janeiro 2026
D S T Q Q S S
 123
45678910
11121314151617
18192021222324
25262728293031

:: jan/2026

PRINCESAS FERROVIÁRIAS

De autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Ah, estações ferroviárias!

Princesas centenárias,

Trilhos do “Trem das Sete”,

“O último do sertão”,

Tempo de esperança e fé,

Nas serras de Wilson Aragão,

No canto do “Capim Guiné”.

 

Tuas lindas fotografias

Me enchem de fantasias,

De moleque piritibano,

Saindo do chão da praça,

Correndo de calça curta,

Para esperar a Maria Fumaça.

 

Formosas princesas,

De arcadas inglesas,

Minha saudade ainda voa,

Nos códigos do telégrafo,

E na paisagem da janela,

Eu livre viajo numa boa.

 

Em meu apaixonado olhar,

Princesas do Além-Mar,

De belas construções,

Embarcaram passageiros,

Inspirando lindas canções.

 

Princesas sertanejas,

De encantadoras fachadas,

Ainda vivas na memória,

Da nossa gente viajante,

Do passado de muita história.

 

Princesas ferroviárias

De esculturas elegantes,

Te amo entre as amantes,

Poéticas e relicárias.

TENHO MEDO DOS NOVOS MÉDICOS

O conhecimento e o saber profissional no Brasil só fazem cair. Depois da divulgação de uma pesquisa do Ministério da Educação (MEC) sobre as faculdades de medicina, confesso que meu medo desses novos médicos, de 23 a 25 anos, só aumenta. Antes de ir a uma consulta, o paciente deve indagar a idade do médico e em qual faculdade estudou, mas quem depende do SUS, fica sem opção.

Médico tem que ser dos 50 aos 60 anos para cima, mas é difícil encontrar. É aquele que lhe examina todo, passa mais tempo com você no consultório conversando sobre passado de seus hábitos, doenças hereditárias e outros detalhes da sua vida. Você sente mais firmeza e até passa mais segurança psicológica.

Hoje são cinco ou dez minutos no máximo, para entrar logo o próximo. O médico, ou a médica, não importa a especialidade, nem olha para sua cara e passa um monte de exames para alimentar a indústria dos laboratórios e dos farmacêuticos.

Poucos lembram dos médicos de família que, com poucos recursos tecnológicos que se tem atualmente com o avanço da ciência, detectava a doença da pessoa, receitava o medicamento e, como sempre, acertava na mosca. Do jeito que está, é fácil fazer o papel de charlatão.

Bem, vamos a alguns pontos dos últimos resultados divulgados pelo MEC e pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, com dados atualizados de 2026 (referentes às avaliações do Enade 2023/24). Muitos já viram, mas sempre é bom memorizar.

A pesquisa indica um cenário preocupante, mas que não foi surpresa. Existe um destaque para a excelência de universidades públicas e a reprovação de mais de 30% dos cursos em avaliações de desempenho.

As faculdades particulares se tornaram mercadorias em prateleiras de supermercados. Com o dinheiro do governo federal, isto é, do contribuinte, através do FIES, os donos dessas unidades ficaram ricos e milionários. Antes se criticava as faculdades paraguaias e as bolivianas. Não há muita diferença aqui no Brasil.

Com conceito 5 (nota máxima) estão os cursos da USP, Unicamp, Unesp, UFMG, UESC, UESB, UDBA, UNIVASF e UFC. Na excelência das privadas se encontram as faculdades de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, Israelita de Ciências da Saúde Albert Einstein, Unoeste, Famerp, Centro Universitário São Caetano e Unifagoc.

Dos cursos particulares, mais de 30% foram reprovadas e receberam notas de 1 a 2. Em situação crítica estão os cursos Afya (Santa Inês/BA, Vitória da Conquista/BA, Parnaíba/PI). Olhem aí, Conquista, a “Suíça Baiana” (idiotice) está no rol. Muitos formados nem fazem mais residências em hospitais como era obrigatório.

Em termos de vagas, o Brasil ultrapassou 50 mil, com 494 escolas médicas, das quais 80% são privadas. As instituições públicas da Bahia e do Nordeste consolidaram resultados de alto nível. São nessas que o governo federal deve investir pesado, para ampliar vagas e melhorar a formação.

O MEC garante que a fiscalização tem sido intensificada, mas não confio, porque no Brasil ainda prevalecem as interferências políticas. As corrupções epidêmicas e os subornos estão aí que nos comprovam isso.

