Durante o período do cangaço, que durou praticamente um século no Nordeste, além dos seus apetrechos que carregavam, como chapéus de couro de aba dobrada, com estrelas de Salamão, cartucheiras, bornais bordados e outros utensílios de sobrevivência no agreste, os cangaceiros faziam uso de cartas enviadas aos amigos, coronéis coiteiros e oficiais das volantes, e carregavam consigo suas orações (de grande valor) para protegê-las dos seus inimigos.

As cartas, em sua maioria, principalmente de Lampião, no auge do banditismo, nas décadas de 20 e 30, eram endereçadas através de um portador do seu grupo aos fazendeiros, com cobranças (na verdade eram taxas de pedágios de proteção), aos inimigos, com intimidações e até a oficiais chefes de polícia, com recados severos para que parassem com os armamentos e as perseguições.

Com o português, considerado por estudiosos como a verdadeira língua de Camões e Gil Vicente, Lampião mandou uma dessas cartas ao major Pedro Augusto, onde em determinado trecho diz: “Não acho direito é vocês estarem armados e juntando gente. Isto não está direito. Preciso dar passagem deste lugar e não quero alarme no Ceará! Não sou moleque para andar com histórias erradas”.

Em outra, ele encaminha uma corta para Antônio Mando, onde pede dois contos de réis. Espero isto sem falta agora alarmi e não mandi qui depois vae se sahir muito mal, resposta pelo mesmo portador sem mais, não falti olhi olhi, Capm Virgulino Ferreira vulgo Lampião”.

Para Elias Barbosa, ele enviou uma carta de advertência: “O Sr. está com Um peçoal Em arma contra mim, portanto, quero qui faça como homem, sahia da Rua e mi pegue”. Mais na frente diz que “Eu tenho comido toicinho com Mais cabelo”. No final, assina seu nome com vulgo Lampião u terror do Sertão. Para o sargento José Antônio do Nascimento, em 1926, manda uma bem desaforada.

Corisco também endereçou uma carta para o padre José Bulhões, em 1935, da freguesia de Santa do Ypanema. Esta foi inusitada porque o portador levava o filho do chefe que teve com sua mulher Dadá e pedia ao vigário que criasse o menino como se fosse o seu filho, da melhor forma que pudesse.

Também o Moita Braba enviou uma carta semelhante ao promotor Manuel Cândido, em 1937, pedindo que o magistrado criasse seu filho que teve com Sebastiana Rodrigues Lima. Interessante que ele assina como Coronel Moita Braba.

No inventário dos objetos apreendidos, feito pelo Regimento Policial Militar, foram encontrados os seguintes pertences de Lampião: Chapéu de couro com seis signos de Salomão e 55 peças de ouro; peças e moedas de ouro; mosquetão mauser, modelo 1908 de uso exclusivo do Exército Nacional; faca; cartucheira para 121 cartuchos; bornais; lenços vermelhos; pistola parabélum; luvas; cobertas; anéis de ouro e prata; óculos (armação de ouro); e um pacote de orações.

Com Lampião foram encontrados vários livrinhos de orações onde, segundo a crendice e o misticismo religioso nordestino, funcionavam para fechar seu corpo contra balas e facas. Em todas essas orações eram citados os nomes de Jesus Cristo e Deus e, em uma delas, misturavam-se narrações do Antigo e do Novo Testamento.

Com o cangaceiro estavam em seus bornais as orações Da Pedra Cristalina, onde pede que se o inimigo atirar saia água pelo cano da espingarda e se for faca que caia da sua mão; a oração do Salvador do Mundo, a mais longa, intercedendo concórdia entre ele e seus inimigos (mistura trechos do Antigo com o Novo Testamento) e cita Santo Miguel Arcanjo trocando nome e sobrenome, de frente para trás e de trás para frente; a oração Das Treze Palavras Dictas e Retomadas e; por fim, a oração De Nosso Senhor Jezuz Christo.

Todas essas cartas e orações foram publicadas pelo historiador Frederico Pernambucano de Mello, tendo como fonte o Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas, onde se acham ainda as orações das Virgem das Virgens (prodigiosa), da Beata Catharina e de Santo Agostinho, está muito utilizada por Lampião.