda não era hora de implantar as reformas de base? – O que vocês acham que estou fazendo aqui, exilado no Uruguai e longe da minha terra? Estaria aqui sofrendo com minha família, se não acreditasse que poderia realizar uma mudança estrutural para reduzir as profundas diferenças sociais? “Há uma necessidade real de mudanças para concretizar o projeto de nação em que as elites dominantes não ataquem brutalmente nossas riquezas”.
– Caí porque era hora de mudar. Não recuei um milímetro de nossas convicções de reformar o Estado brasileiro. Eu cai em pé. Quem impediu as reformas foram as elites empresariais e os militares reacionários que não entenderam as propostas nacionalistas. Ele ainda explicou para o filho que o Brasil tem estrutura social arcaica, valores morais e éticos excludentes que privilegiam apenas os poderosos. “Acham que as riquezas do país devem servir a seus privilégios”.
– O sistema capitalista ainda mede a riqueza dos povos em números absolutos de resultados econômicos e financeiros, não em resultados humanos. Um país rico não é medido pelo PIB, mas é aquele em que seu povo é feliz, tem saúde, não existe analfabetismo e oferece para todos educação, cultura e dignidade.
Jango explicou outras situações políticas desastrosas no Brasil. Disse que pretendia realizar várias reformas, mas, a que mais doeu na classe alta foi a agrária. A classe abastada retrógrada com suas benesses acha que o direito de propriedade eterno a protege e a ampara por lei. Para essas categorias, os menos favorecidos podem passar fome, pois em suas terras não entram nem para plantar uma espiga de milho; se quiserem. Que comam o sabugo.
Naquele tempo, 75% da população viviam no campo e 25% nas cidades, e as elites não engoliam perder suas propriedades. A reforma agrária nunca foi feita no Brasil. Atualmente, os números se inverteram e a grande massa está nas periferias das metrópoles, sem direito à educação, emprego e assistência social.
Projeto de nação
Jango, Paulo Freire, Darcy Ribeiro, Josué de Castro, Celso Furtado, Evandro Lima e Silva, Raul Riff, San Tiago Dantas, Wilson Fadul, Armando Monteiro Filho, Waldir Pires, Almino Afonso, Luis Salmeron e Hermes Lima que trabalharam no governo tinham um projeto de nação, de acordo com o autor do livro João Vicente. Jango sempre dizia para o filho que no Uruguai o ensino era mais avançado que no Brasil. Citou Paulo Freire e Anísio Teixeira que queriam dar um sentido mais humanitário para a educação (reforma educacional). Dizia que a educação é um instrumento de luta e avanço social. Em seu governo, foi implantada a primeira universidade independente do Estado, a UNB. “No Brasil estão transformando a educação em um negócio, a uma mercadoria”.
No exílio, como costumava fazer quando era menino com seu pai, Jango gostava de comer com a peonada e beber seu uísque em casa, bem como, visitava bares e restaurantes. José Gomes Talarico, Júlio Madeira, José Vechio, Josué Guimarães, Orpheu dos Santos Salles, Roberto Alves, Waldir Borges, Raul Riff e Wilson Mirza passavam temporadas com a família. Outros como Bijuja, Arthur, Adão Dornelles e Luthero Fagundes mantinham relações comerciais.
No Uruguai ele comprou a fazenda “El Rincón” (sete mil hectares), em Tacuarembó. João Vicente mostra como era difícil chegar até lá numa caminhonete Toyota. Uma odisseia. Ainda estavam abrindo a Ruta 5, de norte a sul, com 504 quilômetros. Ele levava os amigos do colégio. “El Rincón” se tornou o refúgio de Jango. Construiu ali a primeira barragem de irrigação de arroz no Uruguai, se tornando depois grande exportador do produto. Muitos amigos de São Borja iam visitá-lo. Não havia luz nas fazendas, mas tinha telefone.
Rivero, que tinha ligações com a organização rebelde Tupamaros, tornou-se piloto de Jango, mas ele de nada sabia. O médico proibia que ele ingerisse muito açúcar e, então, preferia tomar uísque. “El Rincón” foi palco de muitos acontecimentos durante o exílio, como fatos políticos, atentados, desilusões e chantagens. “Foi onde ele remoeu as amarguras do desterro, com esperança de voltar ao país. Nos tornamos aves migratórias. Enfrentou traições, chantagens, armações e injustiças, sem poder se defender… Construiu uma pista de pouso de 700 metros para teco-tecos”.