Este quadro de decadência do ensino não se concentra apenas na área da medicina, mas em todas as esferas profissionais, como do Direito, do Jornalismo, da Engenharia, Arquitetura, da Enfermagem, da Administração, da Economia, da Pedagogia e tantos outros cursos.

Além da estrutura precária das escolas, com mais gravidade nas ciências exatas (muitas estão ligadas diretamente com vidas humanas), os jovens profissionais de hoje foram diplomados por professores originários de ensinos deficitários. É o tal do ciclo vicioso.

É uma cadeia que vai gerando mais e mais decadência, com um quadro de piora no conhecimento e no saber, sem perspectivas de melhora, se não houver um choque ou uma revolução de mudanças na educação. Essa queda profissional abrange todos os níveis, e a maioria dos jovens de hoje é inexperiente em suas atividades.

A medicina, por exemplo, uma profissão que lida com vidas humanas, se tornou hoje um mercantilismo, como se fosse uma máquina registradora de se fazer dinheiro. As crianças e os adolescentes sonham em ser médicos por vaidade dos pais e porque eles dizem que dá dinheiro. Acabou esse negócio de vocação de que se falava antigamente.

Qualquer cidade hoje de porte médio, mesmo sem condições, tem uma faculdade privada de medicina porque o deputado buliu lá com seus pauzinhos para conseguir uma autorização no Conselho do MEC e por achar que isso é sinal de progresso.

Por outro lado, o empresário sabe que vai ganhar muita grana com o financiamento de alunos das cotas pagas pelos contribuintes. A saúde do povo que se dane, que se lasque. Essa é a realidade nua e crua. O resto é blábláblá de ideologia barata.

TAMBÉM QUERO UM PRÊMIO NOBEL!

Sou jornalista, escritor, poeta, letrista, fotógrafo; ganhei prêmios de reportagens; fiz matérias perigosas e fui ameaçado de morte; desbravei o sertão; passei fome nas secas; comi o pão que o diabo amassou na capital; e, por isso, também quero um Prêmio Nobel, não importa que seja de Literatura, da Paz ou qualquer outra coisa. Pode ser como velho rabugento chato que está sempre reclamando e contestando.

Outro motivo justo é que sou brasileiro e nordestino sofredor de todas as mazelas, num país que nunca recebeu um Prêmio Nobel e onde estão os maiores índices de desigualdade social. Seria uma forma de reparação pelos séculos de exploração colonial e escravidão. Acho que sou o mais indicado para receber a comenda e prometo não transferir a homenagem para ninguém.

Vou escrever, ou mandar uma mensagem virtual para a diretoria da Fundação Alfred Nobel exigindo o meu prêmio pelos meus feitos porque também sou filho de Deus e acho que mereço. Não deram para María Corina Machado, Boby Dylan e tantos outros por ai! Ora, vejo tanta gente ganhando prêmios e sendo homenageado. Vou fazer 80 anos e nada! Isso é muito injusto. Estou puto da vida! Irado eu viro bicho! Nem adianta me chamar de caquético senil!

Estou pensando em dar uma de menino birrento e briguento. Quero meu Prêmio Nobel! Em vida já apartei diversas brigas entre colegas e amigos; conciliei e fiz apertarem as mãos. Numa dessas, levei até socos e porradas. Dei muitos conselhos e até esmolas nas ruas. Discuti ideologias controversas com muita gente e consegui inimizades. Sou até membro fundador de um sarau que está completando 16 anos e atualmente moro na rota do lixo.

Ah, ia esquecendo de dizer que comi no “bandejão” da Residência Universitária da UFBA por quatro anos durante a ditadura civil-militar. Não podia parar num poste que logo vinha um militar de lá com um fuzil me indagar no que estava pensando. Conheci todos os cabarés de Salvador e amanhecia o dia ouvindo músicas bregas. Finais de semana me enterrava nas boemias das cachaças. Tenho bagagem suficiente no curriculum vitae! Até estudei latim e grego nos antigos ginásio e clássico.

Quando menino fui tropeiro, agueiro, carregador de malas e bagagens dos passageiros do trem que cortava pela cidade de Piritiba, o chamado “Trem Groteiro”. Depois fui sacristão, em Mundo Novo, do vigário Nicanor. Por oito anos fui seminarista para ser padre. Sabe o que é assistir missa de batina todos os dias! Não é fácil, meu camarada capitalista!

Portanto, também quero ser laureado, com muita pompa, bajulação e puxação de saco durante a solenidade do Prêmio Nobel. Quem não for vou cobrar uma taxa alta. Quem não pagar, mando matar. Se não me derem, vou tomar a Groelândia, que fica muito longe, no fim do mundo, e é toda de gelo. Vou guerrear, e nada de paz.

Além do mais, estou com a ideia de formar um bando de cangaceiros nordestinos cabras da peste, daqueles valentões com sangue no olho, e invadir as cidades de Anagé, Aracatu, Belo Campo, Itambé, Caraíbas, Caatiba, Maetinga, Tremedal, Planalto e outros municípios. No cassete, ou na bala mesmo, vou anexá-los à Vitória da Conquista, já que se recusam a vender seus territórios. Botei preço, e até agora nada! Pago à vista, pelo pix, na hora.

Quem não me apoiar, vai ter que pagar pedágio caro para entrar aqui. Vou decretar um tarifaço. Ilhéus e Itabuna que se cuidem. Aquelas belezuras de praias vão ser só nossa. Em meus planos está a abertura de um grande canal do mar até Vitória da Conquista. Aqui vai ser um tremendo balneário, melhor do que Cancun, no Caribe.

Providenciem logo o meu Prêmio Nobel, senão o bicho vai pegar! Quero ainda ser premiado com o Oscar de melhor bonachão, falastrão e guerreiro dos guerreiros. Caso contrário, vou pipocar e deportar todos forasteiros e imigrantes de Conquista que ficam aqui falando mal da nossa cidade e criticando nossa cultura.

 

SONHOS DE TESOUROS ENTERRADOS

Antigamente os mais velhos contavam histórias e estórias de pessoas do sertão nordestino e de outros cantos que em vida enterravam moedas e até tesouros em botijas (joias, ouro, objetos valiosos) sempre em torno de uma grande árvore (umbuzeiro, juazeiro, gameleira, faveleira, angico, aroeira, barriguda), próximo a cacimbas, açudes ou em algum ponto estratégico das fazendas.

Naquela época do dinheiro no colchão (muito manjado), ainda nos tempos do Brasil colônia e do império, não existiam bancos e o recurso era guardar suas economias dentro das casas (na comieira) ou enterrar debaixo do chão. Quem mais utilizava dessa prática eram os avarentos e os chamados “mão de vaca” usurários.

Estava imaginando que na era do cangaço, principalmente nas duas primeiras décadas do século XX, muitos coronéis e usineiros devem ter enterrado seus tesouros em algum lugar para não cair nas mãos dos bandoleiros. Não vou revelar quem, mas cochicharam em meu ouvido que existe um tesouro enterrado aqui na Serra do Periperi, inclusive com o provável local.

O Nordeste deve ser um “tesouro”. É só sonhar, seguir o mapa e fechar o corpo para se proteger das almas penadas. Meu amigo Beto Veronezzi sabe de todos os truques. Sua consulta é cara, mas vale a pena.

Lembro que meus pais contavam esses causos em rodas de conversas com seus compadres, na luz do fifó do candeeiro, tomando bules de café, mas a parte que nos dava mais medo como crianças, era a dos sonhos que outros (parentes da família, amigos e os felizardos mediúnicos) tinham sobre os lugares onde esses tesouros estavam enterrados.

A noite avançava enquanto o medo aumentava nos suspenses quando vinha o lado das assombrações e a coragem de quem se atrevia arrancar o tesouro. A gente era muito pobre e eu ia dormir pensando naquelas prosas do outro mundo e com receio de sonhar com alguma alma de tesouro. Quando via uma árvore grande no terreno, imaginava logo que ali poderia ter um tesouro enterrado, sobretudo quando era oca.

Contam as lendas que o sonhador para conseguir desenterrar o tesouro tinha que fazer pactos, rituais, mandingas de corpo fechado, rezas fortes com as almas penadas ou espíritos que vinham do além, para ter a permissão de ficar com a riqueza. As assombrações me davam arrepios, mas não deixava de escutar tudo calado.

Em vidas, as pessoas nunca revelavam onde esconderam suas riquezas. As histórias são baseadas em crenças populares que unem cobiça, fé e misticismo. Não era fácil desenterrar o tesouro perdido, e o interessado ou interessada tinha que ter muita coragem para enfrentar as assombrações da meia noite.