Certa vez, desceu um monomotor Cesna 180 com matrícula brasileira. Ele estava tomando malte com seu administrador Percy Penalvo, também exilado. Entre os passageiros, desceu o seu amigo Maneco Vargas, filho de Getúlio. Foram criados juntos em São Borja. Na época, Maneco estava trabalhando com o frigorífico Swift como comprador de gado.
Jango possuía 1.500 novilhos gordos, prontos para entrega em São Borja. Maneco pediu a Jango para que lhe desse a preferência. “Olha aqui Maneco, há mais de três anos que estou no exílio e nunca veio me visitar. Éramos como irmãos nos velhos tempos de lutas no PTB e nunca demonstrou tua solidariedade comigo. Agora vem aqui me propor negócio. Pega teu piloto e volta agora para o Brasil. Esta tua atitude não é digna de amigos”.
Ivo Magalhães se tornou procurador de Jango nos negócios no Uruguai e com ele tinha alugado o Hotel Alhambra, para abrigar os exilados brasileiros. Amaury Silva estava muito deprimido e Jango o ajudou a montar o restaurante “Cangaceiro”, à beira-mar, em Montevidéu. Outros conspiravam contra o regime e montavam guerrilhas dirigidas por Brizola. “O exílio é uma invenção do demônio” – afirmava o ex-presidente em conversas com Darcy.
Quando estava no Uruguai, a família frequentava muito o restaurante Sorrento, na Plaza Independência, bem como ao Hotel Alhambra, onde os exilados tinham estada garantida por 60 dias. No Café Sorocabana, o Serviço Nacional de Informações, o SNI, monitorava e infiltrava agentes brasileiros. Manoel Pio Corrêa foi o escolhido para ser o embaixador e transformou o lugar em um covil de espionagem e perseguição, criando o Ciex. Foi responsável pela morte e o desaparecimento de vários brasileiros exilados no exterior.
Quando queria conversar mais reservadamente com os amigos, Jango ia ao restaurante “El Galeón”. Vicente recorda que, em 1968, ele, o pai, Doutel e o Riff saíram para almoçar naquele restaurante. Jango indagou a Doutel como estava o Brasil.
– Cada vez mais complicado, A ditadura encontra-se disfarçada de democracia. Há uma linha dura querendo se perpetuar. Isso foi pouco antes da ida de Lacerda a Montevidéu, para acertarem a Frente Ampla. Vicente lembra que o pai sempre lhe recomendava ler O Processo Civilizatório, de Darcy, Geografia da Fome, de Josué de Castro e A Pré-revolução brasileira, de Celso Furtado.
Doutel se mostrava muito preocupado com a criação da Frente Ampla entre Jango, Juscelino e Lacerda. Achava que as três lideranças podiam ameaçar o regime militar. Mesmo assim, dizia que a Frente podia ser um bom instrumento político.
Jango lembrou da deferência que De Gaulle tinha por Doutel, inclusive isso ficou claro na visita que De Gaulle fez ao Brasil no final de 1964. Na ocasião, o presidente francês mandou Doutel dar um abraço em Jango no exílio. “Diga a ele que estou aqui a convite dele”. Foi quando afirmou que “este não podia ser um país sério”.
Doutel ficou encarregado de fazer as articulações da Frente Ampla, juntamente com Renato Archer. Jango e o filho costumavam também frequentar o restaurante “Malecón”. “Sempre está em minhas recordações” – ressalta João Vicente, em seu livro. bem como, o Parque Rodó.
Agentes brasileiros
Nesses lugares, Vicente cita os relatórios feitos pelos agentes brasileiros, como encontros secretos de conspiração com políticos uruguaios. “Vejo que os milicos tinham medo de Jango restaurar a liberdade e a democracia para o povo brasileiro”.
Pelos idos dos anos 70, já havia resistência e movimentos dos estudantes e intelectuais contra o governo de direita do Uruguai, Jorge Pacheco Areco. Ocorriam passeatas na avenida 18 de Julio em apoio ao Movimento de Libertação Nacional – Tupamaros, que estava surgindo no país.
Por sua vez, Jango, em Punta del Este, em Maldonado, comprou a Fazenda “El Milagro” onde foi construído frigorífico de derivados de bovinos e uma fábrica de beneficiamento de arroz.
João Vicente conta que foram muitos os momentos difíceis no exílio, mas seu pai era resistente (devoto de São Jorge e Nossa Senhora Aparecida), um homem justo, preocupado com os outros e avesso aos excessos da burguesia. Sempre pensava em retornar, mas recuava dizendo que não ia deixar ser humilhado pelos milicos, como fizeram com Juscelino.