Na dura peleja de ficar rico com o tesouro, existiam vários pactos e rituais, como a Oração das Almas Penadas que consistia em rezar um determinado número de ave-marias, especialmente nas sextas-feiras ou de madrugada, pedindo a exata localização.

Outros faziam promessas em troca da revelação, como realizar missas em nome da alma. O vigário já ficava desconfiado quando alguém pedia uma missa para alguém distante. Em troca ela indicaria o lugar em sonhos ou através de sinais.

Meu pai narrava que durante a escavação, geralmente a alma aparecia de forma assustadora para testar a coragem do buscador. Não poderia ter medo e manter silêncio absoluto até a retirada da última moeda ou objeto. A alma fazia o vento soprar forte, jogava pedras, paus e a vegetação balançava toda em torno do tesouro.

No imaginário popular existia o ouro encantado pela mãe do ouro ou pelos espíritos. O pacto era necessário para desencantar. Muitas dessas lendas vêm dos tempos dos escravos ou das guerras onde riquezas eram enterradas para proteção contra ladrões.

De acordo com a tradição, se o pacto for quebrado, se falar para alguém, ou sentir medo, a alma desapareceria com o tesouro, ou afundaria ainda mais na terra. Os relatos misturavam orações cristãs com crenças de assombrações.

No folclore brasileiro, tinha ainda o pacto do corpo fechado, associado ao Livro de São Cipriano. Havia o pacto com o diabo/demo para encontrar a riqueza perdida. Para o indivíduo ficar invulnerável a perigos físicos ou espirituais, era obrigado a fechar o corpo no pacto de sangue com a alma enquanto realizava o trabalho de desenterrar a botija.

Se for premiado, a pessoa entrega a alma após a morte. Se descumprir com os pactos ou rituais, fica com o corpo seco, ou é amaldiçoado para sempre. Nesses tempos difíceis, onde o dinheiro está escasso, muita gente se arriscaria a desenterrar esses tesouros e entregar a alma ao satanás. Aliás, essa prática já é feita quando se vende a alma ao capitalismo, quando corrompe e se deixa corromper.

 

AINDA SOBRE QUIOSQUES FECHADOS NO CRISTO DA SERRA DO PERIPERI

Quanto a questão dos quiosques fechados no Cristo da Serra do Periperi, por mim abordada nesta semana, em áudio o professor Durval Menezes disse ser muito simples e objetiva a resposta. De acordo com ele, tudo está na falta de segurança para que haja abertura de qualquer comércio no local, no que concordo plenamente com o mestre memorialista.

Há mais de 40 anos que o monumento do artista plástico Mário Cravo foi cravado no alto da Serra, pouca coisa mudou de lá para cá, e o conquistense ainda tem medo de visitar o Cristo e ser assaltado. Se quer uma prova do que digo é só perguntar a qualquer um.

Como comentei, cada prefeito colocou um tijolo e hoje temos um mirante, mas o cenário permanece de abandono e isolamento. Sempre que levo alguém com a máquina fotográfica e outros objetos, logo na subida ouço uma advertência: Vamos ter muito cuidado e não demorar muito!

Durval afirmou que ninguém se arrisca explorar o comércio de comes e bebes no alto do Cristo porque toda mercadoria será saqueada e o proprietário ainda corre o risco de ser morto.  “Apesar do alto da Serra estar sob a proteção do Cristo, talvez seja a área mais perigosa de Vitória da Conquista”.

Há muitos anos, conforme Menezes, que o banditismo ocupa aquela área, fazendo do Poço Escuro seu quartel general.  “Por muito tempo o banditismo decretou quem deveria entrar ou sair do Alto do Cruzeiro. Os Correios deixaram de entregar encomendas, bem como as empresas de gás”.

Em sua opinião, o alto da Serra poderia ser o maior ponto turístico de Conquista, um cartão postal para as pessoas tirarem fotografias e apreciarem a cidade lá do alto. “Os quiosques seriam mais uma atração, desde que houvesse uma fiscalização segura para não se tornarem pontos de vendas de drogas”.

Eu vou mais além, meu amigo professor, e defendo que toda aquela área em torno do Cristo seja ampliada e urbanizada, com iluminação, maior espaço para estacionamento de veículos, um posto policial permanente, bem como implantação de um restaurante que pudesse funcionar até durante à noite. Todos ganhariam com isso e, sem dúvidas, o Cristo seria a maior atração turística.

Estive visitando o local no último final de semana e observei o vazio de pessoas, sem considerar a expressão de receio em seus rostos apressados para deixar a área. Quem chega ali é logo recepcionado pelo latido ensurdecedor da cachorrada que ocupa a frente dos quiosques. O visitante pode até ser atacado por um cão de rua.

EVENTOS DA POLÍCIA

Em épocas de verão, a corporação da polícia militar, como está previsto para este final de semana (sábado e domingo) realiza eventos de shows musicais e outras atividades culturais, oferecendo todo suporte de segurança, embora o espaço para estacionamento é exíguo. Da última vez que fui, tive que parar o carro perto do Anel Viário, dentro dos matos e pagar uma taxa ao “guardador”.

A iniciativa é louvável, mas tudo não passa de uma enganação porque depois, durante o resto do ano, a situação de abandono continua a mesma, sendo um ponto perigoso para visitas. Quem se atreve ir ali à noite, no máximo acompanhado num pôr-do-sol?

Como não existe muita opção nesta “Suíça Baiana” (ridícula a denominação) todos vão subir contentes a pés, de bicicleta, de moto, correndo, de carro próprio e festejar as atrações, mas ninguém tem a sã consciência de reivindicar e cobrar melhorias para a área. Tudo continua como dantes na casa de Abrantes.

Comandante Paulo, o que queremos é um posto policial permanente e que o poder executivo, em parceria com o setor privado, invista na urbanização do espaço, de modo a oferecer condições para que haja eventos todos os finais de semana e não somente em edições esporádicas.

Sei que um empreendimento dessa natureza não é da alçada da polícia militar, mas da Prefeitura Municipal que nunca teve esta visão de transformar o alto do Cristo do escultor Mário Cravo no maior ponto de visitação dos moradores e de pessoas que chegam de fora.

Com um projeto desse porte, ganhariam os artistas da cidade com suas apresentações culturais, os comerciantes, o próprio executivo com a arrecadação de impostos e todos os conquistenses em geral, inclusive aproveitando o nosso período invernoso, que não é uma “Suíça Baiana”, mas é friento.

NAZARENOS CONTRA OS CANGACEIROS

“A FORÇA DE NAZARÉ/É VALENTE E TEM AÇÃO/ANOITECE E AMANHECE/ NO RSTRO DE LAMPIÃO”

Em pleno sertão pernambucano, na região do Pajeú, com uma população pacata e simples, várias vilas e povoados começaram a prosperar no comércio e na agricultura nos primeiros anos de 1900 do século passado, principalmente lá pelos meados da segunda década, mas começaram a ser fustigados pelos cangaceiros. No vale as terras eram mais férteis.

Além do São Francisco, a vila de Nazaré, nas proximidades da Vila Bela (Serra Talhada) e Floresta, foi um dos destaques dessa prosperidade e também de resistência e bravura contra o banditismo, exemplo de que a união faz a força. Através da família Ferraz Flor, os sertanejos se armaram para defender a vila.

Como em Mossoró, no Rio Grande do Norte, onde Lampião e seu bando foram impedidos, em 1926, de tomar a cidade, o rei do cangaço também encontrou barreiras para dominar a vila que sempre foi visada pelos irmãos Ferreiras (Virgulino, Ezequiel, Livino e Antônio).

Quem conta esta história épica dos sertões dos tempos do cangaceirismo dos anos 20, com auge em 1926/27, como destaca o historiador Frederico Pernambucano de Melo, é a escritora e professora Marilourdes Ferraz em sua obra “O Canto do Acauã”, uma ave de canto agourento do Nordeste místico.

Em sua narrativa, baseada em testemunhas e, sobretudo, nas memórias do seu pai Manoel Ferraz Flor, que chegou a ser coronel das volantes, ela pinta os irmãos Ferreiras como encrenqueiros e que Lampião começou a provocar os nazarenos com furtos e roubos e, como foi revidado, por vingança passou a atacar a vila constantemente.

Tudo começou quando a família Ferreira se mudou para Nazaré vindo do Poço Negro por causa das intrigas e tiroteios de morte contra José Saturnino Borges, isto num acordo de se acabar de vez com as desavenças. Seus pais foram depois morar em Água Branca (Alagoas), mas os irmãos voltaram para infernizar a região.

Marilourdes faz uma imagem positiva das volantes como homens corajosos e heróis, apesar das deficiências em termos de recursos materiais e humanos. No entanto, o que se ouve era que muitos combatentes se davam à violência, inclusive contra as mulheres.