“Meu exílio é um protesto internacional contra a ditadura que instalaram no Brasil”. Muitos brasileiros que iam a Punta del Este quando viam Jango atravessavam a rua para não se encontrar com ele. Sempre dizia que eram beneficiários da ditadura.
Brizola continuava a criticar o cunhado, segundo ele, acomodado, que só queria ganhar dinheiro com a invernada de bois e resolver as questões políticas no diálogo. “As conversas com Juscelino e Lacerda só atiçaram a ditadura”. Jango se queixava que nem as esquerdas lhe apoiaram quando tentou promulgar o estado de sítio. Exigiam as reformas na lei ou na marra e pregavam o fechamento do Congresso Nacional. Queriam que eu resistisse quando não resistiram”
Em conversa com Josué Guimarães, em relação a alternativas para tirar o Brasil da ditadura, ressaltava que não se podia ficar dando murro em ponta de faca, e se posicionava contrário às guerrilhas, permanecendo no exílio dando ordens a companheiros que vão se sacrificar contra uma ditadura extremamente forte. “Engana-se quem acha que pode derrubar essa estrutura montando guerrilhas a partir daqui do Uruguai”.
Jango sempre se informava da situação política, dos atos tenebrosos, como o AI-5, com as visitas de Orpheu, Roberto Alves e Talarico por meio de documentos, e muitas vezes, através do Correio do Povo, do Rio Grande do Sul. Sabia de notícias do crescimento do MDB e da atuação do arcebispo Paulo Evaristo Arns em defesa dos direitos humanos. Certa vez, recebeu um abraço de dom Helder Câmara por intermédio do padre Genaro, num encontro que teve com Roberto Alves.
Com os exilados em Paris
Pelos idos de 1970/71, Jango teve que ir à França, em Paris e Lyon, para tratamento de saúde (problemas do coração). Orpheu sugeriu marcar um encontro com os exilados em Paris. Jango achava que ia deixar os milicos em polvorosa. Decidiu que os dois iriam separadamente, Jango para Paris e Orpheu para Madrid levar um recado para Jorge Antônio, amigo fiel de Perón. Depois volto para o Uruguai, passando pela Espanha.
Jango viajou para Paris, em 1969, com passaporte diplomático do Paraguai, dado pelo ditador Alfredo Stroessner, para tratamento de saúde, em Lyon. No aeroporto, ele e o filho foram recebidos por Pedro Toulois e se hospedaram no Hotel Claridge, na Chams-Elysés, onde sempre ficavam quando iam a França.
Depois da sua consulta, Jango teve o primeiro contato com Violeta Arraes, irmã de Miguel Arraes que estava na Argélia. Ela apoiava todos os brasileiros que chegavam a Paris. Era uma grande combatente ligada a dom Hélder Câmara. Outro encontro foi com o jornalista Hermano Alves, da Tribuna da Imprensa, Folha de São Paulo e Correio da Manhã. Os dois ligaram para Josué de Castro e se encontraram.
Em passeio por Paris, Jango comentou a extravagância do capitalismo quando se deparou com uma loja de venda de roupinhas para cachorros, quando muitas crianças morriam na África. No apartamento de Oscar Niemeyer, programou um encontro com estudantes e intelectuais.
Ele não estava, mas Ubirajara Brito tinha a chave. Norma Bengell gostou da ideia e anunciou também a presença de Glauber Rocha, que estava filmando na Itália. Estiveram ainda o secretário do Partido Comunista da França para América Latina, Georges Fourmial e outras pessoas, como o Fernando Gasparian, que estava exilado na Inglaterra, e em seu retorno ao Brasil fundou o jornal semanário Opinião. Depois foram à clínica, em Lyon, fazer check-up, acompanhado de Ubirajara Brito.
O exame constatou comprometimento nas coronárias de Jango. Ubirajara retornou a Paris, mas Jango continuou a viagem pela Suíça onde, em Genebra visitou Paulo Freire. Conversaram sobre o plano de alfabetização que queriam implantar antes do golpe de 1964. Jango o havia convidado para desenvolver o Plano Nacional de Alfabetização, com seu método de conscientização de massa. A intenção era criar 20 mil círculos de cultura no Brasil e capacitação de mais de seis mil coordenadores. O plano iria alfabetizar dois milhões de pessoas, só em 64. Na época, 15 milhões dos 65 milhões de habitantes eram analfabetos.