Existe fundo de verdade nisso e muitos soldados torturavam sertanejos para confessar o paradeiro dos cangaceiros. Por sua vez, as pessoas de bem temiam as represálias e ficavam caladas, como ocorre nos tempos atuais nas favelas das grandes cidades.

Os militares entram derrubando portas de moradores com suas botinas, como se todos fossem bandidos. No tempo do cangaço, nem todos eram cangaceiros. A maioria era gente ordeira que só queria trabalhar sossegada para sobreviver às adversidades das secas. Ficavam entre a cruz e a espada, ou seja, as estiagens e os bandoleiros.

ALISTAMENTO DOS CIVIS

Segundo ela, a situação ficou tão crítica que os moradores de Nazaré se armaram e muitos se alistaram nas forças das volantes para combater os bandoleiros, como naqueles filmes de faroeste, mas Lampião não desistia e sempre estava armando suas ciladas e emboscadas, especialmente nos anos 20.

Marilourdes narra várias escaramuças e diz que Lampião passou a ser perseguido quando se encontrava próximo entre Serra Talhada e Floresta, tudo para evitar sua entrada em Nazaré que se tornou uma fortaleza. Faz lembrar daqueles povoados mexicanos lutando de dentro de suas casas contra os bandidos do Oeste, do outro lado da fronteira.

A escritora descreve em seu livro várias batalhas, como a de novembro de 1925 quando Lampião se encontrava na fazenda Cipó, às margens do riacho São Domingos, em Serra Talhada e rumava para a Serra dos Pereiros. Prontamente João Ferraz, Manoel Flor e outros se prepararam para dar buscas aos bandidos. Houve um tiroteio sangrento num campo de algodoal que correu muito sangue.

No capítulo “Alistamento no Sertão” ela fala das dificuldades de enfrentar os cangaceiros, não somente Lampião, naquelas caatingas íngremes. Foi aí que o comerciante a agricultor João Flor teve a ideia de solicitar ao coronel paraibano José Pereira, da cidade Princesa Isabel, o alistamento dos civis.

PEDÁGIO E SEQUESTRO

Ferraz cita o cangaceiro José Gomes, o Palmeira, que se incumbia da tarefa de extermínio, colocando o povo em pânico (muitos fugiam de suas casas). Com o mesmo modus operandi dos traficantes e milicianos urbanos das favelas, os cangaceiros extorquiam os proprietários e obrigavam a pagar um pedágio de segurança.

Esse José Gomes chegava na residência ou numa casa comercial com um rifle papo-amarelo na horizontal à altura do pescoço, configurando uma cruz, com os braços estendidos para prender o coice da arma com a mão direita e o cano com a esquerda. “Ele era o protótipo do cangaceiro representado nestes versos: “Eu sou cabra ignorante/ Só aprendo a matar/Fazer a ponta da faca/Limpar rifle e disparar/ Só sei fazer pontaria/ E ver o cabra embolar”.

De acordo com a escritora, Lampião foi o primeiro cangaceiro, na história do Nordeste e talvez do Brasil, a inventar o sequestro de resgate de fazendeiros e comerciantes ricos. Ela relata, com sua linguagem simples e atrativa, numa contação de histórias, a invasão de Sousa (Paraíba) por Livino Ferreira e seu bando.

Nesse episódio foi sequestrado o magistrado da cidade e seu resgate foi pago. O fato ocorreu em julho de 1924. Depois o bando atravessou a fronteira de Pernambuco. Para perseguir os bandoleiros, o major Teófanes Torres (foi ele quem prendeu o cangaceiro Antônio Silvino) assumiu o comando.

Sob suas ordens estavam muitos nazarenos, como Odilon Flor. Manoel e Euclides Flor, João Domingos Ferraz, dentre outros. Nessa empreitada teve o reforço do valentão Clementino “Quelé” que em 1922 cometeu um, homicídio e entrou no grupo de Lampião.

Durou pouco tempo no bando por causa de divergências, inclusive com o “Meia-Noite”, o homem de confiança de Virgulino. Na retirada disse que não passasse em seu sítio, mas a ordem foi desobedecida e “Quelè” foi cercado em sua casa. Recebeu o socorro do destacamento de Triunfo. Perdeu dois irmãos e se alistou na força volante. Diz que ele enfrentou Lampião e chamou para uma briga a sós.

No estado da Paraíba, as localidades de Princesa, Conceição, Misericórdia e Piancó eram as áreas preferidas dos cangaceiros. Muitas famílias foram trucidadas. Nesse ano de 24/25, foi ouvida uma canção cujo estribilho era assim: “Ô seu Virgulino?!/ Me espere, faz favô,/ Pra receber o recado / Que seu Quelé te mandô”. Em outra diz: “Canta tanta pabulage/ Mas no pisada rebêra/Quando vê Quilimintino/ Sai danado na carrera”.

TRAIDOR SEMPRE TEM UM FIM TRÁGICO

De acordo com a história da humanidade, o traidor sempre teve um fim trágico, principalmente quando age contra sua pátria, seu povo, além de ser vergonhoso, nojento e acaba sendo renegado pelo derrotado e pelo vencedor, que não mais confia no agente denunciador.

Judas traiu Cristo em troca de 30 moedas e terminou se enforcando por arrependimento, Joaquim Silvério dos Reis traiu a Inconfidência Mineira (1798) no lugar do perdão da dívida que tinha para com a Coroa de Portugal e morreu abandonado e desprezado no Maranhão, em 1819, Sabina Druz denunciou o movimento dos Malês, que seria entre 24 e 25 de janeiro, na Bahia, em 1835, e não se sabe qual fim levou, os romanos Brutus e Decimus, depois de trair Júlio César, foram cruelmente mortos pelos soldados de César Augusto.

Existe uma lista enorme de traidores que se lascaram. Em nossa atualidade, em pleno século XXI, a venezuelana María Corina Machado está fazendo jus a este papel tão ridículo e terá um fim fracassado e humilhante, aliás já está tendo. Nem precisa esperar pela história.

Ela está sendo tão repugnante que foi à Casa Branca (há meses vem pedindo a intervenção do seu país pelos Estados Unidos) entregar o Prêmio Nobel da Paz para o Donald Trump e entrou pelas portas dos fundos, como se fosse uma empregada doméstica do ditador yanque.

Que papelão feio, María Corina! Seus conterrâneos, inclusive seus apoiadores, devem estar envergonhados e não mais irão às ruas lhe aplaudir, a não ser uns gatos pingados traidores. Onde está a sua propalada democracia, liberdade e independência?  Como vender a soberania da sua nação? Isto que você fez é uma grande covardia!

Não se trata aqui de defender o regime de Maduro que já estava podre por muito tempo. Fazer oposição a uma ditadura é uma coisa nobre, mas entregar o seu país a um pirata estrangeiro, é outra totalmente diferente. Que ela continuasse sua luta, mesmo sendo perseguida, mas não agir como uma traidora, imaginando que seria premiada com o poder.

Corina já está pagando pela maior besteira e idiotice que fez em sua vida. Na realidade, a venezuelana jogou sua credibilidade e sua confiança, conquistadas com sacrifício, no primeiro lixo que encontro na esquina, ou na porta dos fundos da Casa Branca. Foi uma cena lamentável e triste de se ver!

Por falar nisso, os administradores suecos da Fundação Nobel devem estar tremendamente arrependidos. O inventor da dinamite (se sentia um mercador da morte), Alfred Nobel (nasceu em 1832), que criou o Prêmio para incentivar várias categorias profissionais (Medicina, Literatura, Física, Química, da Paz e depois Economia), em 1895 (faleceu no ano seguinte), deve estar se revirando no túmulo.

Pelo menos a Corina conseguiu realizar um fato inédito na história do Prêmio (começou em 1901) que foi transferir sua comenda para um terceiro que mandou atacar seu povo. Como falou o diretor da Fundação, o Prêmio é intransferível. Trump se apoderou dele no pau.

Não tenho dúvidas que seu fim, Corina Machado, será igual ao dos outros traidores da história. No máximo poderá ser colocada no poder na base da força militar dos EUA – o que não acredito – e, mesmo que isto aconteça, não passará de uma marionete nas mãos de um facínora. No mínimo será uma funcionária de recado, oprimida pelo opressor, sem democracia e liberdade de agir.

TANGER O MEDO

(Chico Ribeiro Neto)

Um cartaz de papel colado à parede de um bar na Barra diz: “Fim do Medo”.

Medo da professora, do leão do circo, do palhaço, do escuro, medo de Donald Trump.

Medo de perder o emprego, a vergonha, a esperança, o vestibular e a mulher.

Medo de careta, da polícia e do ladrão. De perder o ônibus, o carro e a vontade de viver.

Medo de deixar de crer no país, do vizinho e de sair à noite em Salvador. De assombração, de avião, de avestruz e de onça.

De barata, de dentista e de lagartixa.

Medo do banco, de emprestar dinheiro e do golpe no celular.

Medo de gafanhoto, de trovoada e de cara escroto.

Lembro o belo poema de Carlos Drummond de Andrade, “Congresso Internacional do Medo”:

“Provisoriamente não cantaremos o amor,

que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.

Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,

não  cantaremos o ódio porque esse não  existe,

existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,

o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,

o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,

cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,

cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte,

depois morreremos de medo

e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas”.

Com as armas de Jorge, a certeza das flores e um certo brilho nos olhos, vamos tanger esse medo para bem longe, pra casa da zorra ou, como dizia meu pai Waldemar, “pra lá onde Judas perdeu as botas”.

(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)

 

QUIOSQUES FECHADOS

Todas as vezes que vou visitar o Cristo da Serra do Periperi, do artista plástico Mário Cravo, fico a me perguntar do porquê aqueles quiosques sempre estarem fechados, quando poderiam estar abertos para atender os visitantes com lanches e bebidas? Ninguém se interessou em se habilitar para explorar aqueles pontos, ou a Prefeitura Municipal não abriu concorrência? Os quiosques se transformaram em pontos das cachorradas de ruas, como flagraram minhas lentes, na mais recente ida ao local, no feriadão de final de ano, quando levei meu filho, sua esposa e minha neta que vieram do Rio de Janeiro. Apesar das obras elevatórias para se ter uma vista melhor da cidade lá do alto, pouca gente tirando fotos e uma sensação de insegurança. O local, que poderia ser um cartão postal de Vitória da Conquista, bem visitado, passa uma impressão de verdadeiro abandono, sem uma digna urbanização e mais vigilância para quem chega de fora. Há 35 anos, quando vim trabalhar em Conquista como jornalista de A Tarde, pouca coisa mudou, e cada prefeito faz um tiquinho. Passa um tempão para vir outro e colocar um tijolo para dizer que fez alguma coisa. Aqui ali era para ser um ponto de encontro, lazer e divertimento todos os dias, principalmente em finais de semana, com bares e restaurantes abertos, com muita segurança e estrutura. Toda vez que subo à Serra ao encontro do Cristo, tenho a sensação que ele se sente esquecido, na solidão do tempo e no zunir do vento. Aliás, sua base está suja de velas, santinhos e outros objetos como sinais de promessas de religiosos. Nada contra a fé, mas a escultura do Cristo não pode se transformar numa romaria. É lamentável e vergonhoso!

 

 

 

 

 

 

 

 

NO TEMPO DAS QUESTÕES

Do grande Ariano Suassuna, retratando como era e se vivia no antigo sertão, terra isolada e sem lei.

Aqui reinava um Rei quando eu menino:

Vestia ouro e castanho no Gibão.

Pedra-da-sorte sobre o meu Destino

Pulsava junto ao meu seu coração.

 

Para mim, seu cantar era divino

Quando, ao som da viola e do baião

Cantava, com voz rouca, o Destino.

O riso, o sangue e as mortes do Sertão.

Também, coisas das antigas do fundo do baú, uma modinha do século XIX, cantada por João Flor em suas andanças na caatinga durante seus combates contra os cangaceiros. Era assim:

“Há quatro anos passados

Eu era alegre e feliz

Hoje me vejo sofrendo

Foi minha sorte quem quis.

 

Antes eu nunca te visse

Porque não te tinha amizade

Hoje me vejo sofrendo

No rigor desta saudade.

 

Antes eu nunca te visse

Porque não te tinha amor

Hoje me vejo sofrendo

No rigor da cruel dor

 

Quem por si se despreza

Merece ser castigado

Não me queixo da sorte

Vivo de ti separado”.

 

Também gostava de cantar:

 

“Morena, minha morena

Quem te ensinou a nadar?

Foi o tombo do navio

Foi o balanço do mar”

Vale lembrar que “Muié Rendeira” era de um cangaceiro por apelido “Cacheado”.

Extraído do livro “O Canto do Acauã”, de Marilourdes Ferraz

 





WebtivaHOSTING // webtiva.com . Webdesign da Bahia